Pesquisador revela inexistência de vacina contra sida a curto prazo

30 05 2008

O director da Agência Nacional de Pesquisa sobre a Sida e Hepatites Virais (ANRS) em França, professor Jean-François Delfraissy, declarou terça-feira à noite em Dakar a inexistência de vacina contra o vírus da sida a curto prazo.

“A conclusão duma vacina preventiva ou terapêutica contra o HIV é um longo percurso e é certamente um dos desafios científicos mais duros a enfrentar”, afirmou Delfraissy, um dos pioneiros da luta contra a sida em França.

Segundo Delfraissy, que falava à imprensa na capital senegalesa, foram cumpridas, desde o primeiro ensaio vacinal, mais de 80 fases I e II na maior parte da Europa e nos Estados Unidos, mas que apenas um único ensaio clínico chegou à fase III e sem sucesso.

Ele revelou que cerca de 40 ensaios estão em estudo incluindo uma vacina em que o ANRS trabalha há 10 anos.

A pesquisa clínica deve continuar a elaborar novas estratégias terapêuticas no quadro dos ensaios em curso em conformidade com as boas práticas clínicas, no diálogo e na parceria com o meio associativo e a indústria farmacêutica.

De acordo com ele, os investigadores em saúde pública, ciências humanas e sociais têm um papel determinante no estudo dos comportamentos de prevenção e do acesso aos tratamentos ou ao sistema de saúde.

Além disso, notou que “a pesquisa sobre a vacina preventiva deve prosseguir sublinhando que esta é de ordem fundamental, mas também clínica”.

“É preciso continuar a progredir no conhecimento dos mecanismos imunitários, melhorar as vacinas candidatas de que dispomos, avaliar a sua tolerância e a sua imunogenicidade no quadro de ensaios”, declarou-se.

Nascido em 1948, Jean-François Delfraissy é professor de imunologia clínica e medicina interna na Faculdade de Medicina de Paris-Sul.

Pioneiro da luta contra a sida em França, ele é um actor chave da ANRS que ele acompanhou na sua evolução temática em particular para as hepatites virais.
(Panapress – 28.05.2008 )





Más notícias sobre a sida

30 05 2008
O cientista que descobriu o vírus da sida está em Portugal, o segundo país da Europa com a maior taxa de incidência do HIV na população. Num país mal informado sobre a doença, Abraço e Liga Portuguesa Contra a Sida salientam a necessidade de apostar na prevenção

Há jovens que acham que a pílula os protege do vírus da sida.
Uma simples análise ao sangue permite detectar a infecção, mas mais de metade da população nunca fez o teste. Muitas pessoas só descobrem a doença quando surgem os primeiros sintomas, numa fase em que é
mais difícil controlar a progressão da doença. A taxa de incidência do vírus na população aumentou, sendo hoje a segunda mais elevada de toda a Europa.
Estes são alguns dos aspectos que compõem o panorama da doença em
Portugal. Quase tudo más notícias, na semana em que Luc Montagnier, o dentista que descobriu o vírus da sida, está no Estoril para participar no primeiro congresso ibérico sobre Medicina Anti-Envelhecimento  eTecnologias Biomédicas.
Foi há 25 anos que Luc Montagnier e a sua equipa identificaram, nos laboratórios do Instituto Pasteur, em Paris, o agente causador de uma doença que, no início da década de 80, começou a afectar acomunidade homossexual dos EUA e que assumiria proporções de epidemia crescente, com casos de transmissão entre mães e filhos, toxicodependentes
e em transfusões de sangue.

Ver texto integral em sexta

(Ana Cristina Gomes/Jornal Sexta – 30.05.2008 )





Construção do Preservativo Gigante e 2º Congresso da CPLP sobre VIH/Sida marcam as actividades do projecto CRIAS em Abril

29 05 2008

 A construção de um preservativo gigante no Vale da Amoreira e o 2º congresso da CPLP sobre VIH/sida foram as actividades de maior realce do projecto CRIAS durante o mês de Abril.

Segundo a equipa deste projecto a construção deste preservativo é uma iniciativa da Associação Moitense Amigos de Angola, que tem como objectivo sensibilizar a comunidade do Vale de Amoreira sobre a importância do uso do preservativo na prevenção do VIH/sida.

A ideia passa pela colocação de sete preservativos espalhados nos locais de maior concentração das populações tais como: Junta de Freguesia, Escolas e Centro Comercial.

Quanto ao 2º congresso da CPLP que teve lugar entre os dias 14 à 17 de Abril, no Rio de Janeiro, Brasil, foi um evento que reuniu diversos técnicos e profissionais na área do VIH/sida com objectivo de concertar esforços e promover a divulgação de boas práticas ao nível da prevenção, controlo e tratamento, entre os países participantes.

Importa frisar que a equipa do projecto esteve presente no Congresso e assistiu alguns dos painéis de discussão, tendo mesmo realizado a sua cobertura, permitindo ao serviço de notícias do CRIAS a sua divulgação.

Ainda em Abril, o Serviço de Notícias do CRIAS passou a fazer-se acompanhar por um blogue que permitiu o aparecimento de um espaço de comentário e debate. Ao mesmo tempo possibilitou a pesquisa por temas dos vários artigos já enviados electronicamente. 

Dynka Amorim





Comunicado de Imprensa conjunto das Associações de VIH /Sida, em Portugal

29 05 2008

As Associações que desenvolvem trabalho na área do VIH/SIDA, tem tido um papel essencial na Promoção da Saúde em Portugal, nomeadamente na luta contra a SIDA, prestando serviços regulares e/ou realizando projectos inovadores nos domínios da

- Prevenção e educação para a saúde;
- Tratamento, apoio psicossocial e reabilitação;
- Acções de combate aos fenómenos como o estigma e a discriminação associados à infecção;
- Prestação de cuidados no domicílio;
- Adesão terapêutica.

Também por isso e porque as Associações:

  • Têm uma ligação muito próxima e directa com as realidades locais e com as populações afectadas o que lhes permite agir melhor junto dessas populações e, por outro lado, permitir a sua participação activa nos projectos e actividades realizadas;
  • Reúnem profissionais especialistas nas suas áreas de intervenção, sendo entidades altamente especializadas nas suas áreas de acção e, por isso, com um papel fundamental na apresentação de propostas políticas e no apoio aos profissionais e serviços da saúde;
  • Têm contribuído para a economia da saúde, operando com orçamentos limitados e com um forte envolvimento voluntário, rentabilizando assim os apoios públicos que recebem do Estado Português., nomeadamente do Ministério da Saúde;
  • Têm dado continuidade as actividades inerentes aos projectos do Programa ADIS, quer graças à boa vontade dos técnicos envolvidos, que apesar de estarem com meses de honorários em atraso continuam a prestar apoio aos utentes/doentes, quer através de endividamento financeiro, para pagar os apoios e manter os projectos.

Neste quadro, e por se encontrarem em situações insustentáveis solicitaram uma audiência conjunta à Exma. Ministra da Saúde, com o objectivo de:

Clarificar as situações referentes à atribuição de apoios técnico-financeiros no âmbito do programa ADIS para os projectos de continuidade e solicitar o seu envolvimento e empenho para desbloquear, num curto espaço de tempo, estas situações.

Lisboa, 27 de Maio de 2008

Abraço – Associação de Apoio a Pessoas com VIH/SIDA
AJPAS – Associação de Jovens Promotores da Amadora Saudável
APF – Associação para o Planeamento da Família
Casa do Quero
FPCCS – Fundação Portuguesa a “Comunidade contra a SIDA”
GAT – Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA
LPCS – Liga Portuguesa Contra a SIDA
MAPS – Movimento de Apoio à Problemática da Sida
Positivo – Grupos de Apoio e Auto – Ajuda
Seres (con) viver com o VIH
SOL – Associação de Apoio às Crianças Infectadas pelo Vírus da SIDA e suas Famílias





ÁFRICA: Exclusão de seropositivos do exército inconstitucional

29 05 2008

JOHANNESBURG, 29 Maio 2008 (PlusNews) – A Suprema Corte da África do Sul em Pretória determinou que a exclusão do exército de pessoas seropositivas no recrutamento, promoção e mobilização de tropas no exterior é inconstitucional.

“Não é um caso de relevância do HIV num contexto militar”, argumentou o advogado sénior Gilbert Marcus. “Trata-se da exclusão do recrutamento, promoção e mobilização de pessoas seropositivas, sem nenhuma avaliação individual de seu estado de saúde.”

O processo contra a Força de Defesa Nacional Sul-Africana (SANDF, em inglês), que poderia constituir um precedente para as Forças Armadas a nível internacional, foi levado à Corte pelo Sindicato das Forças de Segurança Sul-Africana (SASFU, em inglês), organização que representa os empregados da SANDF, e por dois homens a quem foi negada qualquer possibilidade de mobilização ou oportunidades de trabalho devido à sua seropositividade.

Marcus, que representou os dois homens e o sindicato, disse que quase 25 por cento dos empregados do SANDF são seropositivos.

O que estava em jogo era a política atual da SANDF, que exclui todo seropositivo do recrutamento, promoção e emprego no exterior. Os advogados representando a SASFU e os homens argumentaram que esta política é inconsistente com a política formulada pelo gabinete.

O SANDF admitiu que a exclusão era inconstitucional e disse que esta política, juntamente com a classificação de estado de saúde usada para justificá-la, já estava a ser revisada.

O juiz da Suprema Corte Roger Claassen emitiu uma interdição no início de Maio, dando à SANDF seis meses para apresentar à Corte uma nova política que leve em conta os indicadores de saúde tais como a contagem CD4 (que mede a força do sistema imunitário) e aptidões físicas gerais na avaliação dos funcionários.

A nova política também deverá ser aprovada pelos advogados do Projecto de Lei para a SIDA (ALP, em inglês), organização sul-africana sem fins lucrativos especializada no auxílio a seropositivos em casos de discriminação. A organização também ajudou a SASFU e os requerentes a levar o caso à Corte.

''O governo é um empregador importante. Não é que todos gostem de combate, mas para muitas pessoas o exército é um emprego.''

O juiz decidiu que Sipho Mtehthwa, um dos requerentes e um membro da SANDF, que é especialista em armas e oficial encarregado do treinamento físico, deveriam ser autorizados a mobilizar-se com sua unidade durante um período de quatro meses, como parte do próximo rodízio.

Estabelecendo o padrão

O director executivo da ALP, Mark Heywood, disse que a organização tinha estado a combater a proibição do HIV no exército durante os últimos 13 anos. Para ele, este caso criaria um precedente para outros militares da região e também de todo o mundo.

“O governo é um empregador importante”, acrescentou Heywood. “Não é que todos gostem do combate, mas para muitas pessoas o exército é um emprego.”

O companheiro requerente de Mthethwa, que preferiu manter o anonimato e que tinha sido recusado pelo SANDF devido à sua condição, disse: “O pior disso tudo é o fato de não ser aceito para fazer uma coisa que realmente queres fazer [alistar-se no exército], mas por causa de uma coisa só, o fato de ser seropositivo. É por isso que decidi ir à Corte e lutar contra isto.”

A conclusão do procedimento de contratação para recrutas seropositivos será provavelmente suspenso até que seja preparado um projeto da nova política, mas a decisão do juiz Claassen já garantiu ao companheiro requerente de Mthethwa um emprego imediato.

HIV proibido nas Forças Armadas

Na África Austral, a Zâmbia ainda impõe uma proibição do HIV com respeito às forças armadas, mas Botsuana e Namíbia não.

Angola também não tem legislação que impeça o ingresso ou a promoção de seropositivos dentro do exército, mas o estigma impede que a questão seja discutida abertamente.

O país viveu 27 anos de guerra civil e só a partir de 2002 passou a experimentar dias de paz. Por isso, sua existência como nação independente é pautada por alta e constante militarização.

Evaristo David, 22, é activista nas Forças Armadas em Luanda e desenvolve campanhas de conscientização sobre HIV entre militares, além de fazer testagem e aconselhamento.


Photo: ACORD
HIV nas tropas angolanas: comum, mas pouco discutido

Segundo ele, quem descobre ser seropositivo no exército pode permanecer no serviço militar, mas isso não é garantia contra a discriminação.

“Nós geralmente pedimos permissão ao paciente para comunicar os superiores de que o teste voltou positivo, porque só assim é possível solicitar os antiretrovirais ao Ministério da Saúde”, explica. “Mas os colegas do paciente nunca ficam sabendo, para evitar o estigma.”

David afirma que o HIV nas Forças Armadas é mais comum do que se pensa. Depois de uma palestra de conscientização na semana passada, 26 participantes quiseram ser testados. Sete resultados voltaram positivos.

“A SIDA ainda é tabu dentro do exército”, afirmou Pombal Maria, coordenador da organização não-governamental angolana Acção Humana. “Por isso, a maioria das campanhas sobre HIV/SIDA são feitas dentro das próprias Forças Armadas, sem muito envolvimento da sociedade civil.” pLUS
(PlusNews – 29.05.2008 )





Novo tratamento imunitário pode controlar o vírus da SIDA

29 05 2008

A partir dos resultados bem sucedidos com macacos, os cientistas estão já a planear ensaios clínicos em humanos de uma nova abordagem para combater a infecção pelo VIH.
    
Nas descobertas apresentadas online na Sexta-Feira, os investigadores descreveram o potencial tratamento conhecido como OPAL, de Overlapping Peptide-pulsed Autologous Cells. O processo envolve misturar as próprias células sanguíneas de um doente com pequenos pedaços de proteínas do VIH. A abordagem seria categorizada como uma técnica de imunoterapia ou uma vacina terapêutica, disse Stephen Kent e colaboradores da University of Melbourne.
    
Os investigadores trabalharam com macacos infectados com o Vírus da Imunodeficiência Símia (VIS). A equipa pegou em péptidos do vírus e colocou-os em placas de cultura de laboratório com sangue total e com células isoladas do sistema imunitário. Isto ajudou a treinar as células a reconhecerem o vírus e a montar uma defesa eficaz contra ele.
    
“As células CD4 específicas para vírus são tipicamente muito fracas em humanos infectados com VIH ou macacos infectados com VIS; houve um estímulo dramático destas células induzido pela imunoterapia OPAL e isto salienta a sua eficácia,” escreveu a equipa.
    
Os investigadores salientaram que os melhores resultados foram obtidos quando o tratamento foi introduzido logo após a infecção. “Embora seja um desafio identificar humanos 3 semanas após a infecção, esta é tipicamente a fase em que os indivíduos com VIH-1 apresentam infecção aguda,” escreveram.
    
“Os níveis de vírus em macacos vacinados era 10 vezes menor do que nos controlos, e este efeito durou mais de um ano após as vacinações iniciais,” escreveu a equipa. “A imunoterapia resultou em menos mortes por SIDA. Concluímos que esta é uma técnica de imunoterapia promissora. Estão a ser planeados ensaios com a terapia OPAL em humanos infectados com VIH.”
    
O estudo completo, “Control of Viremia and Prevention of AIDS Following Immunotherapy of SIV-Infected Macaques with Peptide-Pulsed Blood,” foi publicado na Public Library of Science Pathogens (2008;4(5):e1000055).

Reuters   (02.05.08)::Maggie Fox

(AIDS PORTUGAL – 29.05.2008 )





Corrupção e SIDA: Travão ao Desenvolvimento em Moçambique

29 05 2008

De acordo com a delegação da União Europeia enviada a Moçambique, o governo deste país está a avançar no sentido de uma estabilização macro-económica e consolidação das finanças públicas mas a SIDA, a corrupção e a burocracia continuam a dificultar a erradicação da pobreza.

            “O VIH e a SIDA são um grande problema, apesar do governo estar a par da situação enquanto que a corrupção está a ser combatida com ajuda internacional”, afirmou Glauco Calzuoloa numa entrevista.

        Desde 1992, quando terminou a guerra civil que já durava há 17 anos, que Moçambique passou de um dos países mais pobres do mundo a uma das nações do sul de África com maior taxa de desenvolvimento. No entanto, esta expansão tem sido fortemente influenciada por ajudas externas e a economia local tem-se desenvolvido lentamente.

       “Apesar de reconhecermos os esforços governamentais apelamos à duplicação destes esforços”, afirma Calzuoloa.

            De acordo com o Ministério da Saúde, pelo menos 16 por cento dos residentes activos com idades entre os 14 e os 29 anos estão infectados pelo VIH/SIDA. A cada dia que passa surgem mais 500 infecções.

            Calzuoloa apela ao governo para que este continue a atrair o investimento estrangeiro e a promover a estabilidade política ao apoiar pequenas e médias empresas e não apenas “mega projectos que contribuem para o crescimento do país mas que não produzem efeito imediato nas populações.”

Reuters   (05.11.08)::Charles Mangwiro

(AIDS PORTUGAL – 29.05.2008)





Empresários em associação contra o HIV/SIDA

29 05 2008

ACABA de ser constituída, em Joanesburgo, África do Sul, a Associação Pan-Africana de Empresários contra o HIV-SIDA (PABC, em Inglês), e que conta entre os seus membros efectivos com a ECoSIDA, a associação moçambicana de empresários que luta contra esta pandemia.

De referir que esta organização transnacional, constituída sob o patrocínio da Standard Bank, reúne empresários de todo o continente, visando facilitar a partilha de informação e gestão do conhecimento, numa resposta por parte do sector privado para assistir os governos locais, nos seus esforços para a mobilização contra o HIV/SIDA.

(Notícias – 29.05.2008 )





SUAZILÂNDIA: Questionando o baixo uso de camisinhas

29 05 2008

MANZINI, 28 Maio 2008 (PlusNews) – Por que preservativos são tão impopulares? Essa questão frustrou e desencorajou especialistas da área da saúde por uma década, mas na Suazilândia o mistério pelo qual homens e mulheres se recusam a usar preservativos está lentamente sendo desvendado por um projecto que está a fazer com que homens suazi falem sobre o uso – ou a falta de uso – do preservativo.

Muito já foi dito e escrito sobre os mitos e equívocos que inibem o uso de preservativos, mas pouco foi feito para reflectir essas realidades em campanhas já existentes de educação e prevenção do HIV/SIDA.

Actualmente, uma iniciativa liderada pelo activista e profissional de saúde Hanni Dlamini e o Conselho Nacional de Emergência em HIV/SIDA (NERCHA, em inglês), órgão governamental que financia organizações voltadas à epidemia, espera mudar essa realidade tentando entender a origem das atitudes dos homens em relação à saúde sexual.

A primeira Pesquisa Demográfica da Saúde da Suazilândia, em 2007, observou que 26 por cento dos suazis sexualmente activos estavam infectados pelo HIV. Embora quase 99 por cento dos participantes tenham dito saber sobre a doença, quase a metade admitiu ter múltiplos parceiros sexuais e manter relações sem preservativo.

“Os homens na Suazilândia não usam preservativos. Preservativos são distribuídos por toda parte, mas não são usados”, disse Dlamini.

Nos últimos três anos, o projecto NERCHA cobriu duas das quatro regiões da Suazilândia: a central e populosa Manzini, núcleo comercial do país, e a região Hhohho no Norte, onde a capital, Mbabane, está localizada. Os próximos no itinerário são Shiselweni no Sul e Lubombo no Leste.

O programa adoptou uma abordagem tradicional para comunicação, em vez do método padrão com uso de questionários para colectar informações. Para fazer com que os homens falassem, Dlamini e o dramaturgo Modison Magagula observaram os costumes tradicionais suazi que ainda são muito praticados pelos homens suazi em áreas rurais e entendidos por todos os homens suazi.

“Nós recriamos o sihonco, que consiste num cerco, como o que se faz para o gado, aonde os homens vão para assar a carne, fumar ervas tradicionais e conversar. As mulheres não entram no sihonco, assim como por costume os homens não entram nas cabanas especiais das mulheres. Nós chamamos o programa de educação sobre a SIDA de ‘kudliwe inhloko’ que é uma expressão siswati que significa o momento em que os homens sentam juntos e conversam entre si”, explicou Dlamini.

O grupo teatral de Magagula apresenta uma peça sobre determinados assuntos, tal como homens envolvidos com raparigas menores de idade, para estimular a discussão.

Cerca de oito mil homens já participaram até agora, mas os organizadores pretendem fazer com que esse projecto continue e eventualmente atinja todos os homens suazi, para informá-los dos factos sobre a SIDA e combater a pressão da sociedade e os mitos prevalentes sobre a doença.

Hannie Dlamini comentou que as informações erradas transmitidas boca a boca frequentemente preenchem a ausência de conhecimentos correctos, porque não há educadores de saúde que reúnam-se regularmente com as comunidades, especialmente em áreas rurais remotas.

O que os homens realmente pensam?

“O resultado desse projecto não foram estatísticas, mas entendimento: por que os homens se comportam de determinada maneira, quais são suas crenças”, disse Wiseman Dlamini, oficial do projecto NERCHA na região de Manzini.

''Os homens na Suazilândia não usam preservativos. Preservativos são distribuídos por toda a parte, mas não são usados.''

Hannie Dlamini diz que as anedotas mostram um impressionante padrão de similaridade. “Os homens dão muitas razões para não usar preservativo, mas são apenas desculpas. O problema é que os preservativos nunca foram devidamente apresentados aos homens”, afirmou.

Como resultado, os homens suazi são sugestionados a adotar mitos contra o preservativo como razão para rejeitar o que eles consideram uma intrusão externa e anti-natural à sua vida sexual.

“Um mito que nós ouvimos muito é de que os preservativos foram criados para destruir a virilidade africana; além disso, eles dizem que o gel nos preservativos diminuem o tamanho e a duração da ereção”, informou Dlamini.

Reações alérgicas ao preservativo foram outra desculpa comum.

“Alguns homens estão desenvolvendo erupções cutâneas e outros problemas. Isso realmente está a acontecer com eles. Mas os outros homens vêem isso e decidem que preservativos são perigosos. Se um homem fica com alergia significa que a comunidade inteira não os usará”, afirmou Dlamini.

“Nós avisamos aos homens que se eles tiverem problemas com os preservativos de borracha látex, a mulher deve usar um preservativo feminino, feito de plástico. Mas até as mulheres suazi têm medo de usar o preservativo. Os homens envergonham-se com a sugestão. Se as mulheres não os usam, os homens também não vão querer usar”, observou.

Entediado e casado

Relacionamentos fora do casamento também são discutidos nas reuniões dos homens. De acordo com os homens que participaram, dormir sempre com a mesma mulher fez com que eles perdessem o interesse em sexo.
“Eles não tem mais ereções porque dormem com a mesma mulher todos os dias, então os homens procuram diversão com outras mulheres”, esclarece Dlamini.

Renovar o entusiasmo no casamento é um desafio para casais no mundo inteiro, e embora aconselhamento de casais não seja o objectivo do projecto de Dlamini, as medidas de prevenção da SIDA terão que levar em conta tais descobertas.

“No passado, poligamia era a maneira dos homens suazi evitarem o tédio na vida sexual. Por razões financeiras, essa opção não é mais a opção que era antigamente, portanto, há a necessidade de manter a chama acesa entre o homem e a mulher casados para evitar que ele traia”, disse a conselheira sobre a SIDA Patricia Dube.

Será que esse projecto fará diferença? Dlamini é franco e realista em sua avaliação.
“É verdade que as pessoas ouvem, mas depois de dois dias já pensam de outra forma. Eles esquecem. São influenciados por seus amigos. Os homens ouvem quando falamos com eles, mas amanhã eles farão exatamente o que faziam antes”, concluiu.

Ele disse que para o progresso ser alcançado, é necessário que as campanhas educativas sejam regulares nas comunidades.

NERCHA, o Ministério da Saúde e Bem-Estar Social e as organizações não-governamentais voltadas à SIDA analisarão os resultados para encontrar possíveis meios de promover uma mudança de comportamento.

Para Dlamini, se o ponto de vista e as preocupações das pessoas comuns tivessem sido considerados desde o início da epidemia, soluções mais eficientes teriam sido encontradas, talvez até mesmo se atingindo o difícil objectivo da mudança de comportamento.
(PlusNews – 28.05.2008 )





SIDA: subsídios em atraso serão pagos no início de Junho

28 05 2008

O pagamento de subsídios em atraso a Organizações Não-governamentais (ONG) com projectos na área do VIH/Sida será feito com retroactivos no início de Junho, garantiu a porta-voz de organizações que hoje se reuniram com a ministra da Saúde.

“Está para breve. Em princípio e sem qualquer vinculação apontou-se para início de Junho”, afirmou Maria Eugénia Saraiva, também presidente da Liga Portuguesa contra a Sida.

A porta-voz das ONG adiantou, à saída de uma reunião de cerca de três horas com Ana Jorge no Ministério da Saúde, que o pagamento dos subsídios, que estão em atraso desde Janeiro, será feito a 100 por cento, em vez dos anteriores 80 por cento.

Este aumento no financiamento das ONG decorre da entrada em vigor do decreto-lei que regula a atribuição de apoios a entidades privadas sem fins lucrativos, publicado em 2006 e que alterou a duração do financiamento para um máximo de quatro anos, tendo também aumentado de 80 para 100 por cento o montante atribuído a projectos que prestam cuidados sociais ou de saúde às pessoas que vivem com a infecção.

Maria Eugénia Saraiva declarou-se satisfeita com os resultados da reunião de hoje e realçou a “abertura ao diálogo” demonstrada pela ministra da Saúde, Ana Jorge.

Uma das preocupações levadas à reunião pelas ONG prende-se com a limitação do financiamento aos projectos aprovados a um máximo de quatro anos, com Maria Eugénia Saraiva a lembrar que algumas das actividades desenvolvidas pelas organizações se estendem por um período superior.

“O que foi dito [na reunião] foi que o Ministério da Saúde iria ajudar a sociedade civil a encontrar novos programas de contratos e alternativas a esta situação. Os projectos plurianuais serão também ajudados”, afirmou Maria Eugénia Saraiva.

A presidente da Liga Portuguesa contra a Sida acrescentou ainda que o Ministério da Saúde será “parceiro” a encontrar novos apoios, “nomeadamente no Instituto de Segurança Social e outros parceiros, de forma a poder ser dada continuidade a apoios psicossociais, ou outros como o domiciliário, na área da adesão à terapêutica, discriminação e vários outros que estas associações prestam”.

Em declarações anteriores à Agência Lusa, o coordenador nacional para a Infecção VIH/Sida, Henrique Barros, referiu que os limites impostos pelo decreto-lei de 2006 obrigavam “a encontrar modelos de financiamento diferentes para actividades que, pela sua natureza, não são verdadeiros projectos e por isso se podem prolongar no tempo para além da duração prevista” nas candidaturas.

(Diário Digital / Lusa – 27.05.2008 )





Cientista que descobriu o vírus da SIDA vem a Portugal falar sobre a doença

28 05 2008

Luc Montagnier, virologista mundialmente reconhecido pela sua descoberta, em 1983, do vírus da imunodeficiência humana (VIH) – o vírus da SIDA – estará presente no terceiro dia do Primeiro Congresso Ibérico Anual sobre Medicina Anti-Envelhecimento e Tecnologias Biomédicas, a decorrer de 29 a 31 de Maio deste ano, no Hotel Cascais Miragem, no Estoril.

O presidente da Fundação Mundial para a Pesquisa e Prevenção da SIDA é um forte defensor da medicina preventiva, estando especialmente focado na investigação e estudo em trono do prolongamento da vida activa das pessoas. Além do seu envolvimento na concepção de novos tipos de vacinas para a prevenção e cura da SIDA, os seus estudos actuais estão centrados no diagnóstico e tratamento dos factores microbiais e virais associados ao cancro, doenças neuro-degenerativas e doenças articulares, utilizando tecnologias biofísicas.

Luc Montagnier é certamente o mais célebre orador neste evento e estará disposto a responder a questões sobre o tema que o traz a Portugal.

A sua presença integra-se no congresso organizado pela A4M Ibéria, (a Federação Ibérica da World Academy of Anti-Aging Medicine), o primeiro do género na Europa, que tem como objectivo geral criar mais conhecimento sobre a Medicina de Anti-Envelhecimento, sensibilizando também a população para a importância da medicina preventiva para inibir o envelhecimento do corpo e da alma.

Além da presença estimada de 600 a 700 participantes por cada dia do congresso, o A4M Ibéria atraiu mais de 65 cientistas e médicos mundialmente conhecidos e de diferentes especialidades médicas, que irão apresentar os resultados das suas últimas pesquisas.

 

Sobre a Medicina Anti-Envelhecimento
Conhecida como a medicina do futuro, a Medicina de Anti-Envelhecimento foi concebida para retardar o envelhecimento humano através da prevenção de doenças de maior mortalidade e morbilidade relacionadas com a idade, tais como as do foro neurológico, as oncológicas e cardiovasculares. Promove também a melhoria da qualidade de vida com vista a um maior rendimento físico, hormonal e intelectual ao envolver a optimização da nutrição, a prática correcta e personalizada de exercício físico e os tratamentos estéticos.

(Ciênciapt – 26.05.2008 )





Relatório internacional denuncia abusos sexuais a crianças por funcionários humanitários

28 05 2008

A organização britânica Save the Children divulgou hoje um relatório onde denuncia abusos sexuais a crianças, cometidos por funcionários humanitários, incluindo das Nações Unidas. A ONU está a investigar casos no Haiti, Libéria, Costa do Marfim e República Democrática do Congo.

As acusações de abusos sexuais por trabalhadores da ONU têm aumentado nos últimos anos. Mas, segundo o relatório, muitos dos abusos cometidos por soldados que integram as forças de manutenção da paz e funcionários humanitários nunca chegam a ser conhecidos.

O leque de abusos é extenso. Crianças que se vendem em troca de comida, sexo forçado, abuso sexual verbal, prostituição infantil, pornografia infantil, escravatura sexual e tráfico de crianças. A maioria tem entre os 14 e os 15 anos, mas o relatório identificou crianças com seis anos, vítimas de abusos.

O relatório foi baseado nas visitas que a organização fez no ano passado ao Haiti, Sudão e Costa do Marfim. Nestes países, a Save the Children realizou 38 debates com 250 crianças e 90 adultos, ao que se seguiram entrevistas e investigação. Em 20 destes 38 debates, os soldados de manutenção da paz, da ONU, foram identificados como os abusadores mais prováveis, apesar de um total de 23 organizações humanitárias, de manutenção de paz e segurança terem sido associadas a abusos sexuais nos três países.

A organização Save the Children, segundo a qual os números da ONU estão subestimados, defende a criação de um organismo que monitorize no terreno o que está a ser feito para acabar com estes abusos sexuais.
(Publico.pt – 28.05.2008 )





Ministério vai reforçar prevenção da infecção VIH/sida em jovens

28 05 2008
A ministra da Saúde, Ana Jorge, mostrou ontem disponibilidade para “alargar o financiamento a projectos de prevenção já em 2010″, disse ao DN Eugénia Saraiva, responsável da Liga Portuguesa Contra a Sida. Este passo permitiria “reforçar as campanhas de prevenção da infecção VIH/sida entre os mais jovens e não em grupos específicos como os homossexuais, trabalhadores do sexo ou toxicodependentes”, reforça Margarida Martins, da Abraço. A ministra da Saúde esteve reunida com responsáveis de onze organizações não–governamentais (ONG) que actuam na área do VIH/sida.

O programa ADIS – que se destina a financiar projectos e acções relacionadas com a prevenção e controlo da infecção – exclui das suas áreas prioritárias para 2009 a prevenção entre os mais jovens. Algo que a Abraço garante “fazer há 16 anos sem qualquer apoio do Ministério da Saúde, porque os projectos foram chumbados”, diz Margarida Martins. Em 2009, esta área está fora dos projectos que podem ser apoiados pela Coordenação Nacional para a Infecção VIH/sida.

Durante o encontro com as ONG, “a ministra Ana Jorge mostrou disponibilidade para ajudar as associações a procurar formas alternativas de financiamento, nomeadamente através da Segurança Social e sociedade civil”, afirmou Eugénia Saraiva, responsável da Liga Portuguesa Contra a Sida. Uma solução poderá ser a celebração de “contratos-programa entre o Ministério da Saúde e o da Solidariedade Social”, acrescenta Margarida Martins. Tal como o DN noticiou na semana passada, nove projectos de continuidade vão deixar de ter apoio da tutela a partir de 2011. Entre eles incluem-se projectos de prestação de serviços a doentes, sejam eles de apoio domiciliário, a crianças ou prestação de cuidados de saúde e refeições.

Dívidas saldadas em Junho

Já o financiamento para 2008, que sofreu atrasos de seis meses, “vai ser regularizado em meados de Junho”, frisa Teresa Almeida, da associação Sol. “Será pago com retroactivos tudo o que estava em falta, mas não sei se todas as despesas ficarão cobertas. Amontoaram-se dívidas, custos com salários e empréstimos com juros durante este tempo”. As responsáveis mostraram-se satisfeitas com a reunião, frisando a disponibilidade que Ana Jorge teve para ouvir e tentar resolver os problemas.

(Diana Mendes/Diário de Notícias – 28.05.2008 )





ANGOLA: Invisíveis e vulneráveis

27 05 2008

LUANDA, 27 Maio 2008 (PlusNews) – Foi uma “boda de arromba”, com direito a festa no Clube Marítimo, na Ilha de Luanda, e noite de núpcias cinco estrelas no Hotel Presidente Meridien.

A cerimônia foi destaque nos jornais angolanos. “Pouca vergonha” estampava a capa de um dos semanários. “Abominável” era a manchete de outro.

O casal angolano Bruno e Chano pagou um alto preço por tornar público o seu relacionamento homossexual.

Os dois se conheceram quando eram vizinhos nas Bês, bairro de Luanda. Após três anos e meio de relacionamento, os dois rapazes decidiram realizar uma cerimônia para oficializar a relação, ainda que não de forma legal.

Em 6 de Maio de 2005, Aleksander Gregório, o Chano, 21 anos, e Bruno, conhecido como Bruna, 23 anos, assinaram uma espécie de termo de responsabilidade, na presença de um conservador já aposentado.

Todos os detalhes da cerimônia foram discutidos nos mínimos detalhes nos jornais e nas rodas de conversa: o fato de Bruna ter usado um vestido de noiva, a lista de convidados da festa e, principalmente, a vida sexual do casal.

Os jornais utilizaram termos como “asco e repulsa” e sobretudo “falta de vergonha” para descrever a relação dos dois rapazes.

Apesar dos ataques, Chano e Bruna resistiram e continuam juntos, após cinco anos de relacionamento.

O amor que não ousa dizer seu nome

Dados do estudo epidemiológico de 2007 do Instituto Nacional de Luta contra a SIDA (INLS) mostram que cinco por cento das infecções por HIV em Angola acontecem por vias homossexuais.

Porém, os números não tornam o assunto menos tabu.

Para o antropólogo Américo Kwanonoka, a homossexualidade é vista como um atentado às leis da natureza devido à origem bantu da maioria da população angolana, que defende a perpetuação e o alargamento da família.

Segundo Kwanonoka, por não formar família, o homossexual é visto como “anormal”.

“Tanto a cultura bantu quanto a cultura cristã rejeita a homossexualidade. A sociedade angolana ainda não está preparada para assumir os homossexuais”, diz.

Jane Dias, nascido João Dias, 35 anos, já sentiu na pele essa intolerância.

“Já me atiraram pedras na rua. Antes eu pensava que era a única travesti de Viana (bairro de Luanda)”, conta.

Edna, nascido Edson*, 21 anos, desistiu da escola na oitava classe porque sofria muito com a perseguição dos colegas de classe.

Por conta desta intolerância, são raros os homossexuais assumidos em Angola.

O psicólogo social Carlinhos Zassala explica que, devido à dificuldade social e cultural, muitos homossexuais angolanos tentam se tornar bissexuais e encontram no casamento uma forma de fugir do estigma.

Uma vez casados, o sexo ocasional com outros homens se torna uma alternativa para extravasar o desejo reprimido.

“Muitos dos que nos xingam e nos atiram pedras na rua são os mesmos que vêm bater à nossa porta à noite”, entrega Jane.

Só que, em muitos casos, o sexo casual é desprotegido, sem o uso do preservativo.

“É por isso que o tabu ajuda na transmissão das infecções sexualmente transmissíveis e do HIV”, explica Zassala, que é também presidente da Associação Angolana de Psicólogos.

''Muitos dos que nos xingam e nos atiram pedras na rua são os mesmos que vêm bater à nossa porta à noite.''

Para ele, a notícia do casamento gay em Luanda foi positiva porque provocou a discussão do assunto na sociedade.

Em Angola, costuma haver uma associação direta do homossexualismo a homens que têm trejeitos femininos, o que nem sempre é o caso.

“Muitos homens que fazem sexo com homens não se consideram homossexuais. E se a pessoa não se reconhece, a mensagem de sexo seguro não a atinge”, diz Roberto Campos, oficial do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV e SIDA (ONUSIDA).“O facto é que o sexo anal desprotegido é uma relação de alto risco para a transmissão do vírus.”

Os homossexuais ouvidos pelo PlusNews confirmaram que já viveram situações de risco.

Edna diz que não gosta de usar camisinha porque o óleo lhe provoca alergias. Ela admite manter relações sexuais sem preservativo com o namorado, que é casado e pai de dois filhos.

Segundo Edna, o namorado já fez um teste de HIV no Hospital Militar, que deu negativo. Ela só fez o teste porque achou que já tivesse contraído o vírus.

“Há quatro meses, estava a me sentir fraca, com enjôo e resolvi fazer o teste. O resultado foi negativo, mas pediram para eu repetir daqui a três meses”, conta.

População invisível

Por ser uma população invisível, os homossexuais são ignorados em decisões governamentais, como o Plano Estratégico Nacional para o Controlo das Infecções de Transmissão Sexual, VIH e Sida, 2007 a 2010.

A exclusão dos homossexuais nos programas de HIV/SIDA em África foi comprovada por um estudo da Comissão Internacional para os Direitos Humanos de Gays e Lésbicas chamado Fora do Mapa (Off the Map, em inglês).

O relatório destaca que no continente africano, onde estão cerca de 60 por cento dos casos de HIV do mundo, “há um silêncio no que se refere à infecção do HIV entre os homossexuais”.

O resultado é que as mensagens sobre sexo seguro assumem uma orientação exclusivamente heterossexual e os gays não se sentem informados nem protegidos.

A desinformação vale também para o serviço de saúde.

Esmeralda, nascido Pedro*, 29 anos, conta que ao ir fazer o teste de HIV no Hospital Militar, em Luanda, ouviu do enfermeiro que nem precisava se testar porque, com certeza, já estava infectada.

Jane afirma que já fez o teste diversas vezes no Hospital Esperança e assiste a palestras sobre HIV e SIDA, mas reconhece que ela é uma exceção.

“Aconselho minhas amigas a fazer o teste também, mas a maioria tem medo. O maior medo delas é pensar como vão encarar as pessoas se forem seropositivas. Mas acho que se elas não souberem que estão infectadas, podem contaminar muitas pessoas”, diz.


Photo: Ministério da Educação de Angola
Homossexuais na pauta da saúde pública e da epidemia do HIV

Todos os homossexuais ouvidos pelo Plusnews manifestaram o desejo de serem atendidos num local específico.

“Eu gostaria que tivéssemos atenção especial. Muitas organizações já prometeram, mas até hoje nada saiu do papel”, reclama Edna.

Mudança política

Em 2006, a organização não-governamental Acção Humana tentou desenvolver um projecto de prevenção específico para homossexuais.

A proposta era divulgar o uso do preservativo, combater a discriminação e advogar pelos direitos humanos.

“Queríamos um projecto implementado pelos próprios homossexuais, que entrariam em contacto com outros gays nas discotecas, bares e praias, como educadores pares”, explica o coordenador da Acção Humana, Pombal Maria.

A organização chegou a reunir um grupo de 14 homossexuais, com os quais foi feita uma formação inicial, mas a idéia não vingou por falta de recursos.

Em 2007, a ONG apresentou uma nova proposta aos doadores, que foi recusada, pois “não existem homossexuais suficientes em Angola para justificar o projecto”.

Mas ainda que lentamente, a situação dos homossexuais em Angola já passa por pequenas mudanças. 

O INLS, em parceria com os Centros de Controlo de Doenças, em Atlanta, nos Estados Unidos, dará início em Junho ao primeiro estudo sobre homossexuais em Angola.

A idéia é identificar hábitos e comportamentos desse grupo, incluindo riscos e vulnerabilidade em relação ao HIV.

“Isso demonstra uma mudança política importante. Antes os homossexuais não eram um assunto prioritário. Agora eles deixam de ser invisíveis para ser incluídos na discussão da saúde pública e da epidemia do HIV”, diz Campos, do ONUSIDA.

(PlusNews – 27.05.2008 )





Site cria jogo online para educar sobre a aids

27 05 2008

O Hot or Not, um site ao qual as pessoas enviam fotografias delas mesmas para que desconhecidos votem em escala de um a 10 para dizer se são atraentes, criou muitas imitações (e atraiu críticas de muita gente que vê esse tipo de site como o fim da civilização.) Um novo site derivado, Pos or Not, tem propósito sério (ainda que de gosto discutível): é um esforço de educação sobre a aids disfarçado de jogo.

O site www.posornot.com mostra fotos e pequenas biografias de homens e mulheres com idades entre 21 e 30 anos e pede que os visitantes digam se eles são ou não portadores de HIV. A mensagem é que não se pode julgar a situação de uma pessoa quanto ao vírus apenas pela sua aparência, ocupação ou gosto musical.

 

“Sentimos que essa é mais uma ferramenta de ativismo para difundir a necessidade de proteção contra o HIV”, gerente geral da mtvU, divisão universitária da rede de TV a cabo MTV, parte do grupo Viacom, patrocinadora do projeto.

 

O primeiro teste pela mtvU do que Friedman define como “jogos pela mudança” foi o “Darfur is Dying”, uma simulação online de um campo de refugiados que atraiu mais de 1,5 milhão de usuários desde sua criação, em 2006. Outras empresas patrocinaram jogos sobre conflito entre israelenses e palestinos, o debate sobre a imigração e os recursos hídricos mundiais.

 

A rede quer que sua mensagem sobre o site de prevenção ao HIV seja difundida como um vídeo popular no YouTube, e conta com a ajuda de celebridades como o músico Wyclef Jean e a atriz Rosario Dawson.

 

A mtvU informa que o site foi visitado por 400 mil pessoas, e que o jogo foi usado 5,1 milhões de vezes, nas três primeiras semanas. “Mesmo que o jogo cause desconforto a algumas pessoas, isso não é necessariamente ruim”, defende Friedman.

 

Tradução: Paulo Migliacci ME (Brian Stelter)

The New York Times – 25.05.2008 )





OIT: Novas regras de trabalho podem ajudar na luta contra AIDS

27 05 2008

Relatório recente da Organização Internacional do Trabalho revela que muitos países tomam passos significativos para abordar a questão de VIH/AIDS no local de trabalho – e seus novos regulamentos podem ajudar na luta contra a doença.

A Organização Internacional do Trabalho, OIT (em inglês, International Labour Organization, ILO) declarou no seu relatório divulgado ontem que promover direitos humanos no local de trabalho para as pessoas que vivem com VIH/AIDS ajudaria em conseguir acesso universal a medidas de prevenção de VIH, assim como tratamento e cuidados de saúde.

O novo relatório da organização, intitulado “VIH/AIDS e o Mundo de Trabalho,” revela que mais de 70 Estados Membros da OIT adotaram, ou estão em processo de adotar, uma lei geral sobre VIH/AIDS, enquanto 30 países aplicam, ou planejam aplicar, regras específicas no local de trabalho para pessoas seropositivas ou com AIDS.

Ao mesmo tempo, a OIT diz que VIH tem um efeito devastador no mundo de trabalho. Uma maioria do mais que 33 milhões de pessoas no mundo vivendo com VIH estão ainda a trabalhar. Estão nos seus anos mais produtivos, com habilidades e experiência que as suas famílias e países não podem perder. No entanto, apesar de avanços importantes em atitudes e conhecimentos sobre AIDS, muitos trabalhadores ainda enfrentam discriminação, estigma e o temor de perder seu posto de trabalho.

Fonte: ONU

(Timofei BYELO/PRAVDA.Ru – 24.05.2008 )





O caminho é longo (Entrevista: David Baltimore)

27 05 2008

Dono de um Nobel há 33 anos, o biólogo diz que a cura da AIDS ainda está longe e conclama o Brasil a pesquisar células-tronco

“Acredito que devemos investir tempo, dinheiro e energia nas pesquisas com células-tronco embrionárias”

O biólogo David Baltimore, 70 anos, é um daqueles pioneiros da pesquisa que a academia americana produz com certa freqüência. Por isso, quando vem a público, como faz nesta entrevista, para dizer que a cura da AIDS está longe, tão longe que nem é possível afirmar que será descoberta, os cientistas o escutam com atenção. O vírus HIV, causador da AIDS, foi descoberto há 25 anos, data marcada por um encontro científico realizado em Paris na semana passada. Apesar do insucesso das pesquisas, Baltimore não é um pessimista. Ao contrário. É um entusiasta da ciência que, mesmo tendo recebido o Nobel de Medicina com apenas 37 anos, ainda se mantém ativo no laboratório e fascinado com a profissão. “Eu me entusiasmo quando estou diante de um bom texto científico, de um bom trabalho, mesmo de uma boa conversa.” Além de ser um defensor convicto das pesquisas com células-tronco, ele está seguro de que esse trabalho terá resultado mais profícuo que as pesquisas sobre a cura da AIDS e, mais cedo ou mais tarde, trará bons resultados para a humanidade. Nesta entrevista a VEJA, Baltimore fala do desafio que o HIV representa para a ciência e convida o Brasil a integrar o mutirão científico autorizando a pesquisa com células-tronco embrionárias, tema que o Supremo Tribunal Federal julgará nesta quinta-feira, em Brasília.

Veja – Por que os experimentos para encontrar uma vacina contra a AIDS até hoje não chegaram a lugar algum?

Baltimore – O caminho é dificílimo. É tão difícil que, neste momento, não sei afirmar quando teremos uma vacina, nem se a teremos um dia. Tenho esperança de que a comunidade científica terá sucesso nessa empreitada, mas até hoje não descobrimos um caminho que nos dê segurança de que chegaremos a uma vacina. É fundamental que os cientistas prossigam com as pesquisas, mas o vírus HIV, pela própria constituição, é praticamente insensível a anticorpos, e a maioria das vacinas trabalha com anticorpos. Talvez o caminho do combate à AIDS seja outro.

Veja – Qual é o outro caminho?

Baltimore – Estamos explorando uma linha de pesquisa com terapia genética. Nossos estudos pretendem descobrir se podemos modificar o sistema imunológico de uma pessoa. Se conseguirmos isso, podemos dotar o sistema imunológico da capacidade de fazer coisas que naturalmente ele não sabe fazer, como combater o HIV.

Veja – A terapia genética, se funcionar para combater o HIV, funcionaria também contra o câncer?

Baltimore – Sim, inclusive neste momento também estamos trabalhando com câncer nas nossas pesquisas.

Veja – Que linha de pesquisa está mais próxima do sucesso contra a AIDS: a terapia genética ou a vacina?

Baltimore – É difícil dizer. Há grandes desafios técnicos tanto numa linha quanto na outra. O fato é que o HIV está desafiando as habilidades da ciência atual.

Veja – O que o senhor sentiu quando viu um vírus HIV pela primeira vez?

Baltimore – Foi logo que descobriram a existência do vírus, no início dos anos 80. Quando me dei conta do que estava diante de mim, confesso que fiquei pasmo e assustado. Fiquei realmente assustado. Era a primeira vez que eu via um retrovírus. Ele era capaz de fazer coisas que nunca tínhamos visto antes. De causar imunodeficiência, ou seja, de tornar ineficiente nosso sistema imunológico. Foi impressionante e assustador.

Veja – A Justiça brasileira vai decidir em breve se autoriza ou não a pesquisa com células-tronco de embriões humanos descartados nas clínicas de fertilização. Quem é contra diz que destruir um embrião equivale a um assassinato. O que o senhor acha?

Baltimore – Não sei falar a respeito do aspecto jurídico do assunto, mas do ponto de vista científico é uma discussão sem sentido. Afinal, os embriões humanos foram descartados porque o casal já teve o número de filhos que queria ou por qualquer outra razão. O fato é que os embriões serão destruídos de qualquer modo. A questão é saber se serão destruídos fazendo o bem a outras pessoas ou não. A meu ver, a resposta é óbvia.

Veja – Sendo um país onde a pesquisa científica ainda engatinha, o Brasil pode fazer alguma diferença entrando para o clube das nações que realizam pesquisas com embriões?

Baltimore – Sem dúvida. Nunca estive no Brasil, mas conheço cientistas brasileiros e tenho colegas que já lecionaram no país. Por isso, posso dizer que, se o Brasil adotar uma linha de pesquisa de alto nível, sua contribuição poderá ser enorme.

Veja – Cientistas que defendem a preservação dos embriões nas clínicas de fertilização costumam dizer que as pesquisas com células-tronco adultas são tão ou mais promissoras que as com células-tronco embrionárias. É verdade?

Baltimore – Se eu fosse fazer uma aposta, diria que as células-tronco adultas serão as primeiras a nos apresentar resultados concretos, porque nós as conhecemos melhor, sabemos mais sobre seu funcionamento. Nesse sentido, quando se trata de buscar resultados mais imediatos, as células-tronco adultas são mais promissoras. Mas, a longo prazo, as células-tronco embrionárias são muito mais promissoras, porque têm potencial de transformação muito superior. Elas têm capacidade de evoluir para qualquer tecido humano, mas ainda não as conhecemos tão bem. Produzir resultados a partir das células-tronco de embriões, portanto, é algo que vai levar mais tempo. Mas a tendência é que os resultados, quando surgirem, sejam mais importantes do que os advindos das pesquisas com células-tronco adultas.

Veja – O senhor recomendaria que a pesquisa se concentrasse nas células-tronco adultas porque o resultado tende a ser mais rápido?

Baltimore – Não é prudente paralisar nenhum caminho promissor de pesquisa, mas acredito que devemos investir tempo, dinheiro e energia nas pesquisas com células-tronco embrionárias. Como elas têm potencial de evolução praticamente ilimitado, os experimentos aí vão produzir mais conhecimento científico.

Veja – Há risco de as pesquisas com células-tronco consumirem tempo, dinheiro e energia e resultarem em nada?

Baltimore – As células-tronco são um universo fascinante, certamente produzirão algum resultado, mas os problemas que temos pela frente são grandes. O caminho é longo.

Veja – Qual o grande desafio?

Baltimore – Controlar a evolução das células-tronco. Como elas têm imenso potencial de transformação, temos de descobrir como fazê-las evoluir num sentido específico, no sentido que desejamos. Por exemplo, se quisermos que se transformem em um nervo, em um tecido cardíaco ou ósseo, teremos de ter garantias de que a evolução resultará em um nervo, em um tecido cardíaco ou ósseo. Nosso desafio é saber como evitar que cresçam de modo desordenado, porque isso pode resultar num câncer. Além de descobrirmos como controlar essa evolução, temos de ser capazes de aplicar esse controle de modo rotineiro e sistemático. Ainda não temos respostas para essas questões.

Veja – Religião e ciência são incompatíveis?

Baltimore – Entendo que ciência e religião atuam em campos distintos. Uma não responde às perguntas da outra. Por isso, não vejo incompatibilidade.

Baltimore – O governo do presidente George W. Bush, cujo fundamentalismo religioso barrou todo um campo de pesquisas científicas, é um governo contra a ciência?

Veja – Não sei se é contra, mas certamente esse governo tem sido notável na falta de interesse pela ciência. Até o órgão de apoio à ciência, que costumava funcionar na Casa Branca, foi transferido para outro lugar em Washington. Tudo se soma para mostrar que o atual governo não se interessa pelo assunto.

Veja – O governo da Califórnia aprovou a criação de um fundo de 3 bilhões de dólares para financiar as pesquisas com células-tronco de embriões humanos, já que a Casa Branca decidiu fechar o cofre. Isso já produziu bons resultados?

Baltimore – Como o governo em Washington não apóia as pesquisas com embriões, os cientistas enfrentam constrangimentos legais porque não sabem se podem ou não apostar em certos caminhos de pesquisa. Isso acaba travando até mesmo a liberação de recursos financeiros. Quando deixei o comitê que escolhia os projetos científicos que o governo da Califórnia financiaria, havia pouco dinheiro liberado. Alguns laboratórios chegaram a fazer belos trabalhos apoiados pela política científica do estado, mas ainda é cedo para falar em bons resultados. Temos apenas uns dois anos de trabalho nisso. É pouco.

Veja – O desinteresse do governo americano ajudou a atrasar o progresso científico no mundo?

Baltimore – Acredito que sim. No caso das células-tronco, por exemplo, cujo financiamento com verba federal é limitado a apenas algumas linhas de pesquisa, a contribuição dos Estados Unidos poderia ter sido muito mais ampla. O mundo tem feito um trabalho fantástico nessa área, mas a ciência americana poderia ter ajudado. Por sorte, isso deve acabar com a eleição presidencial, sejam quais forem os candidatos e seja quem for o eleito. Tanto o republicano (o senador John McCain) quanto os democratas (os senadores Barack Obama e Hillary Clinton) têm mostrado isso. A atual política científica americana deve ser modificada imediatamente. Nos Estados Unidos, apesar dos investimentos privados, o governo é o grande incentivador da ciência. Como a Casa Branca historicamente cuida com carinho do assunto, o país conseguiu um desenvolvimento científico notável, mas nem sempre a ciência tem apoio da política.

Veja – A falta de apoio político retarda o avanço de certos experimentos ou chega a paralisá-los por completo?

Baltimore – Na década de 70, por exemplo, a fertilização in vitro era um assunto delicado, gerava polêmica, e os políticos preferiram tomar distância. No entanto, as pesquisas acabaram se desenvolvendo mesmo assim. Nesse caso, a falta de apoio governamental teve outra decorrência negativa nos Estados Unidos. A fertilização in vitro se desenvolveu como uma indústria sem regulamentação, porque o governo tinha receio de se envolver com o assunto. A fertilização in vitro é sensacional, deu vida a muitas crianças que de outro modo não teriam nascido, mas o fato é que não conhecemos a qualidade do trabalho que se faz em muitos lugares. Isso não é recomendável.

Veja – As crescentes denúncias de fraudes científicas não podem minar a credibilidade de que a ciência precisa justamente num momento em que lida com assuntos polêmicos, como a clonagem?

Baltimore – Precisamos entender que temos visto mais casos de fraude porque estamos fazendo mais ciência. Não acho que seja um assunto que já tenha chegado ao ponto de ameaçar a credibilidade dos cientistas e das suas pesquisas.

Veja – Já se passaram mais de vinte anos do escândalo em que a brasileira Thereza Imanishi-Kari foi acusada de falsificar dados num experimento em que ela trabalhava com o senhor. O seu envolvimento nesse caso, que acabou resultando na sua renúncia à presidência da Universidade Rockefeller, emperrou sua carreira de algum modo?

Baltimore – É claro que isso tornou minha vida mais difícil, mas às vezes é o preço que temos de pagar por adotar uma posição que julgamos correta. Thereza é brasileira e, por ser estrangeira, tinha mais dificuldade de se defender. Eu estava defendendo uma colega. Tenho orgulho de ter ficado ao lado dela. Thereza estava sendo acusada injustamente.

Veja – Os cientistas que se tornam celebridades mundiais com suas pesquisas podem acabar se sentindo pressionados a sempre produzir coisas espetaculares. Em alguns casos, isso pode estimular uma fraude?

Baltimore - Acredito que em sua maioria os colegas que chegaram ao ponto de ganhar fama mundial por seus trabalhos já provaram que são cientistas extraordinários. Talvez isso tenha sido um problema no caso do coreano que fraudou sua pesquisa (refere-se ao biólogo sul-coreano Woo-Suk Hwang, que fraudou um trabalho em que dizia ter clonado células-tronco embrionárias). O problema é que ele virou um superstar sem ter feito muita coisa antes. Mas é um problema raro.

Veja – O senhor recebeu o Prêmio Nobel de Medicina quando tinha 37 anos, em 1975. De lá para cá, não teve de lidar com um peso excessivo sobre os ombros, um compromisso de ser genial em cada passo do seu trabalho?

Baltimore – Na verdade, é o contrário. A maioria das pessoas acha que depois de receber um Nobel você não vai fazer mais nada de relevante. Muita gente até fica impressionada quando sabe que eu ainda estou fazendo pesquisa.

Veja – O Nobel ajudou a lhe abrir portas para ganhar financiamento para suas pesquisas?

Baltimore – Nos Estados Unidos, o Nobel não abre portas. O grosso dos financiamentos vem do governo federal, e o pessoal do governo até costuma olhar quem tem um Nobel com mais atenção, fazendo um escrutínio mais rigoroso para se certificar da real importância do trabalho. Eles querem descartar a suspeita de que o laureado esteja pedindo dinheiro sem muito fundamento, confiando apenas no prestígio de ser um prêmio Nobel.

Veja – O senhor ainda fica empolgado quando aparece alguma novidade no laboratório?

Baltimore – Completamente. É empolgante participar do cotidiano da ciência, do seu passo-a-passo, do seu progresso. Sinto o mesmo entusiasmo de quando era jovem. E me entusiasmo quando estou diante de um bom texto científico, de um bom trabalho, mesmo de uma boa conversa. Eu poderia me aposentar, mas essas coisas me empolgam de verdade.

Veja – Aposentar-se, então, jamais?

Baltimore – Depende. Não sei o que virá primeiro, se a morte ou a aposentadoria.

(André Petry, de Nova York/Veja – 24.05.2008 )





Com fervor e autonomia

27 05 2008

VERA PAIVA – Professora do Instituto de Psicologia  da USP e coordenadora do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids;  Para psicóloga, a religião, em si, protege a juventude. Mas não impede que os fiéis sejam sujeitos da própria sexualidade

 

Vera Paiva é uma ativista dos direitos humanos – e das palavras certas no lugar devido. Vigia as próprias expressões e as minhas, e está cercada de textos precisamente científicos empilhados na bancada em L do escritório de sua casa, em São Paulo. No computador, ela mostra mais um trabalho, e outro, muitos já fugidos do campo virtual para a ação. Um deles tem o seguinte título: Jovens e Religião: Sexualidade e Direitos entre Lideranças Católicas, Evangélicas e Afro-brasileiras.

Foi especialmente sobre os resultados desse material que conversamos às vésperas de dois congestionados eventos na capital paulista: a 16ª Marcha para Jesus, que, soubemos depois, reuniu 1,2 milhão de marchantes na quinta-feira, e a 12ª Parada do Orgulho GLBT, que deve atrair hoje cerca de 3,5 milhões. O grupo que Vera coordenou queria compreender como a convivência em comunidades religiosas repercute na experiência sexual dos jovens em SP, Rio e Recife. Os resultados em detalhe ela explica daqui a pouco, na entrevista.

Por ora, a professora da USP, colaboradora da Universidade Colúmbia, nos EUA, e autora de livros sobre sexualidades, gêneros e aids, como Fazendo Arte com a Camisinha, reconhece que tivemos grandes avanços nos últimos 20 anos quanto ao uso do preservativo. Também afirma que a religião protege a juventude em certa medida. Mas interpela seu otimismo com dois entretantos: muitos evangélicos iniciam sua vida sexual sem a prevenção, e a aids avança entre os jovens brasileiros, em especial os homossexuais. “Não podemos perder essa janela de oportunidade imensa de trabalhar a educação sexual em um grupo gigantesco de gente.” É a hora e a vez, portanto, de arrebanhar a multidão de jovens contra os estigmas e a favor do direito irrestrito à informação, conclui, ajeitando a pilha de vírgulas, dois pontos e exclamações sobre a mesa do escritório.

A senhora coordenou uma pesquisa que envolveu jovens, religião e sexualidade. Qual foi o resultado mais surpreendente?

Fizemos uma pesquisa entre líderes católicos, evangélicos e afro-brasileiros em São Paulo, Recife e Rio de Janeiro. O que verificamos é que, entre jovens pentecostais, houve um aumento da proporção dos que se iniciaram sexualmente antes dos 19 anos, provavelmente antes de casar. E esse número aumentou sem a prevenção. Ou seja, esses jovens estão aumentando a quantidade de sexo, mas não a de camisinha.

A que atribui isso?

Quero chamar a atenção para o seguinte: mesmo diante dos dogmas, as pessoas conseguem ser sujeitas de sua própria sexualidade. Veja que esse estudo envolveu jovens que são líderes religiosos na sua comunidade. Eles participam, são ativos, militam. Os evangélicos afirmam que sexo fora ou antes do casamento é pecado e permitem ou mesmo recomendam contraceptivos, mas dentro do matrimônio. Quando você vai ver, uma proporção imensa deles transou antes do casamento – e sem preservativo. Então dizem uma coisa e fazem outra.

A Igreja Católica também prega o sexo após o casamento.

Sim, tanto a Igreja quanto os cristãos protestantes estimulam o adiamento da vida sexual até o casamento. E, na verdade, o que se tem é uma contradição gigantesca – em boa parte, a idade média de iniciação sexual está pelos 15 anos, tanto para meninos quanto para meninas. Raras pessoas casam antes disso. O que a pesquisa mostrou, porém, é que houve um aumento no uso de preservativos na primeira relação, exceto entre os jovens protestantes.

O jovem conversa com os líderes religiosos sobre sexo?

Os líderes se preocupam com o impacto da erotização da mídia entre jovens e apontam a atividade sexual como um assunto que se propõem a acolher. O que a pesquisa revelou, no entanto, é que quase 100% dos jovens conversam, em primeiro lugar, com os amigos. Depois, com os pais. Em seguida, com o namorado ou com a namorada e, então, com outros parentes. Os líderes religiosos chega, no máximo, a 5%. E, ainda assim, não se fala de sexo como fonte de prazer e descoberta, mas como razão de sofrimento e problemas.

Qual deveria ser o tom dessa conversa?

Não adianta falar que sexo é perigoso e proibido. Precisamos ensinar as pessoas a transformar a curiosidade e a vontade de amar em entrega, em vontade de ter intimidade. Isso não é uma questão restrita à juventude, mas é ali que se inicia. Ao mesmo tempo, é necessário quebrar essa imagem de que a adolescência é uma fase problemática da vida. No campo da sexualidade, a gente não se cura da adolescência quando passa para a vida adulta. Estamos nos enganando achando que, depois dos 21 anos, todo mundo vai usar camisinha, não vai engravidar contra a vontade, não vai ser impulsivo. Isso é uma bobagem. Cria-se a ilusão de que, assim que passar dessa idade, está tudo resolvido. Sem projetos de educação, o jovem pode mesmo transformar o desejo inconsciente num desejo atuado de forma inconseqüente e uma ilusão. Agora, se você acha que é a idade que provoca isso, será absolutamente injusto com 90% dos jovens que são absolutamente comportados, estudam quando podem, vão à escola quando têm essa alternativa, quando a estrutura familiar permite e a escola não expulsa.

Mas certos comportamentos na adolescência tendem a se perpetuar?

Nada é perpétuo. Muitas pessoas mudam ao longo da vida. Mas sabemos que os primeiros anos são marcantes em relação ao que seremos no futuro, inclusive em relação à sexualidade. Uma criança abusada sexualmente tem uma experiência diferente de vida em relação a esse tema. Um adolescente que começa a vida sexual impondo-se cuidado e planejamento tende a manter isso ao longo do tempo. O adolescente que se arrisca o tempo inteiro pode se relacionar assim lá na frente.

A religião protege o jovem?

Em certo sentido, sim. Ser membro de uma comunidade religiosa ajuda o jovem a permanecer na escola, a ter acesso à saúde. Religião dá sentido à vida, ajuda a ter valores estruturados, auxilia a família e a escola a educar. Ao mesmo tempo, é fonte de discriminação. Cerca de 3% dos católicos, 16% dos evangélicos e 30% dos pertencentes ao candomblé/umbanda disseram isso na pesquisas. Os devotos desse último grupo costumam, inclusive, esconder a própria religião, afirmando ser espíritas ou espiritualistas. Os evangélicos também são discriminados, mas não escondem seu credo.

O sexo tem a mesma significação para todos os grupos?

Para os adeptos do candomblé e da umbanda, o sexo é fonte de prazer e troca de energia. Já a maioria dos católicos diz que sexo é prova de amor pelo parceiro ou pela parceira. Uma proporção importante deles também afirma ser importante para constituir família, mas essa é a maior escolha dos evangélicos. Interessante que, quase na mesma medida para afro-brasileiros e católicos, o sexo é uma necessidade física, como a fome e a sede. Para todos, a idade não é importante para a primeira vez, mas a maturidade, sim.

Como esses grupos vêem a homossexualidade?

A maioria entende que ser homossexual não tem a ver com a esfera religiosa, que os homossexuais precisam ser respeitados “como seres humanos”, aumentou a proporção de tolerância com os homossexuais, mas que nem por isso eles devem demonstrar ou atuar sua sexualidade dentro do grupo religioso. Esse tema foi especialmente quente e polêmico entre os jovens e líderes do candomblé e da umbanda, que esperavam mais “tolerância” aos homossexuais no cotidiano e nas respostas aos questionários. Ainda assim, a homossexualidade é mais acolhida entre os afro-brasileiros, tanto como orientação sexual assumida quanto para o sacerdócio.

E para os evangélicos e católicos?

A heteronormatividade é uma referência nas religiões cristãs. Para os evangélicos, conduzir-se abertamente como homossexual é uma forma de não respeitar a religião porque o papel do homem e da mulher é a reprodução. O homossexual deve, então, ser acolhido e aconselhado, mas precisa passar por um “tratamento espiritual” para “se libertar de sua orientação”. Alguns líderes acreditam que o homossexual não pode ser sacerdote porque é papel de “homem” ou porque precisam ainda superar seu “homossexualismo”, remetendo novamente à patologia. Entre católicos e anglicanos, a homossexualidade está em pauta. Há muitos grupos católicos mais abertos à diversidade, que começam a debater o dogma, apesar do discurso oficial nada progressista da Igreja. Entre os anglicanos, já é possível um gay viver a experiência do exercício do sacerdócio, por exemplo.

A senhora também coordenou um trabalho com jovens portadores do HIV. O estigma da aids ainda está associado à homossexualidade?

Sim. Muitos meninos com quem a gente conversou tinham medo de dizer que eram portadores e serem chamados de “bicha”, quando podem ter sido infectados pelos pais ou numa relação sexual na rua. Vice-versa e ao contrário. O menino homossexual também não consegue conversar com os outros e discutir o assunto em casa, na igreja ou na escola. Os que estão à volta acham que o silêncio ensina alguma coisa, como se o silêncio fosse equivalente a eliminar a curiosidade, o desejo de namorar, a paixão. O silêncio não ensina. Ele deixa um vácuo que os jovens preenchem com a experiência viva, que pode ser desastrosa, ou com informações incorretas ou mal resolvidas.

Quais seriam essas experiências desastrosas?

Eles podem deprimir, se maltratar, não se relacionar, se esconder, que é o que há de mais triste. É uma restrição desnecessária de horizontes, tanto para os homossexuais como para esses jovens portadores de HIV. Eles têm desejos que não podem existir. No caso dos adolescentes com HIV, há todo o dilema de para quem contar, como contar, quando contar, o medo de ser abandonado, ser rejeitado. E eles ainda precisam lidar com o início da vida sexual, o marco da adolescência. Como ocorre com todos os adolescentes, os adultos mostram o perigo. Não ensinam como dizer sim, só como dizer não. Isso atrapalha porque dificulta o acesso à informação. Veja você que é grande o número de jovens, cerca de 70% na nossa pesquisa, que fazem sexo contra a vontade, sob violência. Isso é mais comum entre meninos homossexuais. A situação fica ainda mais complicada quando se observa que a aids está crescendo justamente entre os jovens, em particular os homossexuais. A aids não é problema superado.

Nesse sentido, em que está falhando a educação sexual?

Nas escolas, quando se dá informação sobre aids, assume-se que a prevenção é para heterossexuais ou para pessoas negativas. Esquece-se que, naquele grupo de alunos, pode haver jovens portadores do HIV que, portanto, vão precisar de um pouco mais de informação. O mesmo ocorre com os jovens homossexuais. Onde está a informação específica para quem faz sexo de um modo diferente?

O grau de escolaridade faz diferença na prevenção?

A escolaridade protege em vários sentidos. Os jovens de mais escolaridade têm taxa de uso de preservativo muito maior e, além disso, iniciam a vida sexual bem mais tarde. Estão há mais tempo na escola, têm projetos de vida que se confundem com a profissionalização e, eventualmente, abrem mão de outras coisas. A escolaridade é um próxis de renda familiar, um dos indicadores mais interessantes para a gente compreender o status socioeconômico. Esse status significa não apenas a quantidade de dinheiro que se tem, mas onde ele é investido. Exemplo clássico: uma colega nossa fez uma comparação entre famílias operárias e famílias de funcionários públicos com a mesma renda. As famílias operárias, ou seja, B e C em ascensão, tendem a gastar o que ganham para comprar casa, para se estabelecer no terreno, ser proprietárias de algumas coisas. Não necessariamente investem diretamente em educação. As famílias de funcionários públicos, por sua vez, tendem a pagar aluguel, morar no centro da cidade, tudo para investir brutalmente na educação dos seus filhos. Normalmente, as famílias de maior escolaridade estão seguindo o rumo daquilo que é mais típico das famílias de alta renda, que é investir fortemente na educação e ensinar os filhos a se cuidar melhor.

Na pesquisa sobre uso de preservativos na iniciação sexual dos adolescentes brasileiros, apareceu um resultado intrigante: a diminuição do uso de camisinha em jovens mais escolarizados que iniciaram a vida sexual com menos de 14 anos. Como explicar isso?

Ele é relevante. A minha hipótese é a de que tem muita gente com alta escolaridade nesse grupo que começa a vida sexual de forma desprotegida. Não é um problema dos pobres. A questão é que se deixou de fazer a prevenção da aids. Os pais e as escolas estão achando que o problema está resolvido. O fato de termos um programa bem-sucedido de aids pode levar a crer que quem faz o programa é o outro; eu não preciso mais fazer a minha parte. As pessoas enjoaram de falar sobre aids e se esqueceram de que os jovens que estão ali não são os mesmos de cinco, seis, sete, oito, nove, dez anos atrás. Eu tenho de falar o tempo inteiro sobre isso porque a aids não vai embora, a cura não aconteceu, a gente não derrotou o vírus.

O fato de não se ver na mídia pessoas abatidas pela doença pode contribuir para essa sensação de que a aids está superada?

Existe hoje uma cultura de se fazer o serosorting, ou seja, acreditar que é possível adivinhar o status sorológico do parceiro pelo aspecto do portador. A cara da aids não é a cara da lipodistrofia. Outros acham que é coisa de gay de mais idade, mas, como já disse, a aids está crescendo entre os mais jovens. Outros acreditam que virou distúrbio crônico, tal qual diabete. Acontece que a discriminação ainda é pesadíssima sobre quem é portador. A dificuldade para namorar, para revelar aos parceiros que se têm o HIV… Até conseguimos reduzir o estigma de forma importante no Brasil, mas a vida com aids não é igual à vida sem aids.

O tema oficial da Parada GLBT deste ano é a defesa do Estado laico. Essa bandeira política é eficaz?

Ela é fundamental para garantir as políticas de Estado de prevenção para que a gente possa falar abertamente sobre camisinha na escola – mas não só. Deve-se incorporar e respeitar os valores de todas as religiões em todos os contextos. A gente entra em um tribunal e tem lá um crucifixo; no serviço de saúde há uma cruz. É complicadíssimo para um pai-de-santo fazer um ritual de despedida para uma pessoa dentro de um hospital, por exemplo. As crianças adeptas do candomblé e da umbanda sentem dificuldade para discutir seus valores na escola, assim como os evangélicos. Aliás, é importante aceitar que os evangélicos defendam a virgindade até o casamento. Isso não significa que prescindam de informações sobre prevenção para o caso de mudarem de idéia, de religião, de sofrerem abuso ou de se verem em um contexto em que agir de acordo com os seus valores seja impossível por mil razões. Isso é um direito da juventude, independentemente de sua crença e orientação sexual.

É possível produzir tolerância religiosa e sexual ao mesmo tempo?

Sim. Sentimos isso quando colocamos líderes e jovens das três religiões para conversar sobre os direitos à proteção, que são direitos humanos, em suma. Uma tolerância produz a outra e vice-versa. Fortalece-se a idéia de que a humanidade é, em princípio, diversa. Não existe uma humanidade natural, a humanidade do homem, a humanidade da mulher. Gênero é um conceito cultural, aquilo que a sociedade diz ser do homem e da mulher, e não um conceito biológico. Ele varia na sociedade brasileira em função da religião, da crença, da rede social. Em certo contexto, a bissexualidade pode ser aceita entre as meninas. Mas será igual entre os meninos?

Como, em resumo, fortalecer o Estado laico nesse quadro de direitos humanos?

Há um princípio usado pelo Boaventura de Sousa Santos (sociólogo português) para interpretar a Carta dos Direitos Humanos, que eu adoro. É o seguinte: defender a igualdade sempre que a diferença gerar inferioridade e defender a diferença sempre que a igualdade implicar descaracterização. Se consigo respeitar as crenças e os valores dos outros, consigo respeitar as orientações sexuais dos outros. Precisamos trabalhar com a noção de que o direito à informação e à prevenção são direitos humanos, fundamentais, e que, uma vez assim, é uma obrigação do Estado proteger e promover esses direitos. Isso é o que justifica o Estado laico.

EM FOCO
“Cerca de 30% dos afro-brasileiros dizem sofrer discriminação por serem religiosos”

EM TERMOS
“Para evangélicos, o homossexual pode ser acolhido, mas deve passar por ‘tratamento’”

EM ALERTA
“Enjoaram de falar de aids, mas a cura não aconteceu, a gente não
derrotou o vírus”

(Mônica Manir /O Estado de São Paulo – 25.05.2008 )





QUÉNIA: Líderes muçulmanos declaram guerra ao preservativo

25 05 2008

GARISSA, 21 Maio 2008 (PlusNews) – Líderes muçulmanos na província queniana do Nordeste resolveram organizar uma campanha contra a promoção de preservativos como meio de evitar o HIV.

A decisão foi tomada depois de um recente encontro sobre o tema “Islão e Saúde”, com a participação de mais de 60 académicos e professores muçulmanos na capital provincial de Garissa.

“Muito dinheiro está sendo gasto para envenenar a nossa comunidade…enormes somas de dinheiro são gastas na compra de preservativos, na compra de imoralidade”, disse o Sheik Mohamud Ali, do distrito de Garissa.

Os líderes concordaram em pregar activamente contra o uso e a promoção pública de preservativos como uma estratégia para conter a pandemia e evitar a gravidez. Eles também concordaram em se opor à distribuição de preservativos nas aldeias e instituições educacionais no nordeste.

“Não nos opomos às campanhas de resposta ao HIV do Ministério da Saúde, mas o que nos preocupa é que estão a usá-las de maneira errada, que não é aceitável na nossa tradição e religião”, disse Ali. “Não podemos usar os mesmos meios em todo país para combater estes problemas. Devemos nos envolver nas campanhas e as nossas sugestões devem aceites.”

Os clérigos ainda exigiram o fechamento de bares no nordeste e pediram ao governo que suspenda o licenciamento de quaisquer novos bares. Segundo eles, os bares locais e as “salas de vídeo” passam filmes pornográficos que estavam a contribuir para o aumento de infecções sexualmente transmissíveis. A propagação do abuso de drogas foi um outro factor: o “khat”, estimulante suave localmente produzido, é popular na região.

''Muito dinheiro está sendo gasto para envenenar a nossa comunidade… enormes somas de dinheiro são gastas na compra de preservativos, na compra da imoralidade.''

Os líderes ressaltaram que a melhor maneira para os jovens evitarem o HIV era através da obediência aos ensinamentos islâmicos, como jejum, reza regular e evitar relações extraconjugais. Eles aconselharam os homens a evitar olhar para as mulheres que, por sua vez, devem vestir-se com modéstia.

Abundam idéias erradas

Abdi Welli, um taxista de Garissa, disse que concordava com os clérigos que os preservativos deviam ser banidos. Ele acredita no famoso mito de que os preservativos estão contaminados com o HIV.

“Sabemos que os preservativos não são seguros…se queres contrair o vírus que causa a SIDA, então use [um preservativo],” disse. “Afinal, sempre ouvimos dizer no passado que o mundo ocidental está a usar o preservativo para eliminar os africanos, e os muçulmanos em particular.”

Discutir assuntos relacionados a sexo é tradicionalmente tabu, o que tem levado a uma ignorância generalizada sobre o HIV e a SIDA no nordeste.

Embora a seroprevalência na região seja uma das mais baixas no país – 1,4 por cento comparadas com a média nacional de 5,1 por cento, segundo o Conselho Nacional de Controlo da SIDA no Quénia – a região também tem a mais baixa taxa de utilização de preservativos, o que, segundo profissionais da saúde, contribui para novas infecções pelo HIV. Muitos comerciantes recusam-se a vender preservativos alegando que eles promovem imoralidade, portanto sua disponibilidade é limitada.

Profissionais da saúde mostraram-se preocupados com a decisão dos líderes muçulmanos, dizendo que ela pode prejudicar os esforços anti-SIDA na região. Osman Warfa, médico provincial, que participou na reunião, disse que os preservativos são essenciais na resposta à pandemia.

“Isso certamente vai dar a alguns jovens uma desculpa para não usar o preservativo, e isto vai colocar muitos deles em risco”, disse.

Preservativos gratuitos vão continuar a estar disponíveis nos centros de saúde do governo na região.
(PlusNews – 21.05.2008 )





Financiamento de projectos de apoio social a doentes com HIV/sida vai continuar, mas em moldes diferentes

25 05 2008

Os projectos de apoio social a pessoas com VIH/sida assegurados por entidades privadas sem fins lucrativos não vão deixar de ser financiados pelo Governo. O que vai mudar é o modo de financiamento destas actividades, que actualmente são apoiadas pelo Ministério da Saúde e, no espaço de quatro anos, deverão passar para a tutela do Ministério da Solidariedade Social.
Isto mesmo foi ontem garantido pelo coordenador nacional para a infecção HIV/sida, Henrique Barros, e pela ministra da Saúde, Ana Jorge. O que está em curso, e terá sido comunicado às associações “há mais de um ano”, é “uma mudança no processo de financiamento”, sublinhou a ministra, à margem de uma visita ao Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.
Reagindo às críticas de várias associações que trabalham nesta área e que desesperam por estarem sem apoios desde o início deste ano, Henrique Barros assegurou ontem que as nove iniciativas herdadas do passado já foram aprovadas e que nos próximos quatro anos vão ser apoiadas em 100 por cento, em vez de 80 por cento como até agora acontecia.
O problema é que o concurso para a selecção de projectos nesta área, que normalmente se realiza nos meses de Setembro ou Outubro no âmbito do programa ADIS, apenas foi aberto em Fevereiro deste ano, colocando as associações que asseguram estas acções de continuidade na difícil situação de ter de pagar a funcionários e de suportar os custos das estruturas sem receber financiamentos. Este é o caso de apenas nove dos 50 projectos aprovados de um total de 98 candidaturas apresentadas no concurso deste ano, esclarece a alta-comissária da saúde, Maria do Céu Machado, que frisa que o problema deve estar solucionado dentro de duas semanas e que as entidades em questão receberão os apoios com retroactivos. “Ninguém vai ficar prejudicado”, diz.
O decreto-lei que regulou a atribuição de apoios a entidades privadas sem fins lucrativos anos e que impede que as candidaturas sejam renováveis para além de um período máximo de quatro anos já era conhecido das associações que trabalham nesta área (foi publicado em 2006), explica Henrique Barros. O que está em cau_
sa são serviços ou actividades que disponibilizam apoio social a estes doentes, de uma forma contínua, em moldes semelhantes aos das estruturas da Segurança Social ou da Rede de Cuidados Continuados e que não devem assim estar sujeito a concursos anuais, nota.
Criado no final de 2002, o Programa ADIS financia projectos e acções de prevenção, formação e apoio social. E se no início eram em maior número os projectos de apoio social, nos últimos anos, a situação inverteu-se. Algumas destas acções foram passando para a tutela da Segurança Social, através de acordos atípicos.
Os projectos de apoio social devem agora ser inovadores, apresentando modelos alternativos às respostas já disponíveis. “Não se podem manter soluções eternamente quando o mun-
do vai mudando, ainda mais quando se sabe que as soluções existentes não são as ideais”, defende o coordenador.
Cansada de esperar pelo financiamento anunciado, Margarida Martins, da Abraço, diz que só vai acreditar que os projectos da associação foram aprovados quando vir os documentos, o que até ontem não tinha acontecido. A Abraço garante apoio domiciliário a cerca de 60 pessoas em Lisboa e no Porto, assegura 100 refeições diárias e criou um gabinete que já disponibilizou mais de três mil consultas de medicina dentária. Com Patrícia Carvalho

3 milhões de euros é o montante que a Coordenação Nacional para a Infecção VIH/sida vai disponibilizar este ano para o financiamento de projectos de entidades da sociedade civil nesta área

(Alexandra Campos/Público – 22.05.2008 )