Religião tem influência nas práticas sexuais

3 05 2008

Enquanto a prática do sexo oral se tem vindo a normalizar na vida sexual dos portugueses, a prática do sexo anal continua a ser alvo de “muita rejeição”, afirma o investigador Pedro Moura Ferreira. O Inquérito Saúde e Sexualidade revela que 62,8 por cento nunca teve relações anais.
Quando “a prática sexual se resume à prática vaginal”, está mais associada à reprodução. A introdução de diversidade na vida sexual dos portugueses denota um distanciamento em relação à reprodução e uma associação à sexualidade ligada ao prazer, constata o investigador. Os números revelam que o sexo oral se vem normalizando mas, ainda assim, existem grandes diferenças consoante a idade. No caso dos homens, 61,1 por cento dos que estão entre os 55 a 65 anos nunca fez sexo oral à parceira, um número que desce para 27,5 por cento nos jovens dos 15 aos 24 anos. Esta mesma diferença é perceptível nas mulheres mais velhas: 75,6 por cento dizem nunca ter feito sexo oral ao parceiro, descendo este valor para 34,5 por cento nas raparigas mais jovens.
Nas práticas sexuais verificou-se que a religião tem o seu peso, mas só quando a prática religiosa é mais intensa (mais do que uma vez por semana) – neste caso, verifica-se que a actividade sexual é mais comedida. Por exemplo, as mulheres que têm práticas religiosas mais frequentes tendem a ter sexo menos vezes, práticas menos diversas e menos parceiros ao longo da vida. Olhando para o sexo oral, 63,6 por cento das mulheres com prática religiosa mais intensa nunca o praticou, mais do dobro das mulheres sem qualquer prática religiosa. “Quem não é religioso tende a ter mais propensão para o sexo.” Quando se tem práticas religiosas mais frequentes, sobrepõe-se a ideia de “um controlo da religiosidade sobre o corpo”, refere Pedro Moura Ferreira. O que se verifica também é que não são necessariamente os mais novos (dos 18 aos 24 anos) os que mais experimentam – os que têm entre 25 e 34 anos têm mais tendência para diversificar a sua prática sexual, incluindo tanto o sexo anal como o oral.

(Publico – 03.05.2008)





Um em cada dez portugueses admite ser infiel

3 05 2008

De entre os portugueses que vivem em casal há mais de cinco anos, 12 por cento admitem ter tido outros parceiros ao mesmo tempo, mas as diferenças entre géneros são grandes: nos homens são 16,9 por cento os que dizem ter sido infiéis, mais do dobro das mulheres (sete por cento), constata o Inquérito Saúde e Sexualidade, realizado por investigadores do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Os dados recolhidos para este estudo apontam para algumas mudanças na sexualidade dos portugueses, sobretudo entre os mais jovens e nas mulheres, mas “o mais impressionante é ver como as assimetrias de género se mantêm”, afirma um dos coordenadores e investigadores do estudo, Pedro Moura Ferreira, que fala de “resistência à mudança”.
Os valores das relações extraconjugais são muito diferentes entre as mulheres e os homens, assim como o contexto em que ocorrem. No caso dos homens, 40 por cento das situações em que se assume a existência de vários parceiros em simultâneo ocorrem no casamento e são práticas que persistem até mais tarde (9,6 por cento dos homens dos 55 aos 65 anos dizem ser infiéis); no caso das mulheres, a maioria das infidelidades acontece em relacionamentos enquanto são solteiras e tende a ser residual à medida que a idade avança (3,2 por cento com mais de 55 anos). É dos 25 aos 34 anos que mais é relatada a existência de parceiros simultâneos.
Os homens são também os que mais relatam relações sexuais ocasionais: são 15,7 por cento os que dizem que o seu último parceiro sexual aconteceu numa relação fortuita. Nas mulheres, este número desce para 4,5.
Continua também a haver grandes diferenças de género em relação ao número de parceiros sexuais que se tem durante a vida: no caso das mulheres, 55,7 por cento dizem ter tido apenas um parceiro sexual – “o que indicia uma sexualidade muito mais ligada à conjugalidade”; nos homens predominam (59 por cento) os que dizem ter tido quatro ou mais parceiros ao longo da vida. Independentemente destes dados reflectirem “o exagero” da performance sexual associado ao masculino e “a subestimação” das mulheres, as diferenças continuam a ser muito grandes, mas começam lentamente a esbater-se, nota o sociólogo Pedro Moura Ferreira.
Se nas mulheres dos 55 aos 65 anos cerca de 80 por cento dizem só ter tido um parceiro na vida, este número desce para 42,5 por cento nas que estão entre os 18 e 24 anos. Olhando para as faixas etárias destas mulheres mais jovens, constata-se que a idade da primeira relação sexual está a menos de um ano dos jovens rapazes da mesma idade, constata o sociólogo: 16,5 nos homens e 17,2 nas mulheres. Na geração dos 55 aos 65 anos, a diferença era de três anos. Nas gerações mais velhas eles tinham muito mais cedo a sua primeira experiência sexual (para 41 por cento, aconteceu entre os 15 e 16 anos) e, para as mulheres, iniciou-se aos 17 a 18 anos. Em 30 anos caminhou-se para uma convergência de idades para a primeira relação sexual, sublinha o sociólogo.
As distâncias mantêm-se mas confirmam-se algumas tendências, enuncia Pedro Moura Ferreira: “A perda da coincidência da sexualidade com a conjugalidade, o abandono da ideia do parceiro para a vida e a afirmação da sexualidade pré-conjugal”. Nas práticas sexuais, quanto mais instruídas e mais jovens são as mulheres mais abertas estão a uma maior frequência e diversidade sexual. No feminino, a educação foi determinante para dar “o salto de qualidade na sexualidade”. Neste contexto, por exemplo, “um maior número de parceiros deixa de ser pejorativamente entendido”.

(Público – 03.05.2008)





Relações homossexuais são erradas para a maioria

3 05 2008

Cerca de 70 por cento dos portugueses consideram erradas as relações sexuais entre dois adultos do mesmo sexo; mesmo nas idades mais jovens, os números da desaprovação nunca descem abaixo dos 53 por cento. “Portugal ainda é um país homofóbico”, comenta Sofia Aboim, uma das autoras do Inquérito Saúde e Sexualidade (2007), do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que é apresentado na terça-feira e faz um retrato da sexualidade na população portuguesa.

“As mentalidades não estão ainda muito abertas à aceitação da homossexualidade”, sublinha a socióloga, referindo que os números que atestam o repúdio a este tipo de relações são “globalmente altos”. Na escala apresentada aos inquiridos eram-lhes dadas várias opções: se achavam as relações entre pessoas do mesmo sexo totalmente erradas, a maior parte das vezes erradas, algumas vezes erradas ou raramente erradas. A maioria da população respondeu com a opção mais categórica. O estudo assenta em 3643 entrevistas feitas a indivíduos dos 16 aos 65 anos, numa amostra representativa da população de Portugal continental.
Os homens são mais críticos no que toca às relações homossexuais do seu sexo: 58,9 por cento consideram-nas totalmente erradas; em relação às mulheres, a desaprovação desce para 53,9 por cento. Sofia Aboim atribui estes dados a “uma masculinidade tradicional e homofóbica em Portugal” – “as lésbicas são vistas como muito mais inócuas em termos de masculinidade”. Nas mulheres existe, apesar de tudo, mais igualdade na avaliação: quer sejam relações homossexuais entre homens ou mulheres, a desaprovação, no seu máximo, é quase a mesma – cerca de 40 por cento consideram-nas totalmente erradas. Em relação às idades, “há uma linha geracional importante” – quanto mais jovem se é, menos se desaprova a prática -, “mas mesmo nos mais jovens os valores são altos”. No seu todo, a desaprovação nunca desce abaixo dos 53 por cento, que é a percentagem dos que, entre os 18 a 24 anos, julga que a homossexualidade é errada. Tal como nos mais velhos, nesta faixa etária a desaprovação atinge o seu máximo nos homens a julgar as relações entre homens do mesmo sexo – um valor que chega aos 68 por cento.
“Estava à espera de algum conservadorismo, mas esperava valores mais baixos nas gerações mais novas”, diz a investigadora, acrescentando que num inquérito semelhante em França se constatou que 80 por cento dos jovens franceses aceita as relações entre pessoas do mesmo sexo.
O mito dos dez por cento
Sofia Aboim considera que “este conservadorismo” em relação à homossexualidade pode ter reflexos nos portugueses que se colocam nessa categoria: só 0,7 por cento, um número muito longe “do mito dos dez por cento de homossexuais”, muito usado por associações de defesa dos direitos gay. O número encontrado no inquérito português está dentro do que é comum noutros estudos internacionais, acrescenta.
Mas há outros dados do inquérito – coordenado pelos sociólogos Manuel Villaverde Cabral e Pedro Moura Ferreira, a pedido da Coordenação Nacional para a Infecção do VIH/sida – que colocam o número dos que têm contactos homossexuais acima dos que se definem como tal. São cinco por cento os que dizem ter tido contactos com pessoas do mesmo sexo sem envolver a área genital (beijos, toques, abraços) e 3,2 por cento os que dizem ter tido relações sexuais com alguém do mesmo sexo. “Há uma declaração mais fácil da prática do que o assumir de uma identidade.”
Curioso foi constatar que são mais os que assumem que “oscilam ao longo da vida”. Há mais portugueses a assumiram-se como bissexuais do que como homossexuais.

53%
Mesmo nas idades mais jovens, os números da desaprovação nunca descem abaixo dos 53 por cento

(Publico – 03.05.2008)





80% admitem não usar protecção com infectados

3 05 2008

Perto de 80% dos portugueses não usariam preservativo numa relação sexual com uma pessoa infectada com VIH. A conclusão faz parte do inquérito “Comportamentos sexuais e a infecção VIH/sida”, realizado pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) em 2007, na sequência de uma encomenda da Coordenação para a Infecção VIH/sida.

As características demográficas, os conhecimentos, as crenças e a experiência sexual determinam a probabilidade de usar preservativo e também de fazer o teste. No entanto, afirma Henrique de Barros, “há assinalável dissociação entre conhecimento e prática.Saber que se teve uma ou mais doenças de transmissão sexual não parece influenciar a utilização de preservativo”.

Na investigação, que será apresentada no ICS na terça-feira, foram inquiridos mais de 3500 portugueses entre os 16 e os 65 anos. O inquérito foi coordenado por Manuel Villaverde Cabral e Pedro Moura Fereira, analisando questões como a regularidade da actividade sexual, grau de satisfação, número de parceiros, idade que marcou o início da actividade sexual e até tem um capítulo sobre as práticas e identidades sexuais (heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade).

Outra realidade revelada pelo estudo é que mais de metade dos portugueses não usou preservativo na primeira relação sexual com o parceiro mais recente, revela o inquérito. As diferenças entre sexos são aqui assinaláveis, à semelhança de outros países, em termos de práticas, utilização de preservativos e realização de testes.

Henrique Barros refere que a proporção de utilização de testes era igual quer os inquiridos admitissem ou não ter relações sexuais ocasionais. Estas conclusões têm necessariamente de levar ao estabelecimento de novas estratégias de combate à infecção VIH/sida e à informação dos portugueses: “Os profisisionais de saúde terão de repensar a forma como cumprem a totalidade da sua missão, ou seja, para além de diagnosticar também devem ajudar a prevenir. De outro modo, é difícil compreender que os inquiridos reportem uma frequência de utilização de preservativos semelhante, quer tivessem ou não, na sua história pessoal, uma infecção sexualmente transmissível”.

Preço dos preservativos

Em matéria de anticoncepcionais, dados revelam que apenas um terço dos portugueses não considera que os preservativos sejam caros. Henrique Barros destaca que a utilização do contraceptivo era mais frequente entre aqueles que o consideravam caro, o que significa que “o marketing social do preservativo e uma política de preços baixos será muito útl, mas não uma panaceia”.

(Diário de Notícias – 03.05.2008)