NAIRÓBI, 21 Abril 2008 (PlusNews) – O governo queniano iniciou um ambicioso programa para acelerar o lançamento nacional da circuncisão masculina como medida de prevenção do HIV.
Resultados de três estudos controlados e randomizados realizados na África do Sul, Quénia e Uganda em 2006 mostraram que a incidência da infecção nos homens diminuía em mais de 50 por cento após a circuncisão.
Segundo uma nova diretriz, a circuncisão será lançada para homens de todas as idades levando em consideração o aspecto cultural e em locais clinicamente seguros.
O programa deverá compreender o fortalecimento da infra-estrutura do sistema de saúde, embora segundo Peter Mutie, diretor de comunicação do Conselho Nacional de Controlo da Sida (NACC, em inglês), os centros de saúde existentes sejam suficientemente bem equipados para o lançamento do programa.
“Estamos a tentar acelerar o ritmo para que possamos começar a lançá-lo em meados de 2008” disse.
Embora a circuncisão não seja uma prática cultural em algumas das comunidades étnicas do Quénia – inclusive os Luo, Suba e Teso no oeste do país e Turkana no noroeste –, Mutie disse que o programa do governo deverá abranger todo o país.
“A maioria das tribos realiza a circuncisão como um ritual de passagem, mas muitas delas o fazem de maneira tradicional, usando a mesma lâmina para vários meninos, e esta é uma prática que gostaríamos de erradicar; outras não removem completamente o prepúcio, que é a forma médica de se fazê-lo – eles só cortam uma parte”, disse ele.
Mutie acrescentou que para limitar a resistência, o programa seria precedido por uma campanha de mobilização social, com membros da comunidade a ser treinados para educar seus pares sobre os benefícios da circuncisão masculina.
“Este programa precisa ser implementado com cuidado, e a educação é chave; as pessoas precisam saber, por exemplo, que a circuncisão não garante de maneira alguma uma proteção contra o HIV”, disse Mutie.
Ele enfatizou ainda que as pessoas que fazem a circuncisão tradicional terão um papel fundamental na reeducação em suas comunidades. “Nós não podemos descartar completamente seu papel, porque são conselheiros úteis respeitados pela população a quem pode-se ensinar a aconselhar os jovens iniciados sobre sexo seguro e outras práticas saudáveis”, acrescentou Mutie.
A notícia da nova política nacional será bem acolhida por muitas organizações não-governamentais (ONGs) e médicos que estavam à espera de orientação sobre a circuncisão masculina. Entre eles está a organização Marie Stopes Kenya, que lançou um projeto piloto no oeste do país há um ano, usando as diretrizes da Organização Mundial da Saúde. A organização faz parte do grupo de trabalho nacional sobre a circuncisão masculina.
Testando as águas
“Nosso projeto é uma campanha de alcance móvel gratuita, onde uma equipa de cinco membros – um médico, um encarregado clínico, um assistente de cuidados, um enfermeiro e um motorista – visita várias comunidades, instala-se numa sala de um centro de saúde ou em uma tenda e convida a população a vir ou trazer seus filhos para ser circuncidados”, disse George Obhai, diretor de supervisão e avaliação da Marie Stopes Kenya.
Antes da chegada da equipa móvel, a organização entra em contacto com o hospital ou clínica local para mobilizar a comunidade, e no dia da visita todo homem que é circuncidado recebe aconselhamento de um membro da equipa antes da intervenção.
“É interessante como muitas das idéias que as pessoas têm sobre a circuncisão masculina nos são favoráveis, mesmo entre os Luo; por exemplo, as pessoas acreditam que ela melhora a experiência sexual e que as mulheres preferem os homens circuncidados”, acrescentou Obhai.
Ele notou que não foi difícil promover a circuncisão masculina no oeste do Quénia porque os Luo, Teso e Suba estão rodeados por comunidades que praticam a circuncisão, e muitos deles conhecem homens circuncidados. A proteção que ela oferece contra o HIV também ajudou a tornar esta prática popular na região.
Em quatro distritos da província de Nyanza, mais de 2.700 homens se apresentaram para circuncisão através da ONG Marie Stopes desde Abril de 2007. Este número está a aumentar mensalmente. Oitenta por cento dos meninos e homens que estão a ser circuncidados vêm de comunidades onde a circuncisão não é tradicionalmente praticada.
Mas este sucesso não é uniforme. Na comunidade de Turkana, sociedade isolada e extremamente tradicional no noroeste do país, a aceitação do programa não tem sido fácil.
“Quando levamos a equipa móvel para Turkana no ano passado, só tivemos dois casos em um dia todo de trabalho, e três casos num outro dia”, disse Obhai. “Desistimos porque na época nós simplesmente não tínhamos recursos financeiros para justificar nossa estada, mas assim que pudermos organizar mais equipas móveis voltaremos à região.”
Marie Stopes também utiliza os membros da comunidade como educadores de pares, e espera incorporar aqueles que praticam a circuncisão tradicional ao programa.
“No passado estas pessoas [que praticam a circuncisão tradicional] ofereceram uma certa resistência ao programa, porque o vêem como uma tentativa de retirar-lhes sua fonte de renda ou seu papel na sociedade”, disse Obhai.
“Por exemplo, em muitas regiões, o próximo mês de Agosto será o período da circuncisão, e nós gostaríamos de encorajá-los a manter seu papel de conselheiros e até a pagar para que o façam, desde que tragam os meninos à clínica para a circuncisão.”
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| O governo queniano iniciou um ambicioso programa para acelerar o lançamento nacional da circuncisão masculina como medida de prevenção do HIV. |
O piloto teve sucesso principalmente junto às populações rurais com pouco acesso a centros de saúde modernos, e junto aos prisioneiros, que também sofrem da falta de acesso a cuidados de saúde.
A mobilização social também tem sido usada como ponto de entrada para a educação sobre a tradicional estratégia de prevenção, o ABC – Abstinência (Abstinence – A), Fidelidade (Be Faithful – B) e uso do preservativo (Condom – C) –, e como meio de promoção do aconselhamento e testagem voluntária.
Durante o ano em que foi operacional, o projeto piloto da Marie Stopes registou cinco complicações: dois casos de reações adversas à anestesia e três complicações pós-operatórias.
Após o sucesso da experiência em Nyanza, a organização pretende expandir seu projeto móvel a todo o país.
(PlusNews – 21.04.2008 )

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