No dia 16 de Abril a equipe do CRIAS assistiu ao seguinte painel:
-
Prevenção de HIV/AIDS e DST entre mulheres nos países da CPLP: contribuições da abordagem de género.
Prevenção de HIV/AIDS e DST entre mulheres nos países da CPLP: contribuições da abordagem de género
Este painel teve como coordenador a Dr.ª Simone Monteiro da Fundação Fiocruz, Brasil, debatedora a Dr.ª Cristina Pimenta da ABIA, Brasil e como palestrantes: a Dr.ª Fernanda Cardoso do Hospital Egas Moniz, Portugal, a Dr.ª Wilza Villela da ABRASCO, Brasil e o Dr. Henrique Passador do Brasil.
Fernanda Cardoso- Prevenção VIH/sida nas mulheres africanas. Tradições e contradições
Fernanda Cardoso começou por identificar um conjunto de factores capazes de influenciar a epidemia: género, idade, factores socioeconómicos e culturais. Situou as mulheres entre os grupos mais vulneráveis por razões biológicas, e devido a factores socioeconómicos bem como culturais. Fernanda Cardoso procurou aprofundar de que forma os dois últimos factores colocavam a mulher em situação de maior vulnerabilidade. A contínua subalternidade da mulher africana em relação ao homem é visível, por exemplo, na impossibilidade de negociar o uso do preservativo. Por outro lado, as relações de género vêm carregadas de valores, símbolos e esterótipos, que se traduzem em práticas e atitudes culturais que promovem a maior vulnerabilidade da Mulher, como por exemplo, a prática do levirato e sorocracia, o rito da purificação sexual, a mutilação genital feminina e os ritos de iniciação feminina, assim como a poligamia consentida e as práticas do sexo “seco”. Este conjunto de práticas carrega um valor cultural elevado, mas danoso para as Mulheres. A este conjunto de práticas, associa-se um conjunto de valores com o mesmo fim: o respeito pelos mais velhos, o papel das “tias”- as irmãs dos pais que têm a responsabilidade de preparar a jovem para o casamento, a religião, os médicos tradicionais (os curandeiros) e mitos e crenças. Fernanda Cardoso fechou a sua apresentação com o seguinte desafio: “A criação de um código sobre a igualdade de mulheres e a redução de risco de infecção, contribuindo para acabar com os desequilíbrios do sexo e desigualdade de poder”.
Dr.ª Wilsa Vilela- Abordagem de gênero em projectos comunitários desenvolvidos em Moçambique: convergências e desencontros entre governo e sociedade civil
Refere que a própria lógica do financiamento colocou a questão do género na agenda. Mas o que significa “género”? Referiu que o conceito apesar de antigo tem sofrido várias alterações ao nível do seu significado e que actualmente o conceito comporta múltiplos sentidos. Entre os sentidos mais comuns referiu:
-
O uso do conceito “gênero” para referir as pessoas individualmente, pelo que a sua tradução ao nível de programas na área do VIH/sida, tinha com objectivo que as mulheres exigissem o uso da camisinha aos seus parceiros, no espaço privado;
-
O segundo entendimento reconhece que as Mulheres só podem ser apoiadas se houver alteração do seu status económico, formação, entre outras estratégias que contribuam para uma maior equidade das Mulheres em relação ao Homens.
Em Moçambique, onde realizou uma avaliação qualitativa de 160 dos 1124 projectos implementados por organizações comunitárias verificou que a idéia de género foi apropriada, não para referir necessariamente uma relação sexual, mas a maior vulnerabilidade da mulher, que é marcada pela luta pela sua sobrevivência material e de seus filhos. Esta apropriação teve como implicações o desenvolvimento de acções capazes de apoiar financeiramente as Mulheres.
Se a matriz ideológica do género era atravessada pela sexualidade, a introdução do conceito em programas de prevenção e controlo da sida em Moçambique alterou-lhe o sentido. No discurso do governo moçambicano, por exemplo, o conceito de gênero não é associado à sexualidade. Daqui se conclui que os conceitos são apropriados pelos modelos de desenvolvimento, de tal forma que os sentidos e utilidade relativa vão sendo adequados.
Dr. Henrique Passador – Tradição, Pessoa, Género e DST/HIV/AIDS no sul de Moçambique
Henrique Passador esteve doze meses em Moçambique, no Distrito de Homoíne a realizar a sua investigação. Referiu que ali a tradição convive com elementos de modernidade, sem que no entanto a tradição se altere com os novos objectos. A presença dos espíritos na vida social como sujeitos de acções e interacções com os “vivos” é comum na população. A produção de descendência é fundamental na vida das mulheres. O que vai definir uma pessoa são as linhas de descendência, ascendência e a linha dos Xarás e a vizinhança. É através das mulheres que a filiação e a descendência são possíveis, garantindo a existência da pessoa masculina e feminina. As mulheres vêm de fora, são doadas às famílias. Assim, são sempre suspeitas no núcleo familiar. Não é possível pensar em gênero sem pensar na família em Moçambique. A maioria dos praticantes de feitiçaria são mulheres. Quando se investigam as causas da doença tradicional, investiga-se quem trouxe a doença. Henrique Passador refere que historicamente as ISTs são interpretadas e tratadas pela medicina tradicional.No que respeita ao uso do preservativo, é visto como impedimento na produção de filhos. A importância da descendência não pode ser esquecida. Assim, as mulheres são mais vulneráveis e têm dificuldade em negociar o uso do preservativo.
Em grande medida as mulheres são vistas como promotoras da doença.
(Maria Teresa Santos/Renata Cortizo – 18.04.2008 )
Comentários Recentes