MOÇAMBIQUE: Mais fácil namorar outro seropositivo

9 05 2008

Chamo-me Manuel Sitóe e tenho 44 anos.

Trabalhei como mineiro na África do Sul entre 1982 e 2002. Lá tive uma mulher que ao andar do tempo adoeceu e morreu em 2002. Os médicos informaram-me que ela sofria de tuberculose.

No mesmo ano comecei a sentir dores no peito. O médico me aconselhou a parar de fumar e beber, mas mesmo assim meu estado de saúde piorou.

O médico me disse que só podia ter contraído HIV ou tuberculose. A partir desse dia passei a evitá-lo e sempre fugia dele quando o via.

Fiquei doente de tal modo que só esperava o dia da morte. Vomitava tudo que comia e era muito fraco. Foi uma fase muito difícil para mim.

Um dia, em Janeiro de 2003, um familiar descobriu meu grave estado de saúde e me trouxe de volta a Moçambique, depois de oito anos sem voltar. Minha mãe e familiares me acolheram e me levaram ao hospital de Mavalane, em Maputo, para tratar da tuberculose.

No hospital tiraram meu sangue e testaram para HIV sem meu consentimento. O resultado saiu positivo e a minha cunhada, que é enfermeira, me disse que eu devia fazer outro tipo de tratamento, mas não me disse qual.

Ela me levou ao hospital Central de Maputo e fui atendido por uma conselheira, que me fez perguntas como “O que é HIV?” e “O que faria se soubesse que era seropositivo?”.

Depois de uma longa conversa, ela me disse que eu tinha HIV.

Tive que aceitar essa realidade.

Quando cheguei em casa expliquei à minha mãe e ela me deu muita coragem. Em 2003 ainda não era fácil ter acesso ao tratamento antiretroviral, mas depois de testar minha carga viral, o médico me aconselhou a fazer dois tratamentos simultaneamente: o de tuberculose e o antiretroviral.

Tinha que comprar medicamentos numa farmácia privada e gastava 2 200 meticais (US$ 100) por mês. Embora meus familiares me ajudassem bastante, depois de seis meses tinha gasto todas as minhas poupanças.

Em 2005, passei a receber o tratamento do programa DREAM da Comunidade Sant’Egidio na Machava. Continuo lá até hoje. Agora me sinto forte e estável porque cumpro todas as orientações do médico.

Não tenho receio de me apresentar como seropositivo. As pessoas tentaram me discriminar, mas não dei espaço para que isso acontecesse.

Encontrar apoio entre os amigos não é fácil porque muitos dos activistas são mulheres. Não é simples contar [que é seropositivo], só contam ali nas organizações, e geralmente não tem homens. É mais difícil para os homens falar sobre isso.

Vida mais fácil a dois

Faz três anos que estou junto com a minha actual esposa, que também é seropositiva.

Nós nos conhecemos no centro de saúde. Eu estava a levar uma amiga para fazer o teste e a Elvira estava lá para se certificar de que era positiva mesmo, porque não conseguia acreditar. Quando olhei para ela, não conseguia acreditar que ela era seropositiva.

Saímos de lá juntos. Falei da minha vida, ela falou da dela. Os dois eram viúvos. Viramos amigos e depois as coisas foram acontecendo.

Eu acho que, se você é seropositivo, é mais fácil namorar com alguém que seja positivo também.

Eu e minha mulher fazemos o tratamento juntos, tomamos os comprimidos na mesma hora, sabemos que cuidados devemos tomar. Quando ela se esquece, eu aviso que ela precisa tomar o remédio. Ela faz o mesmo comigo.

No centro de saúde que frequentamos procuramos encorajar os seropositivos que são solteiros a arrumar um companheiro que também seja positivo. É importante ter alguém para te encorajar. Se um dia você ficar doente, essa pessoa vai entender e te ajudar.

Por isso, casos como o meu e da Elvira são muito comuns. As pessoas se apaixonam. Às vezes você acerta, às vezes erra, mas eu sempre digo que é bom casar para dividir a vida e as dificuldades. A vida é mais fácil assim.
(PlusNews – 09.05.2008 )


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