Negociação diminui os gastos com anti-retrovirais

7 04 2008

Um bilhão e duzentos milhões de dólares foi a quantia que o governo brasileiro economizou com a política de negociações na compra de anti-retrovirais contra o HIV entre 2001 e 2005. Segundo os autores do cálculo, a ação governamental garantiu preços mais baixos que os pagos por outros países em desenvolvimento para os medicamentos de marca importados. Porém, os genéricos ainda saem mais caros no Brasil. Na avaliação dos cientistas, o fato resulta da falta de investimento na inovação.

Para a médica Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST e AIDS, , o sucesso das negociações se deve a dois fatores: a reputação de bom pagador do Brasil e a capacidade brasileira na área de engenharia reversa de drogas (que identifica os ingredientes e suas quantias necessárias para produção dos medicamentos). Um exemplo é o que aconteceu com o efavirenz. As negociações desse anti-retroviral levaram o governo a emitir uma licença compulsória (a ‘quebra da patente’), que permitiu a produção local da droga. Segundo o Ministério da Saúde, isso reduziu em US$ 30 milhões os gastos com o efavirenz em 2007. 

Mas nem tudo é sucesso. O sanitarista Francisco Inácio Bastos (Fiocruz), um dos autores da pesquisa, informa que, ao contrário dos remédios patenteados, o preço dos genéricos produzidos no Brasil vem aumentando. A razão seria a necessidade de importar os insumos para fabricação dessas drogas de países como a Índia. 

- O efavirenz produzido aqui será mais caro que o feito com insumos da Índia. Mas é preciso fazê-lo mesmo assim, pois precisamos obter a capacidade de produção. Sem poder de inovação, ficamos à mercê dos produtores de insumos e dos grandes laboratórios, pois nossa habilidade de barganha fica limitada. E o risco de dependermos dos outros é que amanhã talvez eles não estejam mais lá – conclui o pesquisador.

(Fred Furtado/Jornal do Brasil – 06.04.2008)




Congresso no Brasil discutirá a actual situação da SIDA nos países membros da CPLP

7 04 2008

Pesquisadores cabo-verdianos participam, entre os dias 14 e 17 de Abril na cidade do Rio de Janeiro, do 2º Congresso da CPLP sobre DST/SIDA. A formação de estudantes conscientes e a actualização dos profissionais são os objectivos centrais do evento.

 
Os recentes estudos sobre as DSTs chamam a atenção pela sua frequência e gravidade na área da saúde pública, constituindo um verdadeiro desafio para o desenvolvimento de muitas nações. Nesta segunda edição do congresso participarão professores, pesquisadores, activistas, especialistas, jovens estudantes e profissionais da saúde, que vão produzir resoluções e anunciar as medidas a serem tomadas no sentido de enfrentar o actual panorama do SIDA nos países participantes.

Representando Cabo Verde estarão a Directora Geral da Saúde, Jaqueline Pereira, que participará na mesa de debate do segundo dia do congresso, com o tema “Situação epidemiológica da DST/SIDA nos países da CPLP” e Iniza Araújo, discorrer, na mesma data, sobre o “Retrovírus”. Outros dois trabalhos da autora serão apresentados em forma de poster, um sobre a prevenção do vírus e outro sobre imunologia.

Logo em seguida à apresentação de Iniza Araújo tem lugar um debate sobre os 20 anos de história do VIH em Cabo Verde. O trabalho desta biomédica é uma versão actualizada de sua tese de mestrado, que se centra na epidemia de SIDA em Cabo Verde, entre os anos de 1987 e 2007. A Dra. Iniza fará ainda uma visita ao Instituto Oswaldo Cruz, instituição de prestígio na área de saúde pública do Brasil, para firmar acordos de cooperação com a Uni-CV.

 (A Semana Online- 07.04.2008)





Uma centena caminhou pela saúde

7 04 2008

Cerca de uma centena de pessoas aproveitou a manhã solarenga de domingo para “Caminhar pela Saúde”. Além de alertar para estilos de vida saudável, a iniciativa promovida pela Saúde em Português permitiu angariar fundos para uma campanha inovadora de prevenção da Sida

Antes da hora marcada já eram muitos os que tinham despertado bem cedo para “Caminhar pela Saúde”. Junto ao Pavilhão de Portugal, no Parque Verde do Mondego, a pouco e pouco, foram chegando participantes de todas as idades, que responderam ao apelo da Associação Saúde em Português (ASP) e decidiram passar a manhã de domingo a fazer exercício, e pensar também na solidariedade.
Equipados a rigor, cerca de 100 caminheiros percorreram os cinco quilómetros que unem o Parque Verde à Mata Nacional do Choupal, em pouco mais de meia. Para Helena Tavares, de 56 anos, pode dizer-se que o desafio “foi canja”. Habituada a caminhar, especialmente, aos fins-de-semana, acelerou o passo e, sem dificuldade, foi das primeiras a chegar ao destino. «Fez-se bem. Não custou nada», adiantou ao Diário de Coimbra, enquanto saboreava a laranja oferecida pela organização no final do percurso.
Já a amiga Emília Nunes, de 53 anos, assumiu que não tem a mesma forma física de Helena – só caminha quando há iniciativas organizadas -, mas também ela demonstrava estar pronta para mais uns metros.
Quem não faltou foi a pequena Beatriz, de dois anos e meio. Só que para ela o percurso realizou-se no carrinho, porque, senão, brincou a mãe Sofia, «não caminhava, tinha era de correr atrás dela». Fresca estava a avó da menina, Maria da Conceição, que, aos 66 anos, é quem desafia a filha, enfermeira de profissão, a deixar de lado o sedentarismo e «andar um bocadinho».
À chegada, esta família também cumpriu o objectivo e, mesmo a Beatriz, apesar de realizar o percurso sobre rodas, não deixou de fazer os alongamentos sugeridos por um monitor.

Projecto inovador alerta para a Sida

Ainda que na conferência de imprensa de apresentação da iniciativa a organização apontasse para a participação de 200 pessoas, Hernâni Caniço estava «satisfeito com a adesão», que se ficou por metade.
De acordo com o presidente da ASP, a iniciativa “Caminhar pela Saúde” teve dois objectivos principais. Primeiro, sensibilizar o cidadão, que «é responsável pela prevenção da saúde», a adoptar estilos de vida saudáveis, que passam, necessariamente, pelo exercício físico. Ou seja, «há que envolver as pessoas na sua saúde», completou o médico.
Por isso, antes e depois de caminhar, os participantes tiveram oportunidade de medir os valores da tensão arterial, graças à colaboração da Fundação Portuguesa de Cardiologia e da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. E, pelo menos, antes do exercício, os resultados não eram preocupantes, no entanto, salientou uma aluna de enfermagem, entre os “desportistas” de mais idade, alguns valores eram elevados.
O segundo objectivo da caminhada passou por sensibilizar a população para a problemática do VIH/Sida, numa altura em que Portugal é o país da União Europeia «com maior incidência de novos casos», frisou Hernâni Caniço.
A inscrição custou cinco euros (incluiu a oferta de uma t-shirt), cujas receitas revertem para o “Aids on the stage”, um projecto de sensibilização, que, já no dia 18 de Abril pode ser apreciado em frente à Câmara Municipal.
Recorrendo a «técnicas que não são tradicionais» – a teatralização -, a ideia é alertar que a «Sida ainda continua a ser um flagelo que não afecta apenas grupos de risco». Se a iniciativa tiver sucesso, a organização espera poder apresentar a peça numa das noites do parque da Queima das Fitas e expandi-la a outros países da Europa e de língua portuguesa.
Aliás, acrescenta Hernâni Caniço, a Saúde em Português é uma «organização internacionalista», que actua, maioritariamente em países lusófonos, no sentido de «reduzir as assimetrias em saúde e promover o desenvolvimento».
Com mais de 480 mil beneficiários desde a sua fundação, a associação continua a ver Coimbra como uma «cidade com um significado especial». Ela própria fica a ganhar, quando o trabalho desenvolvido pelos voluntários nas diferentes missões «é reconhecido em todo o mundo», concluiu.
Iniciativa da Saúde em Português, “Caminhar pela Saúde” teve como parceiros o Clube de Veteranos de Atletismo de Coimbra e a Associação de Desporto para Todos, contando ainda com o apoio de diversas entidades.  

(Diário de Coimbra – 07.04.2008)




CPLP realiza congresso sobre DST e HIV

7 04 2008

O segundo Congresso da CPLP sobre Doenças de Transmissão Sexual e VIH/Sida (DTS-VIH/SIDA) terá lugar de 14 a 17 de Abril, no Rio de Janeiro, numa co-organização da Fundação Eduardo dos Santos (FESA) e instituições sanitárias brasileiras.
Segundo fontes da organização, a delegação angolana ao evento deverá incluir cinco especialistas, entre os quais a directora do Programa Nacional de Luta contra a Sida, Ducelina Serrano, que vai falar sobre a situação no país, progressos e problemas.
Para além dos especialistas de Angola e do Brasil, estarão também de Portugal, São Tomé, Moçambique, Cabo-verde, Guiné Bissau, Timor Leste e convidados de Cuba e dos Estados Unidos. O director regional da OMS para África, Luís Gomes Sambo, também consta da lista de convidados.
O Congresso da CPLP sobre DTS-HIV/SIDA foi criado em Luanda, em 2005, numa organização conjunta do Ministério da Saúde de Angola (MINSA) e da FESA para analisar, discutir e definir uma plataforma de intervenção comum para os diferentes países da CPLP, que permita a abordagem e troca de experiências entre seus participantes.
De acordo com a organização, pretende-se ainda discutir no Congresso o que está sendo feito em cada país membro da CPLP, como e com que recursos, para se traçar um quadro da situação actual das DTS-VIH/SIDA e dos desafios para o futuro dos respectivos países.
Os problemas e constrangimentos, assim como as soluções mais factíveis com base na análise de custos, benefícios, efectividade e eficácia também serão apresentados. Para este fim, temas relevantes como clínica, co-infecções, controle, diagnóstico, diversidade, epidemiologia, resistência, tratamento, transmissão e vacina também serão abordados.
O Congresso vai ainda avaliar as dificuldades encontradas na implementação de planos estratégicos de acção de médio e longo prazo e fortalecer parcerias e estabelecer “networks” para intercâmbio de experiências, estabelecimento de sinergias e reforço de cooperação.
O primeiro Congresso da CPLP sobre DTS-HIV/SIDA foi realizado em dezembro de 2005, no Palácio dos Congressos, em Luanda, Angola, no qual representantes de cada um dos países da CPLP assinaram a Carta de Luanda se comprometendo a agir conjuntamente em prol dos princípios relativos às políticas e estratégias das DTS-HIV/SIDA que promovam prevenção e suporte às pessoas infectadas.
As principais considerações abordadas nesta carta e suas repercussões serão o tema de discussão na sessão satélite do segundo Congresso, a ser realizado no dia 14 de abril de 2008, no Hotel Glória, Rio de Janeiro, Brasil.

(Jornal de Angola – 07.04.2008)





Meninos resistem à prevenção

7 04 2008

Gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e simpatizantes – os GLBTs – têm um programa de vida traçado para os próximos meses de 2008: brigar com os números. Os últimos dados sobre a AIDS no Brasil, concluídos no fim do ano passado pelo Ministério da Saúde, trazem notícias capazes de amarelar as cores do arco-íris, símbolo do movimento. Entre 2000 e 2005, 40% dos novos casos da doença entre homens atingiram os gays. Pior: cresce de forma descontrolada a infecção de homossexuais masculinos jovens. Em 1996, 24% dos homens que fazem sexo com homens, os HSMs, tinham entre 13 e 24 anos. Uma década depois esse índice saltou para 41% – ou seja, quase 100%. 

A informação deixou as lideranças GLBTs de ressaca. Não por menos. Os números recém-divulgados têm o poder de ressuscitar um sentimento que parecia morto e enterrado – o de que homossexuais formam um “grupo de risco”. Nos anos 80, quando surgiu, a expressão era também sinônimo de “peste GAY” e trazia embutida a idéia de que a promiscuidade dos homossexuais era responsável pela epidemia. Vale lembrar que o país chegou a índices africanos da infecção. O desfecho da história já se sabe – enquanto se culpabilizava uma determinada prática sexual, mulheres jovens, idosos e mesmo bissexuais ficaram à margem das campanhas de prevenção. Hoje, sabe-se, a AIDS não pede licença a ninguém. 

Depoimento – F.S, 20 anos, estudante. Fez teste da AIDS há 6 meses. Resultado foi negativo

“Eles escreviam ofensas no quadro-negro”  

Quando meus colegas do segundo ano do ensino médio descobriram que eu era homossexual, passei a me sentir pouco à vontade na escola. Eles faziam chacota, escreviam ofensas no quadro negro, riam o tempo todo e se afastavam quando eu chegava perto, principalmente no vestiário. Pedi orientação à direção do colégio, mas tinha receio de contar o motivo. Sentia muito medo de que eles abrissem para minha família.  

Foram seis meses de pressão, até que me transferi para uma instituição particular. Daí tudo mudou. Meus pais acabaram descobrindo e a gente vive na base do “finjo que não vi, finjo que não sei.” Quase não fico em casa e nossa convivência é pequena. Continuo minha vida. Tempos atrás, fiz um teste de emprego e, na entrevista, a psicóloga insistia em saber com quem eu morava. Naquela época eu vivia com meu namorado. Acabei contando. Não sei se foi por isso, mas não consegui o emprego.  

Acho que jovens como eu são bem-informados sobre a AIDS. O crescimento de infectados deve estar associado às baladas. Os lugares GLBT estão associados a sexo. Muitos vão aos dark-rooms e fazem sexo com ou sem CAMISINHA. 

 

O avanço recente da doença entre os homossexuais jovens revela ainda uma outra faceta. A sigla GLBT, no Brasil, tem tanta força quanto o movimento negro. Haja vista Curitiba. Aqui, o professor Toni Reis, 45 anos, criador do Grupo Dignidade e de pelo menos mais uma dezena de organizações não-governamentais voltadas para a sexualidade, apareceria facilmente na lista das dez figuras públicas mais conhecidas da cidade. A visibilidade de lideranças como Reis, nos últimos 20 anos, serviu para colocar a causa GAY na imprensa, nas escolas e nos círculos políticos, dando a entender que se tratava de uma população informada, além da que mais contribuiu para minorar os danos causados pela doença.

 

 

O que não deixa de ser verdade. Dados do Ministério da Saúde e da Secretaria de Saúde de Curitiba mostram que homossexuais masculinos se cuidam mais do que os heterossexuais. A surpresa foi saber que a faixa mais jovem dessa população parece não ter absorvido nem as campanhas, nem a idéia de proteção e que provavelmente negligencie o peso da doença. Os líderes GLBTs também têm se feito essa pergunta. E ao respondê-la, esboçam uma mudança radical na forma de abordar a AIDS em suas atuações. 

Desde o fim do ano passado, governos, prefeituras e ONGs têm espalhado pelo país o Plano Nacional de Enfrentamento da Epidemia de AIDS e das DSTS entre Gays, HSH e Travestis. No melhor do estilo “política afirmativa”, o documento traz os números da doença, mas também agendas, planos e metas. A grande provocação é que, a quem interessar possa, está mais do que na hora de rever as técnicas de abordagem, uma das marcas do mundo GLBT. Militantes, técnicos e simpatizantes do país todo costumam ir a bares, boates, saunas e espaços públicos freqüentados por homossexuais para distribuir folhetos e camisinhas. A estratégia parece não estar funcionando para adolescentes e jovens – como atestam os números. 

“As lan houses e a telefonia celular garantiram o anonimato e facilitaram combinar sexo em qualquer hora e lugar. Ficou muito dinâmico. Não dá para dizer que os jovens desconhecem os riscos da transa sem proteção, mas o fato é que o uso do PRESERVATIVO tem de ser pactuado o tempo todo”, explica o educador paulistano Beto de Jesus, 45 anos, secretário para América Latina e Caribe do Institute Lesbian and GAY Association (Ilga).  

A mesma preocupação pauta o grupo Dignidade, em Curitiba. As novas estatísticas mexeram com as práticas da equipe hoje liderada por Enéas Pereira, 25 anos. Em vez de apostar todas as fichas nas abordagens in loco, a ONG arrebanhou dez drag queens mais conhecidos da cidade e os transformou em agentes em tempo integral. “Fizemos um mea culpa. Temos de intervir em tempo real. Elas estão sempre nos lugares, são referência e são escutadas”, resume o presidente do Dignidade. A outra estratégia dos ongueiros da capital é exigir mais compromisso dos donos de espaços de azaração para o público GAY. “Esses lugares facilitam o sexo. Muitos resistem à nossa orientação. Mas os donos precisam dar uma resposta”, explica. 

Segundo Enéas, a capital conta com cerca de 15 locais de encontros homossexuais – alguns com exposição à violência, como o Bosque do Papa e o Bosque do Trabalhador. Apenas um dos points comerciais chega a receber 300 freqüentadores numa única noite, em especial os que dispõem de dark-rooms, quartos escuros para encontros. De acordo com levantamento da ONG, metade dessas casas atendem ao público de baixa escolaridade e poder aquisitivo menor, grupo que hoje, de acordo com o Programa DSTS/AIDS da Secretaria Municipal de Saúde, representa 25% dos infectados da cidade.  

“Nos espaços mais modestos a adesão aos programas de prevenção é maior”, comenta Enéas. “A AIDS cresce entre os gays com menos de oito anos de escolaridade”, explica Mariana Thomaz, coordenadora do DSTS da prefeitura, “mas é grande no público mais instruído e com dificuldade de mudar comportamento”, acrescenta, pondo à mostra a cortina de fumaça que ronda o setor. 

Chegou-se a números, mas ainda não há uma leitura sociocultural e socioeconômica dos dados, permitindo cruzar escolaridade, renda e índices de infecção. Houvesse, essa informação poderia justificar a resistência da parcela jovem à prevenção. Para Toni Reis, pode não haver estatística, mas há evidências. “A AIDS cresce na periferia de Curitiba. É só olhar nos mapas dos órgãos de saúde. Temos a juvenização e pauperização da AIDS“, desafia. “Não existe esse recorte. Não se trata de uma questão de classe social e de instrução”, defende Beto de Jesus. 

A médica curitibana Mariângela Galvão Simão, 52 anos, hoje diretora do programa DSTS/AIDS do Ministério da Saúde, admite que faltam dados para dimensionar o problema. Não se sabe, por exemplo, a participação de transexuais na população brasileira nem nos casos de AIDS. O mesmo se diga para casos de violência envolvendo homossexuais, restando recorrer aos arquivos das ONGs. Com segurança, a representante do Ministério da Saúde afirma que a epidemia está estacionada em cerca de 600 mil brasileiros entre 15 e 49 anos. E que não está mais concentrada nas grandes cidades – espraiando-se por 85% dos municípios brasileiros – e que, por extensão, cresce na população mais pobre. “Só não tem AIDS onde não tem gente”, diz.

Há alguns anos, o educador Beto de Jesus acompanhou uma vítima de discriminação sexual a uma delegacia de São Paulo. Foi um dia para não esquecer. Diante da autoridade, ouviu a seguinte frase: “Dê graças a Deus que você entrou pela porta da frente. Homossexual aqui entra pelos fundos.”

O episódio serve para ilustrar a tese que mobiliza os envolvidos no grande arrastão nacional para conter o avanço da AIDS. O documento nascido no Ministério da Saúde defende que não é a prática sexual de risco – ainda creditada entre os homossexuais – a responsável pelos índices da doença entre os mais jovens, mas a vulnerabilidade e a homofobia.

Em miúdos, os participantes do movimento GLBT afirmam que nem as 177 paradas gays espalhadas pelo Brasil, nem a imagem simpática dos homossexuais nas telenovelas têm sido o bastante para conter a segregação. A prática continua sendo marginal, reprovada pela família e lança estudantes gays a toda sorte de humilhação nas escolas em que estudam. Essas situações funcionam como repelente aos programas de prevenção.  

“Os gays têm mais medo da homofobia do que da AIDS“, pontua a médica Mariângela Simão. Os jovens, naturalmente, são mais sensíveis à rejeição, o que os deixa vulneráveis. “Não faltam casos de rapazes que se contaminam na primeira relação sexual”, afirma a coordenadora do DSTS/AIDS de Curitiba, Mariana Thomaz. 

Na medida do possível, lideranças se armam de informações para mostrar os pontos de vulnerabilidade. A Associação GLBT prepara uma pesquisa em escolas de dez capitais brasileiras com a intenção de retratar a evasão de homossexuais dos bancos escolares e a ausência total de transexuais nas listas de chamada. Tem razões para tanto. Estudo da Unesco publicado em 2004 mostra que 39,6% dos alunos brasileiros não gostaria de ter um homossexual como colega de classe. 

Outra investigação diz respeito à violência. Levantamentos feitos no Rio de Janeiro (2004), São Paulo (2005) e Pernambuco (2006) mostram que 56% dos GLBT já sofreram agressão verbal; 19% passaram por agressão física e 69% já se sentiram discriminados. A ABGLT estima que 2.720 homossexuais foram assassinados entre 1980 e 2006 no Brasil. É uma informação forte o bastante para acabar com os planos de quem chega à juventude não precisamente no melhor dos mundos.