É uma voz solitária num país conservador: a jovem estrela de cinema Amr Waked denuncia a política não oficial do seu país que atira para as prisões as pessoas com sida. “É de loucos!”, diz Waked, cujos papéis controversos – incluindo um ao lado de um actor israelita – o tornaram num alvo dos ataques da imprensa.
Com o actor Khaled Abul Naga, há pouco nomeado embaixador da boa vontade das Nações Unidas, Waked decidiu tomar em mãos a tarefa de obrigar o Egipto a enfrentar este tabu.
“A confusão deliberada deve parar – a estigmatização não ajuda a luta contra a sida”, diz, acrescentando que espera ser parte de uma nova geração empenhada em derrubar estes persistentes estereótipos.
No dia 9 de Abril, um tribunal do Cairo mandou para a prisão cinco homens, quatro deles com HIV. Foram condenados a três anos por acusações de “deboche” ligadas à homossexualidade num processo descrito por grupos de direitos humanos como “caça às bruxas”.
“Três choraram e os outros dois ficaram só pasmados”, diz Hossam Bahgat, director da Iniciativa para os Direitos Pessoais, uma das raras organizações não governamentais que defende os homossexuais no país.
Os cinco foram obrigados a fazer testes ao HIV e estiveram acorrentados às camas do hospital até os resultados serem conhecidos.
A homossexualidade não está na lista de ofensas sexuais explicitamente criminalizadas pela lei egípcia, mas pode ser punida com recurso a diferentes leis de moralidade. Segundo a lei 10 de 1961, “deboche” é um termo flexível usado para criminalizar relações entre pessoas do mesmo sexo.
“Eles recorreram, mas continuam na prisão. Não sabemos se têm acesso a médicos”, explicou Wessam al-Beih, director no país da UNAIDS, o programa da ONU para o HIV/Sida.
Desde Outubro outros sete homossexuais foram presos e obrigados a fazer testes, enfrentando insultos e humilhações, e sendo acorrentados às camas, diz Bahgat. Três foram libertados, mas quatro condenados a um ano de prisão.
A imprensa e as ONG locais quase nem tocam no tema, mas 117 organizações internacionais, incluindo a Human Rights Watch, condenaram as detenções e os testes médicos ilegais.
Bahgat acredita que nem sequer se trata de um ataque à comunidade gay. “Ao contrário de outros incidentes homofóbicos, esta é uma ofensiva contra a sida”, diz.
Para Waked, “uma profunda ignorância sobre a sida alia-se a preconceitos religiosos”. “E estas condenações só vão reforçar os preconceitos.”
Há anos que as autoridades negam ou tentam minimizar a existência da doença. “São entre 2000 e 17.000 as pessoas que vivem com ela, mas o Egipto é um dos países com maior crescimento de casos”, diz Beih, da UNAIDS, estimando que 80 por cento das mulheres com o vírus foram infectadas pelos maridos.
Waked, protagonista do filme Aquarium, que trata este tema, acredita que a sociedade está a mudar. “O Egipto começa a avançar, há uma geração inteira à espera disso.” AFP
Jovem estrela de cinema quer obrigar Egipto a enfrentar o tabu da sida
27 04 2008Comentários : Leave a Comment »
Tags: CINEMA, DISCRIMINAÇÃO, EGIPTO, SIDA
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