Investigação: Proteína humana pode abrir um novo caminho para combater a Sida

29 04 2008

Uma proteína humana pode vir a abrir uma nova via para combater o retrovírus responsável pela Sida (VIH) ao neutralizar a resistência do patogénio aos antiretrovirais, segundo trabalhos publicados hoje nos Estado Unidos.

Os investigadores afirmam ter bloqueado uma infecção com HIV numa proveta, ao desactivarem uma proteína humana, a ITK, activa nos linfócitos T, células imunitárias do organismo.

A maior parte dos tratamentos anti-sida visam as proteínas do próprio vírus.

Mas, tendo em conta que o HIV é capaz de múltiplas mutações, as proteínas visadas mudam rapidamente e conduzem à emergência de resistência do vírus aos tratamentos, explicaram os investigadores, cujo estudo surge nos Anais da Academia Nacional Americana das Ciências, de 28 de Abril.

Estes cientistas descobriram que, ao agirem sobre as proteínas ITK, podiam bloquear a infecção por HIV das células imunitárias humanas.

A proteína ITK activa os linfócitos T no mecanismo normal de resposta imunitária do organismo humano, explicou Pamela Schwartzberg, do Instituto Nacional Americano de pesquisa sobre o Genoma Humano (NHGRI), principal autora desta pesquisa.

Contrariamente às proteínas do vírus HIV, a proteína ITK desenvolve muito poucas mutações, adiantou, o que explica o recente interesse da comunidade científica em desenvolver os tratamentos para a neutralizar.

Estes trabalhos mostram também que se a proteína ITK não está activa, o vírus da Sida não pode utilizar eficazmente as células linfocitárias T para se reproduzir, o que retarda, ou até mesmo bloqueia, a sua propagação.

(RTP – 28.04.2008)

 





Aids cresce entre mulheres adultas

29 04 2008

A epidemia de Aids em Campinas apresenta um perfil diferente do panorama nacional. Um estudo recentemente divulgado pelo Ministério da Saúde mostra que, no País, o grupo de adolescentes mulheres, na faixa de 13 a 19 anos, apresentou crescimento de 58,8% de incidência da doença nos últimos dez anos. Já o último levantamento do Programa Municipal de DST/AIDS constatou que, nesses casos, o aumento da epidemia foi de 10% em Campinas. No entanto, o grupo que mais preocupa as autoridades campineiras é o de mulheres entre 20 e 49 anos, que apresenta crescimento significativo na última década, além de concentrar a maior quantidade de incidência da doença.

“Enquanto o quadro de Aids em Campinas pode ser considerado declinante, a população feminina jovem e adulta apresenta índices crescentes. A taxa desse aumento é tão representativa que em breve a população com Aids heterossexual feminina deverá ultrapassar a masculina, algo que era impensável nos anos 90”, avalia a coordenadora do Programa Municipal de DST/AIDS, Maria Cristina Feijó Januzzi Ilário. O boletim epidemiológico de Campinas, publicado em 2006, traz uma comparação entre a exposição da população heterossexual no período de 1991 a 1995 com os anos de 2000 e 2004.

A população de mulheres de 30 a 39 anos portadora do vírus HIV é a com maior incidência: são 35,7 casos a cada 100 mil habitantes, número 3,7 vezes maior do que dez anos antes. “Até em faixas etárias em que a incidência da doença não é grande, como nas mulheres de 50 a 59 anos ou nas de 60 anos ou mais, houve índices alarmantes de crescimento”, constata Maria Cristina. Apesar dos números mais atualizados do Programa Municipal de DST/AIDS referirem-se ao começo da década, a coordenadora não acredita em grandes mudanças em tão pouco tempo. “Mudanças no perfil epidemiológico demoram de cinco a dez anos para acontecerem”, afirma.

A previsão é de que um novo boletim epidemiológico seja publicado até a metade do ano com dados atualizados sobre a Aids em Campinas. E, de acordo com as análises preliminares, a feminilização da doença deve ser novamente uma característica comprovada pela estatística. “Geralmente, nós, aqui em Campinas, conseguimos captar as tendências da epidemia de Aids que mais tarde se confirmam em termos nacionais. E existe um potencial muito grande de num futuro próximo as mulheres superarem os homens no número de portadores da doença”, salienta.

Grupo de risco

Outra constatação ainda preliminar e que deve ser confirmada no próximo boletim, é a volta do crescimento da Aids na população homossexual masculina entre 19 e 25 anos. O grupo sempre foi classificado como de risco em termos epidemiológicos, mas há tempos não apresentava índices de incidência preocupantes. “Acredito que houve uma descontinuidade no trabalho preventivo e que ocasionou um crescimento inesperado. Mas já estamos investindo em campanhas preventivas diante da comunidade gay mesmo antes de possuirmos dados concretos do tamanho do aumento de incidência de Aids”, diz.

Campanha tem como alvo público de bares

Há um mês, o Programa Municipal de DST/Aids deu início a uma nova campanha que está dando o que falar em alguns bares campineiros. Foram produzidos descansos de copos com imagens e material informativo relativos à prevenção do HIV. “O objetivo é atingir o público de freqüentadores de bares que têm representantes de todos os setores da sociedade”, explica o assessor de comunicação Eli Fernandes.

Até o momento, os descansos de copos estão sendo distribuídos para proprietários e gerentes de bares do Centro, Cambuí e Barão Geraldo. Em alguns casos, o grupo participante do programa atua diretamente na distribuição. O objetivo é espalha-los pelos pontos da cidade com maior fluxo de pessoas. “Queremos provocar a reflexão das pessoas de uma forma não invasiva. Os descansos proporcionam um mínimo de informação e chamam a atenção da população para o serviço público”, avisa.

A administradora do Oca Bar, Luísa de Arguello, em Barão Geraldo, está contribuindo com a campanha. “Eu vejo que muita gente guarda os descansos e leva para casa. Fica até com pena de colocar o copo em cima”, conta. A estudante Marcela Sodol ficou surpresa com a idéia. “Achei criativa. Todo mundo olha para saber melhor.”

(Renan Magalhães/cOSMO oNLINE – 26.04.2008)





Projeto avalia transmissão do HIV entre casais sorodiscordantes

29 04 2008

Segundo os especialistas, há uma série de fatores ligados à transmissão do HIV entre casais sorodiscordantes. Adquirir outras doenças sexualmente transmissíveis (DST), por exemplo, aumenta a chance de transmissão do HIV. Dados da literatura mostram também que o fato de saber-se portador do HIV não implica, necessariamente, em uso do preservativo em todas as relações sexuais, mesmo com parceiro não portador ou de sorologia desconhecida.

O Ipec, em parceria com o Hospital Geral de Nova Iguaçu (HGNI) no projeto, está recrutando voluntários para participar do estudo. Os casais participantes têm garantido o sigilo das informações e o benefício de receber assistência clínica em HIV/Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, aconselhamento individual e de casal voltado para a saúde sexual e reprodutiva. Os casais que desejam participar do projeto devem atender aos seguintes requisitos: estar em um relacionamento onde apenas um dos dois seja portador do vírus da Aids e nunca ter usado medicamentos para tratamento da Aids. Podem ser casais heterossexuais ou homossexuais masculinos.

“Um dos aspectos importantes do projeto desenvolvido pela Fiocruz é o cuidado com a saúde dos parceiros. Questões relacionadas ao impacto da revelação diagnóstica ao parceiro soronegativo, aos direitos sexuais e reprodutivos, aos cuidados necessários para a prevenção do HIV, entre outras, são discutidas com o casal”, explica a psicóloga Sandra Lúcia Filgueiras, que participa do projeto.

Para outro integrante da equipe, o psicólogo Nilo Martinez, a socialização dos casais é um dos destaques da pesquisa. “Conviver com as pessoas que passam pela mesma situação, conversar sobre questões dos sorodiscordantes que não estão necessariamente presentes na vida de uma pessoa soropositiva sem parceiro soronegativo, faz com que o casal se sinta acolhido. É a sensação de pertencimento, de fazer parte de um grupo, de verificar que o outro também tem os mesmos problemas”, explica Nilo, acrescentando que os aconselhamentos e as dinâmicas de grupos de casais são técnicas que têm dado resultados significativos.

“O avanço terapêutico e científico no tratamento da doença tem permitido que as pessoas se relacionem apesar do vírus. Hoje, não se fala mais em grupo de risco e sim, se discute as condições que colocam as pessoas em maior ou menor vulnerabilidade para a Aids. A prevenção continua sendo o grande desafio, pois implica em mudanças de atitude diante da vida e seu enfretamento envolve o compromisso de toda a sociedade. Todos podem estar vulneráveis em algum momento de suas vidas”, diz a diretora do Ipec, a infectologista Valdiléa Veloso, que sublinha que “apesar das melhorias do tratamento ainda temos muito que avançar em relação à estigmatização e à discriminação das pessoas que vivem com a Aids”.

A pesquisa internacional é coordenada pela Rede de Ensaios para a Prevenção do HIV (HIV Prevention Trials Network – HPTN), dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) do governo americano. O estudo foi analisado e aprovado por comitês de ética em pesquisa brasileiros e internacionais, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e é acompanhado pelo Comitê Comunitário Assessor (CCA), formado por representantes da sociedade civil.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias

(Agência de Notícias da AIDS – 28.04.2008)




Congresso dos EUA estuda cortar ajuda a programas pró-abstinência sexual

29 04 2008

O Congresso americano está investigando se deve ou não cortar o financiamento público de programas educativos que promovem a abstinência sexual até o casamento.

O debate é motivado por um relatório da principal agência de saúde americana, o Centro para Prevenção e Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês), que no mês passado revelou que uma em cada quatro adolescentes americanas tem doenças sexualmente transmissíveis (DTS).

Pelo menos 17 Estados americanos já saíram do programa federal que financia programas pró-abstinência, e outros suspenderam o recebimento das verbas enquanto o Congresso analisa se esses programas funcionam.

Críticos da abstinência afirmam que esse tipo de abordagem ignora o fato de que os adolescentes são sexualmente ativos, negligenciando-os informação médica precisa e conselhos em relação a sexo seguro.

Eles alegam que jovens abstinentes têm menos probabilidade de usar preservativos se decidirem quebrar seu voto de castidade.

“Temos educação sexual na escola e esse deveria ser o espaço onde os adolescentes exercem seu direito a se informar – mas isto não está acontecendo”, opina Mildred, uma jovem de 15 anos do Arizona, voluntária da organização Planned Parenthood.

“Eles não tocam em assuntos como sexualidade, DSTs, controle de natalidade. Não é permitido pela educação focada apenas na abstinência. Eles deixam você em uma situação de ansiedade – e muitos adolescentes se tornam sexualmente ativos durante os anos de escola.”

A ONG estima que dois terços dos adolescentes americanos tenham relações sexuais até o fim da escola média.

Com mais de 750 mil casos de gravidez indesejada, os Estados Unidos figuram nesta categoria como um dos primeiros no mundo desenvolvido, diz organização.

“O programa nacional que desperdiçou US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 2,5 bilhões) em dinheiro dos contribuintes é um fracasso, e nossos adolescentes estão pagando o preço”, diz a presidente da Planned Parenthood, Cecile Richards.

“Estamos desperdiçando dinheiro em programas que não funcionam, e vendo as conseqüências disto a cada dia.”

Controle

O debate em relação à educação pró-abstinência é parte de outro, mais amplo, sobre os “valores familiares”, que muitos americanos conservadores vêem estar em erosão.

Já para os liberais, a campanha para reverter o avanço dos programas pró-abstinência faz parte de uma luta mais ampla contra o que percebem ser elementos reacionários do governo americano.

Eles dizem que o conservadorismo tem peso político aberto e exagerado na administração americana, em especial na gestão do presidente George W. Bush.

Entretanto, mesmo que o Congresso decida restringir a verba desses programas, muitos devem continuar, porque contam com apoio público e podem encontrar outras fontes de financiamento.

Roger Norman, um advogado do Texas, se descreve como alinhado à “direita religiosa”. Ele dirige a organização Wonderful Days, que não recebe financiamento do governo e prega a abstinência com parte do currículo de saúde de algumas escolas locais.

“Estou convencido de que a abstinência é a única saída para as crianças. Você começa ensinando as conseqüências de se comportar mal e os benefícios de se comportar de maneira apropriada, e o faz de maneira que a criança entenda”, diz Norman.

“O autocontrole leva a uma vida feliz e cheia de alegrias. Se pudermos aprender a controlar de vez o mais básico de nossos instintos – o sexual -, podemos controlar as drogas, as gangues, o álcool e o ódio.”

Suas aulas ensinam que a doença é uma conseqüência do sexo antes do casamento, e que a virgindade para ambos os parceiros é um ideal.

Entretanto, Valerie Huber, executiva-chefe da Associação Nacional de Educação para a Abstinência, diz que apenas uma em cada escola nos Estados Unidos prega esse tipo de comportamento – a grande maioria segue um currículo amplo de educação sexual.

Para ela, esse tipo de abordagem promove as relações sexuais e está por trás do aumento nos casos de DST e gravidez adolescente.

“Para nós, a educação para a abstinência não é uma abordagem ideológica, é a melhor abordagem. Comparemos com a alimentação natural. Sabemos que a obesidade está aumentando nos Estados Unidos. Isto não significa que temos de minimizar a alimentação saudável como a melhor mensagem”, ela argumenta.

“Ainda enfatizamos a importância de se alimentar bem e de fazer exercícios, sabendo, infelizmente, que muitos americanos não vão nos ouvir.”

(BBC Brasil – 29.04.2008)




Mais de 500 seropositivos estão a ser assistidos no Lubango

29 04 2008

Mais de 500 pessoas seropositivas beneficiam, no Lubango, província da Huíla, de assistência médica e medicamentosa, material diversos e produtos alimentícios.
A assistência gratuita e regular aos infectados pelo vírus, nos bairros periféricos da cidade do Lubango, está a ser prestada pela Associação de Pessoas Seropositivas e Activistas de Luta contra a Sida (ASPALSIDA), que implementa desde Janeiro um projecto dirigido, denominado “Queremos viver”.
O educador social e activista do projecto, Paulo Adolfo, que avançou os dados ao Jornal de Angola, disse que além de medicamentos, roupa e produtos alimentares diversos, a ASPALSIDA promove sessões de terapia de grupo e conversas de ajuda mútua, para elevar a auto-estima dos infectados.
“Sensibilizamos os seropositivos para não passarem o vírus propositadamente. Aconselhamos, prestamos assistência moral e psicológica, antes e depois do teste, para evitar a frustração nas pessoas, quando o resultado é positivo”.
Paulo Adolfo manifestou-se preocupado pelo facto de o número de seropositivos estar a subir a cada dia que passa, tendo referido que quando a sua organização traçou este projecto contava assistir apenas 80 pessoas.
Questionado sobre o estigma e a discriminação de pessoas vivendo com o VIH/Sida na cidade do Lubango, o activista reconheceu haver diminuição de casos de marginalização, fruto de campanhas de sensibilização nas famílias, escolas, locais de trabalhos, entre outros de maior concentração populacional.
“Comparativamente aos anos anteriores reconhecemos haver mudanças a este respeito, graças ao grande esforço dos activistas. Embora ainda haver um ou outro caso de estigma e discriminação que muitas vezes fogem do nosso controlo”.

(Jornal de Angola – 29.04.2008)




Farmacêuticos africanos defendem luta eficaz contra mercado ilícito

29 04 2008

Os sindicatos dos profissionais farmacêuticos do Magrebe e da África Subsariana instaram sexta-feira os poderes públicos do continente a “redobrar de vigilância e conjugar esforços para uma luta eficaz contra o mercado ilícito de medicamentos”.

Este apelo foi lançado por ocasião do encerramento das jornadas científicas da Associação dos Farmacêuticos Mauritanos.

Num comunicado transmitido à PANA sábado, os farmacêuticos do Magrebe e da África Subsariana pedem igualmente o reforço da cooperação entre as duas regiões com vista a “erradicar o mais depressa possível os grandes flagelos do HIV/Sida, da tuberculose e da malária”.

(Panapress – 26.04.2008)




Zaire: Autoridades sanitárias instalam centros de aconselhamento em quatro municípios

29 04 2008

Quatro Centros de Aconselhamento e Testagem Voluntária (Catv) para o Vih-Sida serão instalados até Junho próximo, nos municípios do Kuimba, Nzeto, Nóqui e Tomboco pelas autoridades sanitárias locais, afirmou hoje, nesta cidade, o supervisor provincial do programa de luta contra a sida, Manuel Kai.

Em declarações à Angop, Manuel Kai afirmou que os referidos centros irão funcionar nos respectivos hospitais municipais e visam melhorar o quadro actual da sero-prevalência desta pandemia em todas as localidades da província.

“Os municípios que mais nos preocupam são os do Kuimba, Nzeto, Nóqui e Tomboco, porque ainda não temos centros de aconselhamento e testagem voluntária nessas localidades, o que significa que esses municípios são ligeiramente silenciosos em termos de Hiv-Sida”, referiu.

De acordo com o responsável, a presença de Centros de Aconselhamento e Testagem Voluntária (Catv) nesses municípios vai melhorar o impacto desta doença junto das populações, porque para além da testagem fornecem também informações necessárias para a prevenção desta doença.

Para a sua implementação, disse, as autoridades sanitárias locais esperam receber do instituto nacional de luta contra a sida, equipamentos diversos, tais como reagentes e materiais educativos para a expansão desses serviços àqueles municípios da província do Zaire.

A província do Zaire notificou durante o primeiro trimestre deste ano, cento e cinco casos de Hiv-sida, que resultaram em um óbito. Actualmente, a província dispõe de dois centros de aconselhamento e testagem voluntária, instalados nos municípios de Mbanza Kongo e Soyo.

(AngolaPress – 29.04.2008)





ANGOLA: Infecção propositada: crime e castigo?

29 04 2008

 Engana-se quem pensa que a reforma do Código Penal angolano, actualmente em curso, passa longe da discussão sobre o HIV.

Na verdade, os dois debates nunca estiveram tão ligados.

O vírus é contemplado no futuro Código Penal no seu artigo 198, que estabelece uma pena de três a 10 anos de prisão para quem intencionalmente transmitir doenças infecto-contagiosas, o que inclui o HIV.

A nova medida tem dividido opiniões no país: enquanto alguns concordam que a infecção proposital deve ser punida, outros defendem que ela trará mais problemas que benefícios.

Não é a primeira vez que se tenta aprovar a criminalização da infecção dolosa em Angola. A legislação específica de HIV e SIDA do país, parcialmente em vigor desde 2004, prevê a penalização da transmissão intencional. A medida, no entanto, ainda não foi regulamentada.

Vítima e algoz

Roberto Brant Campos, conselheiro do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/SIDA (ONUSIDA), é um dos que se opõe à proposta.

“A criminalização é um tiro no pé. Ela vai contra os direitos humanos e o combate à discriminação e não vai impedir a infecção dolosa”, diz.

Num documento divulgado no ano passado, o ONUSIDA e a Organização Mundial da Saúde manifestaram-se contra a medida no mundo inteiro, alegando que ela representa um retrocesso nos esforços de prevenção ao HIV.

Segundo Campos, uma das principais dificuldades é determinar se houve intenção ou não.

“Transmitir por negligência é diferente de transmitir propositadamente”, enfatiza.

Nos casos de transmissão por via sexual, Campos destaca que a penalização só cria uma relação de vítima e algoz entre os envolvidos.

“Não existe vítima, as pessoas são os sujeitos da sua própria história”, diz. “O sexo é uma relação a dois, onde a responsabilidade é necessariamente compartilhada.”

Para o conselheiro, provar a transmissão entre dois indivíduos já é difícil, quanto mais provar que a infecção foi proposital.

Ele também enumera outros problemas que podem surgir com a criminalização, como em casos de infecção por via sanguínea ou de mãe para filho.

“Quase 20 por cento das infecções acontecem por transfusões com sangue contaminado. Quem será o culpado nesses casos, o Estado?”, pergunta.

Nos casos de transmissão vertical, Campos diz que a punição abre precedentes para que filhos processem pais. Ele cita um caso na Flórida, Estados Unidos, em que um rapaz processou a mãe por ter lhe transmitido o HIV.

''Quase 20 por cento das infecções acontecem por transfusões com sangue contaminado. Quem será o culpado nesses casos, o Estado?''

“Dessa forma, os pais se sentirão intimidados para revelar a sua condição. Isso só alimenta a cadeia de estigma e discriminação”, diz.

Há, porém, quem defenda outras posições.

Carolina Pinto, activista da organização não-governamental Luta pela Vihda, acredita que quem infecta o parceiro de propósito deve ser punido, mas também ressalta que a linha entre negligência e intenção é ténue.

“Fazer de propósito é diferente de não contar, mas quem tem o vírus tem que aceitar a condição e proteger a vida do parceiro. Além disso, os dois precisam ser responsáveis e tomar as medidas necessárias, senão a sua vida depende do outro”, diz.

Mesmo assim, Pinto, que é seropositiva, diz que alguns sinais são indicativos de uma transmissão deliberada.

“Se aconteceu uma vez tudo bem. Mas se a pessoa continua a praticar sexo desprotegido mesmo sabendo que está infectada, acho que é de propósito. E essa pessoa deve ser punida, sim”, argumenta.

Legislar para a maioria

Campos afirma que, da perspectiva de direitos humanos e saúde pública, a penalização atrapalha mais do que ajuda.

“Muitas vezes a pessoa não conta por medo – de rejeição, de ser expulsa de casa, principalmente as mulheres. Isso é uma realidade em Angola. Com a criminalização ela corre o risco de ser penalizada duplamente”, diz.

Ele cita o exemplo de uma seropositiva que se tornou activista e veio a público na televisão. Na reportagem, os moradores da vizinhança não queriam nem que o bairro fosse mostrado.


Photo: Lilian Liang/PlusNews
Carolina Pinto: “quem tem o vírus tem que proteger a vida do parceiro”

“Com esse grau de discriminação, como alguém vai ter coragem de fazer o teste e depois contar ao parceiro?”, diz.

Ele acrescenta que a criminalização desencoraja a testagem voluntária.

“As pessoas vão pensar ‘Se existe uma lei que diz que eu vou ser penalizado, melhor não saber meu estado serológico’”, diz. “Temos que ter leis que ampliem a testagem, não desmotivem.”

António Jordão, oficial do programa de HIV/SIDA da organização não-governamental Irlandesa Trócaire, acredita num meio-termo.

“Só procurar culpados não adianta. Todo mundo teve o seu passado com uma componente de risco”, diz. “Punir é importante, mas é preciso levantar a história da pessoa e trazê-la à razão.”

António Coelho, director da Rede de Organizações de Serviço da SIDA (Anaso), também prefere optar por uma atitude intermediária em relação às pessoas que transmitem o HIV intencionalmente.

“Preferimos trabalhar com essas pessoas, aconselhar sobre a mudança de comportamento”, conta. “A nossa missão é acabar com a cadeia de transmissão.”

Para Campos, a situação precisa ser analisada num contexto maior.

“As pessoas que contaminam intencionalmente são a excepção e eu não posso legislar para a excepção”, afirma. “Como a lei vai coibir a infecção dolosa? O facto da pessoa ser presa por supostamente ter transmitido o HIV ao parceiro vai mudar alguma coisa?”

A penalização, defende ele, acaba tirando o foco do que ele considera os verdadeiros desafios.

“A lei deve legislar para o bem comum”, destaca. “Deveríamos, isso sim, estar preocupados com os 95 por cento [de seropositivos] que estão infectados sem saber.”

(PlusNews – 29.04.2008)