Photo: Kristy Siegfried/PlusNews ![]() |
| Um paciente segura os remédios homeopáticos que acabou de receber |
MAUN, 9 Abril 2008 (PlusNews) – Maun, uma cidade comum do norte do Botsuana, é geralmente nada mais do que uma etapa intermediária no caminho que leva aos campos de safari de Okavango Delta, um paraíso da vida selvagem e um dos destinos turísticos mais populares da África.
Para Hilary Fairclough, antiga enfermeira inglesa, a visita a Maun em 2000, quando acompanhou seu parceiro durante uma viagem de trabalho, plantou a semente de uma idéia que hoje faz com que ela volte duas vezes por ano ao país.
Ela ficou impressionada com o estrago causado pelo HIV em Botswana, numa época em que os antiretrovirais (ARV) ainda não eram disponíveis no setor público. Em 2002 ela voltou ao país para descobrir se havia, entre os seropositivos, uma demanda por seus serviços como especialista em homeopatia.
Há pouquíssimos homeopatas em Botswana, e poucas pessoas em Maun tinham ouvido falar desta forma alternativa de medicina antes de sua chegada, mas o Projeto Homeopático Maun, como ficou conhecido, já tratou 1,5 mil seropositivos na região.
O serviço, que é gratuito graças a doações dos patrocinadores no Reino Unido, é fornecido por dois homeopatas voluntários que ela recruta na Inglaterra para trabalhar em Maun por um período de três meses.
Muitos dos pacientes do projeto agora estão a tomar ARVs, mas contam que os remédios homeopáticos ajudaram-nos a lidar com os efeitos colaterais, que às vezes são desagradáveis, assim como com as infecções oportunistas e a depressão, e que melhoram o bem-estar geral.
“O projeto está sendo realmente bem acolhido”, disse Fairclough. “As pessoas têm-se mostrado bem abertas. Eu acho que elas sentem-se apoiadas porque nós as ouvimos, mas eu acredito que os remédios também ajudam realmente as pessoas.”
O debate sobre homeopatia
Apesar de já existir há mais de 200 anos, a eficiência da homeopatia ainda é objeto de controvérsia. Os partidários da medicina convencional tendem a considerá-la no melhor dos casos como um placebo, e no pior, como charlatanismo. Em um artigo publicado no jornal sul-africno The Star, Mark Colvin, doutor em epidemiologia, descreveu a homeopatia como baseada em uma “premissa absurda” que nunca foi cientificamente provada.
Partidários da homeopatia respondem que a medicina homeopática funciona de forma tão diferente da medicina convencional – o tratamento da pessoa como um todo ao invés de somente da doença – que os métodos convencionais de medida de eficiência são inadequados.
Fairclough acredita que parte do sucesso da homeopatia no Botswana está ligado ao fato de que ela associa elementos da medicina tradicional e da medicina ocidental. “Ela tem a forma de um comprimido, mas a abordagem – que leva em consideração a mente, o corpo e o espírito – é mais Batswana. As pessoas sentem-se mais à vontade com isto”, disse ela.
Depende do indivíduo
Kelebogile, mulher frágil de quase cinquenta anos, é paciente de Fairclough desde 2002. Ela começou a tomar ARVs em 2003, mas ainda toma o que ela chama “os comprimidinhos” porque eles a ajudaram a tratar de “muitos problemas”.
As consultas são feitas na Igreja Luterana de Maun, onde o projeto instalou a clínica que abre duas vezes por semana. A consulta de Kelebogile durou cerca de 30 minutos e não houve exame clínico.
“Os remédios não são sempre os mesmos para todos os seropositivos”, disse Fairclough. “Depende da pessoa, do tipo de stress ou trauma que ela teve, e de como ela reage a diferentes situações”.
Ela escolheu três vidros de comprimidos diferentes de sua caixa de medicamentos e colocou alguns de cada um em sacos plásticos; um para as dores, um outro para seu estado emocional e o último para estimular o sistema imunitário.
Serviços de saúde sobrecarregados
Para entender porque tantos pacientes esperam na fila em frente à Igreja Luterana, tendo às vezes viajado centenas de quilómetros, é só dar uma olhada no sistema de saúde pública sobrecarregado do país.
Como os remédios homeopáticos, os ARVs são gratuitos no Botswana. Porém, com uma seroprevalência de 24 por cento, a segunda depois da Suazilândia, a necessidade é imensa. Justamente quando o governo decidiu expandir o acesso ao tratamento ARV, médicos e enfermeiras começaram a sair do país em busca de melhores salários, na África do Sul ou em outros países vizinhos, ou até na Austrália ou no Reino Unido.
O programa de tratamento ARV do Botswana é frequentemente citado como um exemplo para outros países da região, mas algumas pessoas, inclusive o antigo médico chefe do Hospital Maun, Eric Beltz, pensam que o programa privilegiou a quantidade ao invés da qualidade.
Beltz, que mudou-se para a Austrália há três anos, estava a visitar o Botswana quando falou com PlusNews; o que o preocupa é o fato de que a rápida expansão do programa de tratamento do HIV/Sida, associada à falta de profissionais para monitorizar a aderência aos medicamentos e o fracasso do tratamento, poderá provocar problemas importantes de resistência aos medicamentos num futuro próximo.
Photo: Hilary Fairclough/MaunHomeopathyProject ![]() |
| A enfermeira Hilary Fairclough visita um de seus pacientes |
Embora Fairclough trate regularmente os pacientes contra os efeitos colaterais dos ARVs, ela hesita em descrever a homeopatia como um tratamento “complementar” ao tratamento ARV.
“Alguns dos meus pacientes me disseram que queriam somente a homeopatia, mas eu disse não, não é o suficiente, precisa-se também dos ARVs. Pode até ser que a homeopatia pudesse retardar a necessidade dos ARVs, mas não podemos nos dar ao luxo de fazer este tipo de teste”.
Planos futuros
Alex Sarefo e Wasanapi Kapii, dois jovens voluntários do projeto, servem de intérpretes para os homeopatas, mas esperam um dia poder ter seus próprios pacientes. O projeto visa a sustentabilidade a longo prazo, e está a ajudá-los a terminar uma formação à distância numa escola no Reino Unido para obter a habilitação para praticar a medicina homeopática.
“No começo eu era cético, até que vi os resultados nos pacientes; comecei então a ler sobre a homeopatia e a entender sua base científica”, disse Sarefo, que começou a participar do projeto quando interrompeu seus estudos de medicina no Zimbábue.
Kapii espera poder abrir seu próprio consultório homeopático após obter sua habilitação, enquanto Sarefo fala de fundar uma escola de homeopatia e defender o uso maior das medicinas alternativas como a homeopatia. “Aqui não há preconceito quanto à medicina alternativa, e eu acho que deve continuar assim.”
(PlusNews – 09.04.2008)


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