«Os últimos meses não poderiam ter sido melhores para Cabo Verde», escreve a revista alemã «Africa Live», que se publica em Berlim. Esta publicação dedicada a questões africanas lança um olhar sobre a «experiência cabo-verdiana». Dado o seu interesse, «asemanaonline» transcreve aqui o artigo, com a devida vénia.
Os últimos meses não poderiam ter sido melhores para Cabo Verde: primeiro a União Europeia firmou uma parceria especial com o arquipélago que se situa na costa oeste africana. Depois, o país aderiu à OMC (Organização Mundial do Comércio) e a seguir, a 1 de Janeiro, elevou-se oficialmente à categoria de países de desenvolvimento médio, conforme o relatório das Nações Unidas. E foi assim que Cabo Verde deixou o grupo de países em vias de desenvolvimento, os mais pobres. Cabo Verde é o segundo país africano, após o Botswana, a registar esta ascensão.
Para obter este estatuto o país teve que atingir certas metas económicas e sociais. De acordo com os dados das Nações Unidas referentes ao desenvolvimento humano, nove em cada dez crianças cabo-verdianas frequentam a escola. Comparativamente, a média africana é de sete crianças escolarizadas em dez.
De resto, em Cabo Verde o número de meninas a frequentar a escola é maior que o de rapazes. Isto também não é comum em África. O governo cabo-verdiano investe um quarto do seu orçamento na educação. Está assim bem acima da média africana. Não encontramos resultados destes a não ser no Quénia, Lesoto e Namíbia.
Também na área da saúde o investimento é grande. Basílio Mosso Ramos, o Ministro da Saúde, chama a atenção para o facto da evolução do país no domínio da saúde ter sido decisiva para que Cabo Verde passasse de país de baixo rendimento para país de rendimento médio. De acordo com o ministro, os indicadores avançaram muito. Há somente 30 anos que, em 1975, a mortalidade infantil era de 108 crianças por cada mil. “Actualmente estamos abaixo dos 30. Tal facto mostra-nos o caminho já percorrido. Hoje em dia, para nós, não se trata mais de quantidade mas sim de qualidade”, esclarece o ministro. Comparando: em Angola, que assim como Cabo Verde é uma antiga colónia portuguesa, um quarto das crianças morrem antes de completarem cinco anos – um número oito vezes superior a Cabo Verde. E isto tendo Angola o mesmo rendimento per capita que Cabo Verde.
Contrariamente a Angola, Cabo Verde não dispõe de matérias primas que valham a pena mencionar. Não tem petróleo, nem diamantes, nem cobre. As divisas que entram no país vêm principalmente das remessas dos cabo-verdianos que vivem fora do país e dos turistas que vistam as ilhas. Mas Cabo Verde transformou a penúria de matérias primas em qualidade; foi assim que investiu nos seus 518.000 habitantes, ou seja, na educação e na saúde.
Por comparação com o continente africano, a esperança de vida de 70 anos é impressionante – no vizinho Senegal a média da esperança de vida é de 61 anos e em Angola chega a cair para os 41 anos. O que também impressiona em Cabo Verde é a taxa extremamente baixa de seropositivos. “ Depois de 20 anos a conviver com o Sida estamos no grupo de países com baixa taxa de infecção”, diz Artur Correia, secretário executivo do comité cabo-verdiano para a luta contra o Sida. De acordo com os estudos mais recentes, só 0,8 % da população é seropositiva. A razão disso é que 97% da população aproveita bem as campanhas de informação sexual. “ Em cinco ou seis anos nós conseguimos fazer duplicar a utilização do preservativo. Isto é válido para mulheres, homens e também para os jovens. No que diz respeito aos jovens dos 15 aos 24 anos a utilização do preservativo passou dos 44% para os 80 porcento.
Politicamente, Cabo Verde é também um exemplo: em 1991 tiveram lugar as primeiras eleições livres da Àfrica negra. E depois disso, as eleições vêm acontecendo de forma transparente, aberta e pacífica. O governo mudou já por duas vezes entre o PAICV, sucessor do movimento liberal marxista, e o MPD, mais virado para a economia.
No entanto, um certo gosto amargo subsiste: depois da ascensão social de Cabo Verde muitos dos subsídios para a ajuda ao desenvolvimento foram extinguidos. E assim foi que, no ano passado, a Alemanha suspendeu os seus projectos de desenvolvimento nas ilhas.
(A Semana Online – 06.04.2008)

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