ÁFRICA DO SUL: Chakras e crianças

7 05 2008

JOHANNESBURG, 6 Maio 2008 (PlusNews) – Após vinte anos de pandemia, as pessoas procuram novas maneiras de viver com HIV e para alguns, a medicina alternativa se tornou parte da resposta.

O Centro Comunitário de Formação e Desenvolvimento de TsaBotsogo, em Dobsonville, em Soweto, um vasto subúrbio a sul de Johannesburg, na África do Sul, trabalha com professores para identificar crianças vulneráveis e encaminhá-las para voluntários formados pelo centro para aconselhamento.

Este ano, a organização levou 30 das crianças para acampar por uma semana, na esperança de lhes dar uma oportunidade de brincar, fazer amigos e construir um melhor relacionamento com os voluntários do TsaBotsogo, disse a directora executiva, Kefilwe Ndaba.

“O Rolls Royce da Cura?”

O acampamento foi num lugar onde menos se esperava encontrar conversa sobre medicina alternativa, chakras e “campos energéticos”, mas Amanda du Toit e vários outros “praticantes de medicina energética” vieram para ajudar a equilibrar as energias das crianças.

O termo “medicina alternativa” é muitas vezes usado para descrever práticas fora do campo de acção do médico ou enfermeiro típico, e pode incluir homeopatia, a velha prática indiana de medicina ayurvédica e naturopatia, em que se acredita que a cura está associada à natureza.

Praticantes da medicina energética como du Toit acreditam que a doença física é causada por desequilíbrios entre tais energias no organismo. Eles dizem que usam energia física, tal como a vibração, bem como formas menos palpáveis de energia, como os “campos energéticos”, ou a energia subtil que se acredita estar em todos os seres vivos, para curar certas doenças físicas.

Usando um sistema desenvolvido pelo empresário conhecido por Master Del Pe, baseado nos Estados Unidos, estas mulheres dizem ter aprendido a ler chakras – os supostos sete centros de energia espiritual no corpo humano na filosofia yoga – e podem abrir e fechar estes centros para equilibrar as energias do corpo.

No fim da sessão, muitas das crianças mais novas já estavam a sonecar, enquanto os mais crescidos estavam pacatamente sentados, de olhos fechados. A sessão não envolveu qualquer contacto físico entre as mulheres e as crianças, o que du Toit descreveu como uma vantagem quando se trabalha com crianças, que podem não ser capazes de verbalizar o que sentem.

''A medicina alternativa pode ser perfeitamente inofensiva, mas a minha preocupação é: como explicar algo assim à mãe de uma criança?''

“[A medicina energética] é uma espécie de nova geração de cura; é muito efectiva – como um “Rolls Royce” de cura”, disse du Toit, que caracteriza a abordagem de Del Pe como uma mistura de religiões orientais, como o budismo e o hinduísmo. “Nós acreditamos que esta é a medicina do futuro.”

Del Pe veio à África do Sul em 2006 para dar aulas gratuitas sobre sua recém-desenvolvida forma de cura energética. O objectivo era ajudar seropositivos a lidar com infecções oportunistas e outras doenças relacionadas.

Desde então ele já voltou várias vezes, cobrando cerca de 1.500 rands (US$ 191) por cursos de um dia como “Traçar os Teus Sete Ciclos de Vida”.

Uma realidade bem adulta

Segundo um estudo do departamento sul-africano da educação de 2006, 15 por cento das crianças terão perdido pelo menos um dos pais até aos 14 anos, o que os coloca em crescente risco de pobreza, desnutrição e absenteísmo escolar.

O governo sul-africano gastou mais de 563 milhões de rands (US$ 72 milhões) desde 1997 em intervenções comunitárias para, entre outros objectivos, salvaguardar crianças em risco. Se o país conseguir alcançar os objectivos traçados no seu plano estratégico para HIV e SIDA, 30 por cento de crianças vulneráveis e famílias orientadas por crianças poderão ter acesso a benefícios sociais e apoios até 2008.

Contudo, as necessidades psicossociais e emocionais das crianças como as de TsaBotsogo são muitas vezes difíceis de incluir no orçamento e ainda mais difíceis de identificar, segundo estudos do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/SIDA.

Muitas delas sentem-se como se estivessem sozinhas”, disse Ndaba. “Algumas falam e dizem que não têm pais, que é difícil ir à escola sem nada no estômago, mas outras são muito reservadas”, comentou. “Não é fácil abrirem-se, e por isso temos promovido muitos jogos, orando para eles, abraçando-os, e tentando fazer que eles confiem em nós e se abram.”


Photo: Laura Lopez Gonzalez/PlusNews
Durante a aula de artes, um acampante incluiu um laço da SIDA como parte das actividades com argila

Sophie Kekana, conselheira na TsaBotsogo, disse que trabalhar com crianças é um desafio. “Podes ver as suas necessidades de longe – algumas estão doentes ou a sofrer, outras estão amargas. Muitas delas foram atingidas pela pobreza; podes ver tudo isto pela forma como comem.”

“Pelo menos agora elas sabem que não estão sozinhas, que têm mães fora [das suas famílias] que cuidam delas”, disse Ndaba.

Consentimento é base de todas as abordagens

Com o avanço da epidemia do HIV e SIDA, as pessoas podem encontrar novas maneiras de cuidar dos afectados, mas os activistas dos direitos infantis destacam que o consentimento dos pais e das crianças é essencial, seja qual for o estilo da terapia.

“[A medicina alternativa] pode ser perfeitamente inofensiva, mas a minha preocupação é: ‘como explicar algo assim à mãe de uma criança?’”, disse Noreen Ramsden, desenvolvedora de materiais no Centro dos Direitos das Crianças, em Durban.

Segundo Ramsden, administrar terapias alternativas como cura energética sem consentimento informado dos pais reflecte um certo elemento de manipulação, e ameaça minar o direito dos pais a conduzir o crescimento dos seus filhos.

Ndaba, do TsaBotsogo, disse que a cura energética não estava originalmente no programa, e por isso não foi explicada pelos professores aos responsáveis na hora de obter autorização para as crianças irem acampar.

Helen Meintjies, oficial pesquisadora no Instituto Infantil da Universidade de Cape Town, concordou com Ramsden, aconselhando que o perigo de manipulação é muito real ao trabalhar com pessoas que não querem dizer “não” em presença de algo que olham como um favor.

“Questões de consentimento são aplicáveis em todos os assuntos quando se trabalha com crianças, não importa em que actividade, e isso significa que as crianças devem ser informadas [sobre a actividade] de maneira que possam entender”, disse Maintjies. “Nunca subestime a importância de as crianças entenderem aquilo em que estão envolvidas.”

(PlusNews – 06.05.2008 )


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