MOÇAMBIQUE: Netos órfãos e descaso – idosos enfrentam a epidemia

9 04 2008

 


Photo: Mercedes Sayagues/PlusNews
Velhice sem descanso: avó cuida de netos órfãos em Naamacha

DONDO, 7 Abril 2008 (PlusNews) – No pantanoso bairro de Mafarinha, na cidade de Dondo, Elisa Traquina, 62 anos, apóia-se numa bengala e cuida de sua neta, Dorca, de nove anos, embaixo de uma maçaniqueira.

Dorca, que é seropositiva, perdeu os pais para a SIDA quando tinha cinco anos. Quem cuida dela desde então é sua avó.

Para ajudá-la na tarefa de criar e educar a menina, Traquina recebe apoio moral e alimentar da organização não-governamental Associação de Apoio às Viúvas e Crianças Vulneráveis de Moçambique (ASVIMO), que opera na província de Sofala, regiao central de Moçambique.

“Os idosos estão a enfrentar um chocante episódio: ou são abandonados pela comunidade e seus parentes, sob alegações de bruxaria, ou são obrigados a se tornar pais substitutos e cuidar dos netos, que são órfãos da SIDA”, disse Gimo de Carmo Lourenço, coordenador da instituição.

Traquina é um dos 250 idosos no distrito de Dondo, em Sofala, que recebe auxílio da ASVIMO.

A associação, criada em 1999, ajuda os idosos a cuidar das crianças órfãs, entre outras actividades. Nos últimos cinco anos, por exemplo, a ASVIMO construiu 70 casas que beneficiaram 142 órfãos que vivem sob cuidados dos pais substitutos.

A organização também conta com 120 activistas formados em HIV/Sida e ensina as comunidades sobre cuidados domiciliários em sessões semanais.

Florinda Ze, 68 anos, mora no bairro de Machorroque, na vila de Dondo, e cuida de seu neto de dois anos, que é seropositivo e órfão.

“Eu cuido dele e mais dois sobrinhos e tenho que ficar em casa quase todo o tempo. Não posso ter outros afazeres que me obriguem a me ausentar. Não posso ir aos enterros, à igreja, nem visitar outras famílias”, explicou Ze.

Além da mudança na rotina, as dificuldades também são financeiras.

“Às vezes fico sem jeito de sustentar estas crianças. O pouco que tinha acabou em hospitais, curandeiros e comida. Até agora conto com apoio da minha filha, mas acaba também em sobrecarga porque o custo de vida vai alto”, comentou.

Impacto adicional

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, quatro por centro da população moçambicana tem mais de 55 anos. Dos 800 mil idosos no país, 120 mil estão a cuidar de crianças órfãs, geralmente devido à SIDA.

''O risco de HIV é o mesmo para todos, mesmo para aquelas que estão na menopausa.''

Um dos factores mais preocupantes nesse quadro é o desconhecimento que os velhos têm do HIV. Além de cuidar de netos, que muitas vezes são seropositivos, não é raro ver os idosos a trabalhar como cuidadores ou parteiras tradicionais.

“Os idosos não pensam em evitar o contacto com o sangue das pessoas infectadas”, disse Lourenço, da ASVIMO. “E quando são contaminados, eles não são testadas para o HIV, porque os médicos simplesmente deduzem que eles não são sexualmente activos e dizem que tudo é decorrência da ‘idade avançada’.”

E mesmo lidando com toda a consequência da epidemia, os idosos continuam fora do radar das campanhas de prevenção.

Segundo Marina Karagianes, directora provincial de saúde em Sofala, apesar de a abordagem do HIV ser feita nos grupos de risco, entre 15 e 45 anos, os idosos também devem ser alvo dos esforços.

“O risco é o mesmo para todos, mesmo para aquelas que estão na menopausa”, destacou.

Lourenço aponta a falta de centros com serviços de testagem e aconselhamento voluntário para idosos no país como um dos principais indicadores dessa exclusão.

“Muitos idosos ainda são sexualmente activos”, afirmou.

Para Karagianes, as igrejas são peça chave nesse quebra cabeça que envolve velhice e HIV.

“Os idosos frequentam geralmente as igrejas. Se as campanhas educativas forem feitas dentro da igreja poderíamos atingir este grupo, que não tem conhecimentos básicos sobre como se precaver em relação ao HIV”, sugeriu.

Ela acrescentou também que, em nível comunitário, o problema pode ser resolvido com as organizações de base que oferecem cuidados domiciliários e sensibilização de HIV.

Trabalhar a vida inteira

Moçambique assinou várias convenções internacionais sobre idosos – incluindo o Plano Internacional de Madrid para o Envelhecimento, de 2002, que apela aos governos que reconheçam os direitos dos idosos – mas para muitos, as mudanças ainda são invisíveis.

“Moçambique pouco tem feito para traçar e implementar políticas e leis sobre os idosos”, disse Traquina.


Photo: Mercedes Sayagues/PlusNews
Idosos fora do radar das campanhas de prevenção

A idade da aposentadoria em Moçambique é de 55 anos, e a aposentadoria média de um funcionário público é de 700 meticais (US$ 29) por mês. Esse valor, no entanto, se aplica somente a pessoas que trabalharam no sector formal.

O governo está a implementar uma política para subsidiar a aposentadoria para os trabalhadores do sector informal. Cada idoso, de acordo com essa política, receberia mensalmente cerca de 300 meticais (US$ 12).

Esse benefício ainda está ao alcance de poucos, entretanto, devido à burocracia na obtenção de documentos, como atestado de pobreza e certidão de residência.

O governo também introduziu um plano de assistência médica gratuita para pessoas a partir de 65 anos, mas que não inclui medicamentos.

“Não há em Moçambique uma política de cuidado aos idosos. Muitos de nós têm que trabalhar a vida inteira – caso contrário acabaríamos em asilos, depois de sermos abandonados pela comunidade”, lamentou Alfredo Ernesto, de 71 anos.

Para esses idosos, a velhice está longe de ser uma época de descanso. Depois de uma vida toda de trabalho, a SIDA os obriga a tomar novamente as rédeas da família e recomeçar.

(PlusNews – 07.04.2008)

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