A epidemia está entre grupos vulneráveis, mas pode se espalhar entre toda a população. Enquanto isso, camponeses que exigem indenização de hospitais por terem sido infectos pelo HIV são presos. Estes são os temas de uma reportagem especial publicada no tablóide inglês The Guardian na última semana. “Tem havido uma espécie de revolução sexual desde as reformas de mercado”, disse o Dr. Heather Xiaoquan Zhang, um professor sênior nos estudos chineses da Universidade de Leeds, Inglaterra. “As pessoas estão mais abertas sobre sexo – mas na maioria dos casos, em áreas urbanas e entre as camadas mais instruídas da população”. Há uma estimativa de pelo menos 700 mil pessoas infectadas naquele país. Confira a matéria realizada a poucos meses das Olimpíadas de Pequim.
Quando pacientes HIV positivos, em Hebei, ouviram o anúncio de que o premiê chinês estava visitando a província, acharam que a chance deles havia chegado. Há anos eles lutam em vão pela indenização dos hospitais, que eles alegam ter espalhado o vírus da Aids por meio de transfusões de sangue.
“Eles sabiam que o premiê Wen [Jiabao] gostava de ouvir a voz do povo, então queriam contar a ele sobre seus problemas”, disse Jiang Tianyong, advogado das famílias.
Em vez disso, 11 pacientes e seus parentes foram detidos pela polícia conforme procuravam por Wen em sua visita a Shahe, sul da província. Uma semana e meia depois, oito deles ainda continuavam presos. A polícia recusou informações ao advogado Jiang sobre as infrações cometidas, descrevendo o caso como de “segurança nacional”.
O incidente diz bastante acerca da luta contra o HIV na China. Depois de anos de inação e negação, o governo enfrenta o problema. Reuniões de alto escalão entre pacientes e líderes políticos são uma solução para enfrentar o estigma e educar o público sobre a questão.
Tão significativo quanto é aumentar os fundos de programas de prevenção e anti-retrovirais para pacientes. Informação pública e filmes são a primeira estratégia para abordar as necessidades de homens que têm relações sexuais com outros homens – um dos grupos mais vulneráveis.
“Há muita chance de melhorar”, diz Wan Yanhai, diretor do Instituto Aizhixing, um dos líderes no ativismo de HIV/Aids. “A geração de líderes – Hu Jintao, Wen Jiabao e Wu Yi – encontrou pessoas que vivem com Aids. Eles aumentaram o orçamento, abriram as portas para doadores internacionais e toleram algumas participações da sociedade civil”.
Mas, quando há difíceis questões, quando ativistas embaraçam oficiais, ou quando existe a implementação de políticas, as deficiências são claras. Experts temem que a China sofra uma epidemia se mais ações não forem realizadas. O Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV/Aids (Unaids) estima que há cerca de 700 mil soropositivos até o ano passado.
As províncias de Yunnan, Henan, Guangxi, Guangdong e Sichuan e a região de Xinjiang, cada uma, têm mais de 10 mil residentes afetados. Wan acredita que o verdadeiro número é maior e adverte – assim como especialistas internacionais – que o vírus é transmitido de grupos vulneráveis como prostitutas, usuários de drogas, migrantes e gays para a grande população. No último ano foram cerca de 50 mil novos casos. O relaxamento e mais liberdade para o sexo – mas ainda a ignorância sobre os riscos das DSTs – e um crescimento no comércio sexual pioram o problema.
“Tem havido uma espécie de revolução sexual desde as reformas de mercado”, disse o Dr. Heather Xiaoquan Zhang, um professor sênior nos estudos chineses da Universidade de Leeds, Inglaterra.
“As pessoas estão mais abertas sobre sexo – mas na maioria dos casos, em áreas urbanas e entre as camadas mais instruídas da população. Mas, a tradição confuncionista ainda significa para a maioria da população um embaraço ao falar sobre sexo abertamente. O conhecimento de riscos e vulnerabilidades é bastante limitado”, disse.
O governo tem apoiado uma série de programas, que vão desde educar os trabalhadores migrantes sobre o uso de preservativos até o comissionamento de estrelas de filmes, como Jackie Chan.
Wan salienta ainda que alguns assuntos permanecem ‘além das fronteiras’. O Unaids estima que 41% das pessoas com HIV na China foram infectadas em relações heterossexuais, 38% por meio de drogas injetáveis, 11% em relações homossexuais – e quase 10% através de venda ou recebimento de sangue e de produtos hemoderivados.
O escândalo da epidemia em áreas rurais da China, particularmente na província de Henan, foi um dos fatores que impulsionaram o HIV a entrar na agenda política.
Camponeses que venderam o sangue por dinheiro sacrificaram sua saúde conforme os serviços de coleta reutilizavam agulhas sujas.
Mas Wan acredita que os oficiais não vão admitir problemas na transfusão de sangue – como no caso de Shahe – porque eles são relutantes em admitir falhas no sistema.
“O governo admitiu que há uma epidemia entre pessoas que doam sangue – mas não entre aqueles que recebem. Não é informado ao público sobre os riscos de transfusão de sangue e não é sugerido que as pessoas são testadas”, disse.
Ele adverte que a hierarquia em serviços do governo dificultam as necessidades de diferentes serviços de saúde e torna-se fácil abrigar funcionários corruptos, com pouco espaço para trabalhos de base.
As organizações que recebem dinheiro centram-se mais na reunião com o governo do que com o público: constroem a capacitação e educação, mas não se engajam no trabalho de ponta.
“O governo oferece suporte no trabalho com comunidade gay e isso é bom. Temos mais de 100 organizações neste setor hoje. Mas, você vai a uma sauna e não existem preservativos”, disse. O trabalho essencial de engajamento em grupos mais vulneráveis sobra para as ONGs – quando são permitidas a executá-lo. Aqueles que trabalham na sociedade civil criticam a segurança nos preparativos para as Olimpíadas. Segundo eles, os funcionários tornaram-se muito mais suspeitos em suas negociações com as organizações.
Nesta última semana o Instituto Aizhixing anunciou um protocolo de emergência para proteger seus funcionários, voluntários, colaboradores e clientes nos Jogos Olímpicos.
A título de explicação, um registro de incidentes recentes revela a prisão domiciliária ou vigilância de mais de 100 pessoas soropositivas e ativistas na primeira metade de março. A lista começa em Dezembro passado, quando o próprio Wan foi detido brevemente, e termina com a detenção em Shahe.
Oficiais em Hebei não responderam sobre o caso à reportagem do The Guardian.
Mas Jiang, advogado, sustenta que as detenções são ilegais. O Gabinete de Segurança Pública disse a ele que precisa de pelo menos um mês para “executar a lei”.
“É um direito deles conhecer o primiê”, acrescentou. “Os soropositivos e suas famílias são inocentes: eles enfrentam a dor, a pobreza e os preconceitos”.
Fonte: The Guardian
(Agencia de Noticias da AIDS – 21.04.2008 )
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