JOHANNESBURG, 8 Maio 2008 (PlusNews) – Com apenas 25 anos, o moçambicano Milton Manhenje tem uma desenvoltura invejável. Fica à vontade diante das câmeras, fala em público sem hesitar e aborda assuntos que fariam muitos gaguejar.
HIV é um desses temas. Manhenje será um dos apresentadores do programa Sem tabus, que começa a ser transmitido em Junho pela Televisão de Moçambique.
No programa, duas duplas de gerações diferentes debaterão temas considerados tabu, como sexualidade e HIV/SIDA. Cada equipa terá o apoio de dez pessoas da mesma faixa etária para elaborar perguntas e respostas.
“Vamos falar de catorzinhas [raparigas que se relacionam com homens mais velhos por dinheiro], por exemplo, que é um assunto muito polémico”, explica. “Queremos estimular o debate.”
Forma e conteúdo
Estimular o debate sobre HIV de forma atraente é hoje o principal desafio dos meios de comunicação em África.
Essa foi uma das principais discussões da conferência Input 2008, promovida pela organização não-governamental International Public Television em parceria com a African Broadcast Media Partnership Against HIV/AIDS (ABMP).
A ABMP é formada por 53 estações de televisão e rádio em África que se comprometeram a doar cinco por cento de sua programação diária – cerca de uma hora – para conteúdos sobre HIV e SIDA.
O encontro reuniu esta semana em Johannesburg, na África do Sul, profissionais de todo o mundo envolvidos no debate da televisão pública e seu papel em mudanças sociais.
“Precisamos encontrar novas formas de captar a atenção da nossa audiência, para que eles ouçam a mensagem e pratiquem”, disse Bekhizizwe Peterson, da Universidade de Witwatersrand, em Johannesburg, na África do Sul.
A resposta a esse desafio veio salpicada de termos como novos medias, Internet, vídeo, SMS e iPod, principalmente entre o público jovem.
Para Fabian Adeoye Lojede, director executivo de Bluejeans Communications e responsável pelo desenvolvimento de conteúdo de programas, o segredo para tornar a discussão sobre HIV atraente é investir nessa variedade de plataformas.
“Temos que entreter enquanto eles aprendem”, explicou. “O modelo de ameaça, em que se mostram pessoas a morrer, não é ameaçador o suficiente para os que nasceram durante a epidemia.”
Manhenje sabe ao que Lojede se refere. Parte de uma geração que cresceu no meio de mensagens de prevenção – o jovem hoje tem a exacta idade da epidemia – ele admite uma certa fadiga e distanciamento dos modelos tradicionais de campanhas.
Na vida real
A boa notícia é que Manhenje também é parte de uma geração que assiste a uma inédita convergência de diferentes medias e novas abordagens do HIV.
Nós só teremos feito um bom trabalho se a mensagem chegar a quem tem que chegar e as taxas de infecção diminuírem. |
O jovem foi o representante de Moçambique na primeira edição do programa Imagine Afrika, um reality show produzido pela ABMP e que foi para o ar em Outubro de 2007.
Os 12 participantes do programa foram escolhidos entre cerca de 10 mil inscritos em todo o continente e divididos em três equipas, alocadas em países da África Ocidental, Oriental e Austral.
Cada episódio apresentava um problema – ajudar uma família liderada por uma criança, organizar um evento de testagem e aconselhamento de HIV ou melhorar as condições de saneamento em determinada área – e a equipa que tinha que encontrar um meio de saná-lo.
O programa cativou audiências também por tratar da epidemia com pessoas e histórias reais. Um dos episódios marcantes mostrou a participante sul-africana Thembi Ngubane a revelar no ar – para a sua equipa e o público – que era seropositiva.
“A gente não conseguia acreditar porque ela é gordinha, bonita, está sempre alegre”, disse. “Chega a um ponto em que não é mais um programa, é vida real.”
O jovem considera o impacto do Imagine Afrika “fenomenal”, não apenas sobre a audiência, mas também ao nível pessoal. “É impossível voltar a ser a mesma pessoa depois disso”, afirmou.
A segunda edição do programa começará a ser transmitida em breve.
Valores, tradições e práticas sociais
Graça Machel, mulher do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela e viúva do ex-presidente de Moçambique Samora Machel, elogiou os novos formatos dos medias, mas ressaltou que eles devem trazer também conteúdo que “confronte valores, tradições, práticas sociais e padrões duplos”.
Ela dá um exemplo: “Muitos comportamentos dos rapazes são encorajados pelas próprias mães, que os estimulam a ter filhos para dar continuidade à família. Mas se não houver uma mudança de atitude, eles serão os últimos da família.”
A sua lista de tradições e práticas sociais incluiu também o sexo entre gerações, a igualdade entre géneros, os ritos de iniciação e o fortalecimento do sexo feminino.
“Precisamos questionar o modo de pensar”, disse Machel, também directora do Fundo da Aliança Global de Vacinas e Imunização (GAVI, em inglês), que trabalha para criar políticas de vacinação de longo prazo nos países em desenvolvimento.
“Temos que tratar de coisas concretas e falar com grupos específicos para que eles se identifiquem com a mensagem”, continuou.
Mark Stirling, director regional do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/SIDA (ONUSIDA) na África Austral e Oriental, “os media têm o poder de acelerar as mudanças sociais e exigir atitudes dos envolvidos na resposta à epidemia. Por isso os seus esforços na questão do HIV devem ser dobrados.”
Cenas do próximo capítulo
Com a experiência em Imagine Afrika, o moçambicano Manhenje resolveu mergulhar de cabeça no universo dos media e do HIV.
A sua participação no programa Sem tabus, que terá um total de 13 episódios, será seguida de uma longa viagem do Sul ao Norte de Moçambique. O jovem pretende colher depoimentos de seropositivos e pessoas afectadas pela epidemia, que darão origem a um documentário.
A ideia é entender como o HIV atingiu o seu país – Moçambique tem uma seroprevalência nacional de 16 por cento – e usar o filme para conscientização.
Com isso, Manhenje pretende pôr em prática as palavras da ex-primeira dama moçambicana Graça Machel: “Nós só teremos feito um bom trabalho se a mensagem chegar a quem tem que chegar e as taxas de infecção diminuírem.”
(PlusNews – 08.05.2008 )
Comentários Recentes