Novos clientes para a velha prostituição

6 04 2008

As calças de ganga até aí apertadas, que deixavam perceber uma proeminente barriga, saem sem o mínimo de sensualidade. Acto mecânico, Lurdes desaperta o amplo soutien. “São 30 euros por 20 minutos”, atira, fria e descomplexada. Os 15 anos de prostituição deram-lhe já o alheamento das sensações. E nem o facto de ter perante si um cliente de pouco menos de 30 anos, face aos seus 48, a espanta. “De vez em quando aparecem aí uns da tua idade, geralmente malta bairrista, que foi habituada a isto, a mim não me espanta nada”, remata.

Da janela da pensão Nova Goa, observamos uma ambulância que acaba de chegar ao Poço do Borratém, zona nas traseiras da Praça da Figueira, em Lisboa, conhecida como um dos principais pontos de prostituição de rua da cidade. A primeira ideia que nos vem à cabeça quando ouvimos as sirenes de emergência é a da que mais uma prostituta foi violentada. Possíveis agressores? Um cliente despeitado, o chulo violento, um ajuste de contas entre “colegas”, as hipóteses são quase tantas quantas as personagens que compõem o mundo da prostituição. Neste caso, a pessoa a precisar de socorro é um simples transeunte que torceu um pé nas escadas que dão acesso ao centro comercial em frente. Mas nem o súbito rebuliço incomoda as rotinas deste mercado do sexo. À esquina, alheia à confusão, uma mulher de cabelos oxigenados, de grosso cordão de ouro ao pescoço, e saltos altos brancos a imitar verniz dá umas baforadas de uma languidez crua num cigarro. O ritual resulta. Um cliente, nitidamente habituado ao código da situação, faz-lhe um sinal e entra na pensão. Momentos depois, a prostituta segue-o. “Apesar de também aparecerem uns miúdos, a maioria dos homens que nos procura são mais velhos, acima da casa dos 50, clientes habituais, que fazem disto uma rotina”, reconhece Lurdes, já vestida e nada desiludida por, desta vez, o cliente se ter recusado a usá-la como objecto sexual.

Para Carocha, aos 18 anos a desilusão é um dos seus muitos males. Encontramo-la poucos quilómetros acima da Praça da Figueira, junto ao Instituto Superior Técnico, acompanhada por duas prostitutas mais velhas, Maria, de 52 anos, e Teresa, de 37. Estas verdadeiras matronas da jovem acabada de chegar à prostituição – apenas com a 4.ª classe, e com aspecto de quem tem pouco mais de 14 anos, achou que este era o único trabalho que lhe restava, depois de ter sido rejeitada noutros – ainda a acompanham nos “serviços”. Com quatro dias de rua, Carocha tem medo do que os homens possam fazer sozinhos com ela num quarto. “E geralmente só aceito ir com velhos, que me procuram muito, se calhar por ter este ar de miudinha. Os mais novos, apesar de me pedirem muito, metem-me medo”, confidencia, no preciso momento em que um rapaz na casa dos 25 anos, calças de ganga, t-shirt verde e gel no cabelo, a chama ao lado. “Diz que é do Porto, está cá com uns amigos e dá- -me 50 euros para ir com ele para uma residencial”, conta pouco depois. “Não me apetecia ir com ele, mas se não for acabo por não ganhar nenhum hoje.” Nessa noite, Carocha teve a sua estreia a solo.

A tradição ainda é o que era

Luís cresceu e mora nos arredores do Cacém. Mas bem podia ser um daqueles jovens bairristas de que fala Lurdes. Hoje com 29 anos, cumpriu uma antiga tradição, que se julga mais ligada aos antigos costumes das pequenas aldeias do interior: perdeu a virgindade com uma prostituta. O motivo não foi o ter atingido a maioridade ou sequer ter sido chamado à tropa. “Aos 18 anos, nunca tinha tido namorada e já me andava a passar”, esclarece. Pouco eficiente nos jogos de sedução, a solução passou por Lola, uma velha prostituta bem conhecida daqueles que todos os dias a viam parada na berma do IC 19. “Estava farto de ver os meus amigos com namoradas e depois virem falar comigo de sexo e ter de fazer de conta que sabia do que estavam a falar”, conta Luís. Já o relato do ambiente que encontrou é tudo menos caloroso. “Lembro- -me que na altura paguei três contos (15 euros) e fui levado para um recanto na mata de Rio de Mouro (concelho de Sintra), onde havia um colchão velho rodeado de arbustos e papéis velhos. Aquilo fez-me imensa impressão e a Lola deve ter dado por bem empregue aquele dinheiro, porque acabei por não lhe dar muito trabalho”, recorda.

À porta do Marinheiro, no Cacém, Carlitos, 30 anos, assiste impaciente à conversa. “Vamos lá entrar, as gajas estão à nossa espera.” As “gajas” são nem mais nem menos do que as empregadas do bar de alterne, que em troca de bebidas oferecem fantasias sexuais aos que não se querem dar ao trabalho de as procurar pelos próprios meios. Sérgio, 26 anos, o mais novo dos três amigos, não quer entrar ainda na sórdida sala vermelha. “Elas esperam por nós, já nos conhecem, vimos cá quase todos os fins-de-semana.” Uma noite bem passada na periferia de Lisboa nunca fica por menos de 50 euros. Muitas vezes 75. Tudo é legítimo para trocar o cimento nas mãos de um, e as entregas porta a porta nas dos outros, pelo toque da pele de mulheres.

Quem espera…

Aos 29 anos, Neves cultiva entre os amigos a fama de mulherengo. Entre as suas façanhas, o jovem de Lisboa vangloria-se de ter “andando com quatro namoradas” ao mesmo tempo, “sem que nenhuma soubesse das outras”. No meio deste verdadeiro malabarismo emocional, Neves ainda consegue arranjar tempo para cumprir o ritual de fim-de-semana e ir com os amigos a bares de striptease. Desta vez, o destino é o Montijo, onde um deles faz segurança. À entrada, o corpulento amigo lança-lhes um inusitado aviso de boas vindas. “Epá, a minha namorada é uma das strippers, peçam-lhe para ela vos fazer sexo oral. Levem-na para o privado, que ela faz-vos umas coisas maravilhosas.” Mesmo perante a amável e, aparentemente, sincera dica, todos preferiram experimentar outras dançarinas. Russo, um jovem baixo, cuja calvice contrasta com os seus 25 anos, foi levado pelos amigos a desembolsar 45 euros para poder ter um contacto mais directo com uma loura. As promessas de sexo na sala privada granjearam junto da sua inexperiência. O resultado foi pouco mais do que frustrante. “Não lhe pude tocar. Eu ainda me entusiasmei e tentei mexer-lhe, mas ela não gostou da ideia e não voltei a tentar.” A envergadura dos colegas do seu amigo segurança fizeram-no recuar. “Mais valia ter guardado o dinheiro, se era para isto nem tinha vindo.” E acto contínuo abanonou o bar. Mal sabia o que estava a perder.

A sorte acaba por sorrir aos pacientes. Já depois do fecho do bar, bem para lá das quatro da manhã, Neves e os três amigos resistentes são convidados para um serão muito especial na casa do segurança, em Lisboa. “Uma maluqueira como eu nunca vi! Éramos dez, entre homens e strippers, e aí elas já não tiveram pudores.” Segundo Neves, fora dos holofotes do palco ou da meia-luz das salas privadas, “passa a valer tudo”.

Do Brasil sem amor

Michelly Mattos está acostumada a ser procurada no seu apartamento na Almirante Reis, em Lisboa, a horas impróprias. A “garota de programa”, como a própria se define no seu sotaque brasileiro do Rio de Janeiro, até recebe muitos clientes a meio do dia durante a semana no seu quarto forrado por quadros com mulheres nuas e um poster de Marilyn Monroe à cabeceira da cama, “homens que aproveitam a hora de almoço para vir dar uma relaxada”. Mas a partir de sexta-feira tudo muda. Ao fim-de-semana a maioria das marcações são para de madrugada, geralmente depois das quatro da manhã, quando a generalidade dos bares e discotecas fecha, o que não deixa margem para grandes dúvidas. “Os meus clientes são quase todos jovens. Eu não sei o que eu tenho para atrair tanta molecada (expressão brasileira para rapazes novos), mas em 30 pessoas que atendo em média numa semana, umas 25 têm menos de 30 anos.”

Vestida com uma saia de cabedal que pouco mais lhe cobre do que a cintura e um top de rede preta que lhe revela o peito empolado – embora garanta que nunca fez nenhuma operação plástica – Michelly em pouco se assemelha à personagem de jogadora de futebol que criou para o seu sítio na internet. Essas fotos, onde pouco mais usa do que as chuteiras, são um verdadeiro chamariz para jovens pretendentes a craques da bola, talvez por verem na loura de 26 anos uma sósia de Milene Domingues, antiga namorada do jogador brasileiro Ronaldo. Por 75 euros por meia hora, ou 100 por 60 minutos, Michelly cumpre todas as fantasias dos clientes. Por mais extravagantes que elas sejam. “Há homens que pedem para eu só usar instrumentos neles, outros que querem que eu passeie com os meus saltos altos no corpo deles. Regra geral, eu aceito tudo. As regras têm é de ser definidas quando chega o cliente”, explica.

No quarto ao lado, atepetado com passadeiras cor-de-rosa a combinar com a toalha da cama, Daniela preenche os tempos mortos entre as “visitas” dos clientes a ouvir música e a ler… Nietzsche. Ao contrário do que afirmam a directora de “O Ninho” ou as Irmãs Oblatas (ver caixa), esta brasileira de 27 anos é a prova viva de que existem universitárias ou licenciadas na prostituição. Mesmo que tenham tirado um curso de português-francês na Universidade do Rio de Janeiro.

Mais do que repartir a renda de 800 euros de um apartamento que tem apenas dois quartos e uma casa de banho, Daniela partilha com Michelly as fantasias mais arrevesadas dos clientes. “Às vezes vêm pessoas que querem fazer em grupo. Temos casos de quatro amigos que vêm e que nós ficamos com dois cada.” A juntar a isso, há um pouco de tudo: homens que gostam que lhes batam, famosos que fazem gala do seu nome para conseguir um serviço mais personalizado, “e até um pedófilo em potência, que queria que me fizesse passar por menininha”. No outro extremo estão aqueles que aproveitam o facto de Daniela gostar de literatura e filosofia e que querem apenas falar. “Procuram uma psicóloga”, conclui. Em comum, têm a idade, quase todos na casa dos 30 anos. “E muita loucura sexual”, acrescenta Michelly. “Nossa, eu nunca vi uma coisa assim. Vocês portugueses são mesmo viciados em sexo.”

Casais pagam para satisfazer fantasias femininas

 

Quando perguntamos a Daniela se também é procurada por casais, a carioca não só nos responde com o maior desassombro que sim, que vários casais recorrem aos seus serviços experimentados, como ainda nos informa que “a mulher é a mais entusiasta da fantasia, aquela que leva o casal a experimentar sexo a três e que mais goza com a relação, que quer fazer mais coisas”. Michelly Mattos confirma a versão da compatriota e adianta que “mesmo quando o homem sai do quarto, a mulher quer continuar a mexer e a fazer coisas, tem enorme curiosidade”. A oferta especializou-se de tal forma para este género de procura que em bares de alterne existe mesmo a modalidade de casal, que, em média, nunca fica por menos de 60 euros.

Marisa, 25 anos, e Mário, 31, ainda não são clientes de Daniela. Mas podiam ser. Pelo menos se depender de Marisa. “Adoro o corpo de uma mulher, excita-me muito mais do que o de um homem, e geralmente o Mário leva-me a clubes de strip para me pagar privados”, relata com um sorriso na cara, como se estivesse a ver uma mulher a fazer uma dança sensual à sua frente. Para Mário, a situação só lhe pode trazer vantagens. “Em primeiro lugar, mesmo se fizéssemos sexo a três seria com outra mulher, o que nunca seria desagradável, e depois quando a levo a clubes de strip, quando chegamos a casa acaba por sobrar sempre alguma coisa para mim. Aconteça o que acontecer, sou sempre eu que saio a ganhar”.

Quem olhasse para este casal sentado em frente ao palco do clube Passerelle, junto ao Campo Pequeno, em Lisboa, teria dúvidas em perceber quem estaria a retirar mais prazer de ver uma loura de Leste a despir-se. Enquanto a esmagadora maioria dos homens se limitava a ficar atrás do palco, na curta faixa para fumadores, o que levava as dançarinas a circundarem à sua volta, o casal da zona do Estoril sobressaía no meio de uma sala quase vazia. E mais ainda o interesse de Marisa. Quando começava a música, a jovem não tirava os olhos do circulo de aço onde as dançarinas fazem as suas piruetas. Algo a que nem a maioria dos homens assistia, entretidos em verdadeiras batalhas de charme com bailarinas seminuas que lhes pediam bebidas. “É que o que me atrai não é só a parte sexual da coisa, até porque eu sou heterossexual e não tenho dúvidas disso. Isto para mim tem qualquer coisa de arte erótica”, explica, como se tivesse de se defender de um qualquer preconceito sexual.

Mais do que grandes conceitos artísticos ligados ao erotismo, é mesmo o striptease como técnica de sedução que fascina Rita. “Eu se pudesse punha um varão destes na cozinha”, diz- -nos em tom de troça, enquanto assiste a mais um strip no Champagne, um dos clubes mais conhecidos de Lisboa. A esta técnica de marketing de Oeiras nem sequer lhe faz confusão os espectáculos masculinos, que já presenciou em despedidas de solteiro. “Mas aos 29 anos nunca tinha entrado num clube destes e tinha uma curiosidade mórbida para conhecer estes ambientes.” Conclusão: “Adorei. A decoração até é sóbria, em tons de negro, com umas luzinhas de lado, nada de muito espampanante, mas não deixa de cheirar a sordidez, o que me encanta”, afirma, enquanto nos pisca o olho, espécie de chamada de atenção para o lap dance – dança personalizada no colo do homem, em que só à striper é permitido tocar no cliente – que se desenrola atrás de nós e que deixa o homem que a recebe com ar de quem vai ter um colapso cardíaco.

A ter em conta a oferta do mercado na área das aulas de danças eróticas, Rita não é caso raro entre as mulheres, que cada vez mais procuram novas técnicas de sedução. Em Portugal, um curso de quatro aulas de pole dance, ou dança de varão, custa 185 euros, ao passo que as mulheres que queiram ter uma hora de aula avulso e personalizada tem de desembolsar 55 euros. Se Rita decidir, de facto, colocar um varão de striptease no meio da cozinha, pode comprar um por cerca de 90 euros.

Da rua paras as instituições sociais

“As Irmãs Oblatas são uma boa ajuda. No meu caso encaminharam-me para regularizar a minha situação.” Apesar de ter adoptado o “nome de guerra” de Jessica, na realidade esta jovem de 26 anos emigrou do Leste da Europa para Portugal. Há três anos que é figura conhecida de quem passa na Rua Artilharia Um, em Lisboa, e até já se cruzou com o antigo Presidente Jorge Sampaio. Agora, conta com a ajuda das equipas de rua das Irmãs Oblatas para se legalizar.(Pedro Vilela Marques/Diário  Notícias – 05.04.2008)

Jessica é uma das cerca de 15 emigrantes com que a equipa de rua das Irmãs destinada à zona da Artilharia Um contacta todas as noites. Desse grupo, como nos conta a Irmã Fernanda Lopes, responsável pelas equipas constituídas cada uma por três pessoas, apenas três romenas rejeitam qualquer ajuda. Nestes casos, os assistentes sociais e voluntário que integram os grupos de rua respeitam a vontade das prostitutas e afastam-se. “Nós não somos nada moralistas em relação às mulheres. Já tive um caso em que uma me disse que estava ali para fazer sexo e que era isso que ia acontecer e nem sequer quis receber os preservativos que distribuímos, o que eu entendi perfeitamente.”

Nascida em Viseu há 68 anos, a Irmã Fernanda emigrou para o Brasil com 20 anos e até aos 65 pertenceu às Oblatas de Curitiba onde desempenhava o mesmo papel, o que explica a sua abertura de espírito em relação às reacções das prostitutas. “Temos de saber abordar estas mulheres colocadas perante situações de abandono, em que deixam de ter fé em si próprias, de gostar do corpo, se sentem desamparadas.” Como exemplo, a freira conta o caso de uma mulher que se prostituiu até ao quarto mês de gravidez e que só parou depois da intervenção da Obra Social das Irmãs, que a encaminhou para o Centro de Acolhimento e Orientação da Mulher, no Intendente, onde são levadas a consolidar um projecto de vida alternativo. Este processo inicia-se com o encontro na rua e passa depois pelo acompanhamento em ambulatório, a formação laboral para apoio a idoso e à comunidade, até ao acompanhamento na integração.

Em relação aos clientes, a Irmã Fernanda defende que não existe um perfil único do homem que procura a prostituição de rua, e que as mulheres garantem que os jovens continuam a recorrer em escala considerável aos seus serviços. A mesma ideia é defendida pela directora do Ninho, instituição criada há 40 anos e a primeira a prestar acompanhamento social às prostitutas em Portugal. Segundo Inês Fontinha, se em meios pobres o cliente tende a preocupar-se menos com o aspecto da mulher, os clientes que vêm de ambientes sofisticados preocupam-se com a maneira de vestir e de comportar da mulher, que desta forma se adapta à origem social do cliente. Neste caso, “não há oscilações na procura, que existe durante todo o mês”, ao contrário das classes mais baixas, que recorrem à prostituição consoante a sua própria situação económica mensal.

Com base nesta tese, tanto as Oblatas como Inês Fontinha, licenciada em Sociologia, argumentam que as histórias sobre estudantes universitárias que se prostituem para pagar os estudos são meros mitos. “Nós a principio distinguíamos entre prostitutas de elite e estigmatizadas, precisamente porque havia essa ideia das estudantes, mas apercebemo-nos que essa categorização não faz sentido nenhum. Elas adaptam-se à oferta, mas continuam a pertencer a classes baixas”, defende a directora de O Ninho. A Irmã Fernanda Lopes concorda e acrescenta que esta “é uma técnica de marketing das prostitutas, que ao dizerem que são universitárias estão a cumprir as fantasias sexuais dos clientes”.

Inês Fontinha afirma que, ao contrário do que se possa pensar, estas prostitutas de luxo estão mais desprotegidas do que as que trabalham na rua e que têm a protecção física do proxeneta, que defende a sua “mercadoria”. Pelo contrário, as prostitutas pagas por homens estão entregues aos caprichos de clientes.

 

 





Número de idosos que se queixaram à APAV aumentou 20 por cento em 2007

6 04 2008

Em 2007, foram 656 as pessoas com mais de 65 anos que recorreram à Associação de Apoio à Vítima (APAV), o que representa um aumento de 20,4 por cento em relação ao ano anterior. Um facto que, na perspectiva da presidente daquela instituição, Joana Marques Vidal, resulta de uma maior consciência dos seus direitos por parte dos idosos que, no capítulo da violência doméstica, se queixam, principalmente, de maus tratos psíquicos.
De acordo com os dados divulgados ao final do dia de ontem, no ano passado foram apresentadas à APAV – com pedido de apoio psicológico ou jurídico – 340 queixas por crimes de maus tratos psíquicos, mais 137 do que no ano anterior. Se juntarmos a estes as queixas por ameaças e coacção (177, mais uma que em 2006) e aquelas que foram feitas por difamação e injúrias (155, contra 112 no ano anterior), verifica-se que não são as agressões corporais, no âmbito doméstico, que mais levam os idosos a pedir ajuda.
“Registámos igualmente um número crescente de queixas por maus tratos físicos [299 no ano passado, mais 45 do que em 2006], mas fica muito claro, nos pedidos de apoio, que os maus tratos psicológicos representam um problema gravíssimo para os idosos portugueses”, avalia Joana Marques Vidal. Segundo diz, as pessoas com mais de 65 anos queixam-se, principalmente, de serem insultadas, desvalorizadas e humilhadas pelos familiares. “Chamam-lhes velhos, dizem-lhes que só incomodam, que não valem nada, que mais valia que morressem”, exemplifica.
A dirigente da APAV ressalva que o número de pedidos de ajuda registados na associação é inferior ao dos crimes contra idosos que motivaram queixa judicial e, por maioria de razão, aos efectivamente cometidos. E, nessa medida, alerta para a necessidade de dar especial atenção a esta matéria, “produzindo investigação académica que permita conhecer melhor o fenómeno” e, simultaneamente, “aumentando as acções de sensibilização da comunidade para a necessidade de apoiar os mais velhos e de denunciar os crimes que contra estes são cometidos”.
Ainda para combater a violência doméstica contra idosos, Joana Marques Vidal defende a generalização de apoio àqueles que cuidam de familiares idosos e que, por falta de condições psicológicas, sociais e materiais, necessitam dessa ajuda.
A presidente da APAV realça, contudo, que não é apenas no âmbito da violência familiar que há motivo de preocupação. No total, e tendo em conta também os crimes contra as pessoas e a humanidade, os crimes contra o património, os crimes contra a vida em sociedade e os crimes rodoviários, foram 1245 as queixas apresentadas por idosos no ano passado (mais 148 do que em 2006).
Em 2005 foram registadas, no total, 802 queixas e não “quase cinco mil” como, por lapso, foi ontem transmitido por alguns órgãos de comunicação social. Aquele número – 4737 – corresponde, sim, ao número de queixas por todo o tipo de crimes, contra idosos, registadas na APAV entre 2000 e 2005, rectificou Joana Marques Vidal.

(Graça Barbosa Ribeiro/Público – 05.04.2008)




Portugal é dos que menos doam para a Ajuda Pública ao Desenvolvimento

6 04 2008

Segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulgado ontem, Portugal registou uma das maiores quebras entre países da União Europeia (UE) na Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) em 2007. Num ano marcado pelo afastamento do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento (CAD) relativamente às metas de crescimento definidas, este relatório indica que Portugal desembolsou qualquer coisa como 403 milhões de dólares (256 milhões de euros) em ajudas em 2007, menos 9,4 por cento do que no ano anterior.
Entre os países da UE, apenas o Reino Unido (menos 29,1 por cento), a França (menos 15,9 por cento) e a Bélgica (menos 11,2 por cento) registaram uma descida maior na APD, sendo que, “excluindo as operações de perdão de dívida externa, a ajuda cresceu nestes países, menos em Portugal e no Reino Unido”, refere o relatório.
Também a percentagem do PIB doada por Portugal, com uma descida de 0,21 para 0,19 por cento, se apresenta como a segunda mais baixa entre países da UE, ficando apenas acima da Grécia. Face aos restantes membros do CAD, Portugal consegue superar a percentagem do PIB doada por Estados Unidos (0,16 por cento) e Japão (0,17 por cento), ainda que as descomunais diferenças de PIB destes dois países em relação a Portugal se reflictam de forma marcante nos números da doação, com os americanos a doarem 21.800 milhões de dólares e os japoneses perto de 7700 milhões.
O relatório aponta que a meta in-
termédia de aumentar as ajudas para 0,50 por cento do PIB até 2010 assumida pelo comité na cimeira do G8 de Gleneagles em 2005 não está a ser cumprida, verificando-se mesmo um decréscimo. As excepções são a Espanha, a Áustria, a Finlândia, o Luxemburgo e a Irlanda, cuja percentagem do PIB doada aumentou mas não impediu que a média de ajudas dos países da UE registasse a primeira quebra desde 2000.
Confrontado com estes números, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, reagiu em comunicado, apelando ao aumento das contribuições dos países de forma “mais previsível e sustentável”.
“Estamos preocupados com esta tendência porque não podemos reduzir a ajuda ao desenvolvimento ao mesmo tempo que tentamos alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM). Precisamos de mais dinheiro para reduzir para metade a pobreza extrema, conseguir que cada criança tenha educação primária, além de melhorar outras condições das pessoas que vivem em países abrangidos pelos ODM”, referiu Durão Barroso.
A OCDE avança ainda que a maioria dos países doadores não tem possibilidades de atingir as metas assumidas para 2010, acrescentando que para que tal aconteça serão necessários “aumentos sem precedentes” dos níveis de ajuda. A somar aos 11 mil milhões de dólares previstos para doações até esse ano pelo CAD, são determinantes mais 38 mil milhões de dólares por forma a atingir as metas definidas em 2005.

256 valor em milhões de euros da contribuição de Portugal em 2007. Este número representa uma queda de 9,4 por cento em relação a 2006. Apenas outros três países da UE registaram uma queda maior.

(Bruno Gomes/Público- 05.04.2008)




Mais de cem menores de seis anos abusados anualmente

6 04 2008

O impacte do processo Casa Pia tornou “a prostituição infantil mais discreta”. “A existência de redes de transporte acessíveis e de abusadores com capacidade económica potenciam o resguardo desta actividade para residências particulares ou estabelecimentos de hotelaria mais discretos”, dispersando-a por Lisboa, observa o subintendente Dário Prates. No Parque Eduardo VII, há prostitutos maiores de 18. “Se houver um cliente que procure um menor para fins de exploração sexual, facilmente um “prostituto” se transforma num “angariador” e promove o contacto com o menor, em data e local a combinar”.

A idade das vítimas de crimes sexuais é cada vez mais baixa. Desde 2003, a Polícia Judiciária abriu 676 inquéritos a envolver crianças até cinco anos. Treze ainda nem sequer tinham celebrado o primeiro aniversário, 22 contavam entre 12 e 24 meses, 48 iam a caminho dos três anos, 154 a caminho dos quatro, 187 a caminho dos cinco, 256 a caminho dos seis.
Os números constam do relatório exploratório do Grupo de Prevenção do Abuso e do Comércio Sexual de Crianças Institucionalizadas, constituído pelo procurador-geral da República, Pinto Monteiro – após a suspensão de um educador de juventude da Casa Pia de Lisboa por indícios de “violação grave” do dever de protecção das crianças -, com a missão de fazer “um levantamento, junto das instituições do Estado, na área da comarca de Lisboa”, da situação dos menores internados e de o acompanhar com “um estudo da criminalidade participada e conhecida”.
“A recente mediatização mórbida da matéria pedofilia-abuso sexual de crianças tem contribuído para uma visão mais emotiva do que crítica deste fenómeno”, salienta Maria José Morgado, coordenadora da equipa, no relatório exploratório ontem divulgado. De repente, a sociedade passou da “indiferença” e da “ignorância dos direitos da criança para uma atitude por vezes doentia.”
O relatório oferece uma visão multifacetada. Com base nos estudos da Unidade Nacional de Informação, o coordenador de investigação criminal Carlos Farinha apresenta aquilo que Morgado encara como “uma verdadeira teoria geral das infracções sexuais contra crianças e jovens”.
O número de denúncias subiu em flecha em Portugal com o eclodir do escândalo Casa Pia, mas parece estar a estabilizar: “Este aumento, traduzido na triplicação da casuística de 2002 a 2007, atinge patamares que se cifram em cerca de 1400 casos por ano”. Apesar do achaque nacional, só cerca de 3,62 dos inquéritos envolvem “crianças institucionalizadas num contexto de assistência”. Ao mesmo tempo, “referencia-se 1,25 de situações de exploração sexual de crianças e jovens”.
Acolhimento prolongado
Maria José Morgado não quer menorizar aqueles 3,62 por cento – que correspondem a crimes ocorridos no interior das instituições vocacionadas para proteger menores. “É nas instituições de acolhimento que vêm a concentrar-se factores de risco”, afirma a procuradora-geral adjunta. Como a história de vida, “a massificação do tratamento”, o carácter “excessivamente abstracto da tutela legal”.
A permanência é longa (no final de 2006, metade dos acolhidos em lar já lá estava há mais de quatro anos), a mobilidade baixa, a história familiar/social das crianças internadas “de acentuada desestruturação familiar, alcoolismo, prostituição, toxicodependência, abandono, negligência, maus tratos físicos e psíquicos, abusos sexuais”. A história de risco prolonga-se, o que pode explicar a razão pela qual “a maior parte dos crimes sexuais contra crianças/jovens acolhidas acontece no exterior das instituições”.
Uma tendência qualificada por Morgado como “muito preocupante” concerne à “acentuada diminuição da idade das vítimas”. Desde 2003, em média, a um nível nacional, o número de inquéritos investigados pela PJ a envolver crianças até cinco anos ultrapassa uma centena. Na generalidade dos crimes, as vítimas não têm idades tão baixas. E isto obriga a repensar o sistema. A ajustá-lo para melhor atender quem não chega pelo seu pé, não se senta na sala de espera preparado para ali ficar horas. Se a criança aguarda horas, “já não quer colaborar, já só quer é ir embora, para ela aquilo é uma seca”, tem defendido Farinha.
O programa de acção (ver texto ao lado) tenta evitar que o processo penal se converta numa segunda forma de vitimização. A tese de mestrado de Catarina Ribeiro – A Criança na Justiça: Trajectórias, significados e sentidos do processo judicial em crianças vítimas de abuso intrafamiliar – mostra que cada menor conta, em média, oito vezes, “os factos em investigação”. E este dado está subestimado: não contempla “o número de vezes que a criança é interrogada pelos familiares, pelos adultos com quem convive, pelos colegas, pelos professores.”

O “crime-sem-lugar” nenhumhttp://jornal.publico.clix.pt/img/pxTRANS.gif

Defendida a criação de base de dados sobre pornografia e exploração sexual na Net
Só no ano passado, a directoria de Lisboa somou 67 inquéritos. É “urgente” construir uma base de dados. E “aprovar os mecanismos processuais adequados à perseguição da prostituição e pornografia de menores na Internet, com prazo razoável para a salvaguarda de dados de tráfego e maior flexibilidade de acesso urgente pela polícia”. Esta é, pelo menos, a ideia do grupo de prevenção.
A matéria “crianças e jovens em risco” assumiu “uma dimensão global”. O próprio conceito de risco alargou-se, como recorda o inspector-chefe da PJ Rogério Bravo. “A investigação criminal depara-se com dificuldades específicas na identificação do agressor e das vítimas, na localização geográfica das condutas, na eficácia da perseguição penal.” E este “crime-sem-lugar nenhum é cada vez mais um desafio às justiças nacionais-territoriais, demasiado lentas e desajustadas”. O inspector-chefe “defende um tipo de abordagem flexível e integrado, não exclusivamente baseado na repressão, mas sim na criação de grupos de intelligence”.

Estratégia deverá assentar na articulaçãohttp://jornal.publico.clix.pt/img/pxTRANS.gif

20 pessoas foram acusadas pelo DIAP de Lisboa, que inclui Amadora, por suspeita da prática de crimes sexuais contra crianças
a Há um programa de acção para Lisboa definido pelo Grupo de Prevenção. Na certeza de que “seria vantajoso” as entidades que trabalham a criminalidade sexual contra crianças se articularem. Lisboa lidera o número de inquéritos de crimes sexuais contra crianças. O ano passado, entraram 561 na área da PJ (maior do que a do distrito) e o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa acusou 20 indivíduos.
É grande o fosso entre o número de casos investigados e o número de acusações deduzidas pelo DIAP de Lisboa, que tem uma secção especializada em crimes desta natureza – a 2.ª secção. O exercício dos últimos seis anos mostra-o: 203 acusações, 906 arquivamentos.
O grupo fez o seu trabalho em três fases: “estudo, avaliação e definição de objectivos consequentes”. O programa de acção aposta na manutenção do grupo “na actual configuração ou sob a forma de observatório”. Na adequação de orgânicas, funcionamento de serviços e espaços físicos.
Apesar de ter uma secção especializada, o DIAP não dispõe de espaços físicos adequados a receber um menor. Para uma criança não se sentir desajustada bastará qualquer coisa como folhas e lápis de cor, um boneco, desenhos colocados na parede. “Importância capital assumem as salas de vidro unidireccional”, indica a procuradora Maria José Morgado, no fim do relatório exploratório, numa alusão às salas de interrogatório. Para permitir “a intervenção de várias estruturas” e, deste modo, evitar submeter a criança à repetição de perguntas, afastar as “consequência nefasta de excesso de investigadores em contacto directo” com ela.
O grupo qualifica a formação, a especialização e a supervisão de “indispensáveis” e elege a articulação como palavra-chave. A intervenção conjunta passa por definir uma rede (assente numa “listagem de contactos institucionais”), recensear competências legais, usar guias de orientação de entrevistas, garantir a preservação e o acautelamento de vestígios.

 

Agressores de crianças mais velhos que outros agressoreshttp://jornal.publico.clix.pt/img/pxTRANS.gif

O estudo foi realizado com uma amostra de 116 reclusos das cadeias do
Porto, Matosinhos e Paços de Ferreira
A Cuidado. Algumas frases contidas na tese Distorções cognitivas e agressão sexual: estudo exploratório com agressores intra e extrafamiliares, defendida por Armando Coutinho Pereira na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, podem chocar os leitores mais sensíveis. Como estas, proferidas por um recluso: “Para mim sexualidade é uma questão de amor, para mim foi amor. Tinha mais prazer com ela, com a miúda, do que com a mãe. Era mais regular”.
Seleccionou 116 homens, dos 18 aos 72 anos, condenados por crimes sexuais, a cumprir pena no distrito do Porto. Obteve uma média de idades (39,4) superior à da população reclusa em geral (35,4 em 2004) por causa dos abusadores de crianças. A idade média dos que fazem vítimas adultas é de 33 anos, enquanto a dos que fazem vítimas menores é de 43. Motivo? O investigador pegou nas 32 entrevistas “com mais conteúdo” e procedeu a uma análise qualitativa. Verificou que, nos abusadores de menores, “é muito importante a proximidade”. Mais do que as características físicas das vítimas, focam o seu comportamento.
Quase metade (49 por cento) dos agressores sentiu atracção “por crianças que pareciam ser pouco confiantes ou estar sozinhas ou tristes”. Um deles verbalizou: “Não consigo ver uma criança sozinha, por isso cuidava dela, dava-lhe atenção”. Perto de metade (46 por cento) acreditava ter “uma relação especial com a criança” que vitimizara. De um modo geral, usam um conjunto de crenças para se legitimar. Muitas vezes, referem-se ao acto como um jogo, uma prática educativa, uma forma de amor. “No fundo, estamos a falar de sexualidade e do muito que se sabe e do muito que não se sabe de menores – não se sabe muito bem onde termina o afecto e começa a agressão”, diz o psicólogo.
A tendência para minimizar as consequências é menor quando a vítima não é da família. Sobretudo os agressores sexuais de adultos tendem a afirmar que não planearam o acto, “desvalorizando a sua conduta, remetendo-a para a contingência do momento”. Com frequência, desculpam-se com o consumo de substâncias psicoactivas (72,4 consome alguma coisa). “Comecei a beber com 16 anos (20 “Favaios” com cerveja pela manhã, mais vinho com cerveja (um litro), há quem diga. As distorções funcionam como um modo de justificar um comportamento. E o não confronto resulta na cristalização desse comportamento, avisa o autor. Que se passa? Por um lado, nas cadeias “não há programas estruturados” para agressores sexuais. Por outro, “como uma das características mais evidentes do agressor sexual é a sua insinceridade, os elementos da orgânica prisional rapidamente adoptam estratégias de não confronto com a situação, com excepção para o início do cumprimento de pena aquando da mediatização do caso, que tantas vezes resulta em agressões por parte dos demais reclusos e ou guardas prisionais”. É mesmo comum estes reclusos serem “aconselhados pelas chefias das cadeias a não revelar” o seu crime.
Uma última nota: o grosso das vítimas é do sexo feminino. O investigador concluiu que os agressores “têm um conceito muito redutor e primário” de mulher. Vigora a ideia de “mulher submissa, que existe para servir, que depende economicamente do elemento masculino do agregado, que procura e está sempre disponível para o acto sexual”.
A categoria emergiu dos relatos. “A mulher deve ser honesta, dar o carinho que o homem precisa, ter uma maneira diferente”, ajuizou um. “Quando saía de casa dava algumas ordens: casa arrumada, jantar feito quando regressasse, miúdos limpinhos, e roupa pronta para tomar banho e sair para o café”, diz outro. “Para mim a mulher não precisa de trabalhar, não sou desses, porque depois os patrões tentam fazer-se a elas”, referiu ainda outro.

 

(Ana Cristina Pereira/Público – 05.04.2008)





Etnia cigana. A mais discriminada

6 04 2008

8 de Abril – Dia Internacional dos Ciganos:

Há 760 famílias de etnia cigana a viver nos bairros municipais da capital, constituidas por 3.296 indivíduos, o que equivale a 4,3% da população total. “Concluímos que têm mais visibilidade do que expressão numérica”, esclarece Maria Helena Correia, da Gebalis. O levantamento, realizado pela empresa gestora dos bairros municipais, apurou que esta minoria está presente em 38 dos 64 bairros, sendo mais numerosa no Bairro Alfredo Bensaúde (Olivais), Murtas (Campo Grande) e Eduardo Bairrada (Ajuda). Estas famílias foram realojadas entre 2000 e 2004, 40% das quais vieram dos extintos bairros do Vale do Forno, Galinheiras e 2 de Maio (Ajuda). Cerca de 24,1% dos agregados têm seis ou mais pessoas (33% com menos de 15 anos), e 1/4 está sobrelotado.

Estima-se que existam entre 6500 e 7000 ciganos em Portugal com habitação móvel ou residência fixa sem condições de habitabilidade, o que representa entre 16% e 18% da população. A dimensão do fenómeno da precariedade habitacional ligada à etnia cigana foi apurada pelos investigadores Alexandra Castro e André Correia, do Centro de Estudos Territoriais do ISCTE, e vai ser divulgada a 8 e 9 de Abril no Seminário Internacional ‘Ciganos, Território e Habitat’. O estudo frisa também o carácter forçado da mobilidade. No encontro serão igualmente apresentados os casos particulares de Aveiro, Mondim de Basto, Coimbra, Lejana de Cima (Faro), Santo Tirso, Lagoa e Barreiro.

(Expresso-05.04.2008)




Por uma geração livre do HIV

6 04 2008

Nações Unidas, 04/04/2008 – A Organização das Nações Unidas intensifica seus esforços para criar uma geração de meninos e meninas que nasçam livres do vírus da deficiência imunológica humana (HIV), causador da Aids – doença que devasta particularmente a África subsaaraina. Um informe da ONU, divulgado ontem, diz que conseguir “uma geração livre do HIV é possível”. Estima-se que 290 mil menores de 15 anos morreram no ano passado por causa da Aids e que outros 12,1 milhões perderam seus pais e mães, um ou ambos, devido à expansão da pandemia.

“Para milhões de crianças, o HIV e a Aids alteraram cruamente a experiência de crescer”, enfatiza o estudo. Além disso, milhões experimentaram “um aprofundamento da pobreza, foram forçados a abandonar a escola e sofreram discriminação em conseqüência da epidemia”. O documento “A infância e a Aids” destaca que, segundo dados de 2007, a maioria dos 2,1 milhões de crianças de vivem com o HIV foi infectada durante o período de gestação, durante o parto ou na fase de amamentação. Os jovens entre 15 e 24 anos representam aproximadamente 40% dos novos contágios com o HIV entre todas as pessoas maiores de 15 anos.

“As crianças e os jovens de hoje não conhecem um mundo livre da Aids”, disse a diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Ann Veneman. “Milhares morrem por causa da doença a cada ano. Milhões perderam seus país ou quem cuidava deles. As crianças devem estar no coração da agenda global da Aids”, acrescentou. Segundo a pesquisas, crianças e adolescentes são os mais vulneráveis diante da infecção, os menos preparados para se protegerem e os que têm mais em jogo em matéria de controle da pandemia da Aids.

A campanha para conseguir uma geração livre da doença tem sua origem em uma iniciativa da ONU de outubro de 2005 chamada “Unidos pela infância, unidos contra a Aids”. O estudo divulgado nesta quinta-feira é uma iniciativa conjunta do Programa conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida), a Organização Mundial da Saúde e o Unicefe. O documento passa em revista os avanços obtidos e os desafios pendentes em quatro áreas, conhecidas como “os quatro Ps”. Trata-se de prevenir o contágio pelo HIV de mais para filhos, prover tratamento pediátrico, prevenir a infecção entre adolescentes bem como entre pessoas jovens, proteger e dar apoio às crianças infectadas com o vírus.

Embora persistam alguns problemas de financiamento, diz o documento, tanto os governos quanto os doadores estão destinando maiores fundos à prevenção, ao tratamento e a esforços voltados à proteção. Em 2007, foram investidos US$ 10 bilhões para combater a Aids, contra US$ 6,1 bilhões de 2004. Na lista de “êxitos e progressos”, o estudo destaca que a maioria das nações está apresentando “progressos substanciais” para evitar a transmissão do vírus HIV de mãe para filho, particularmente na África subsaariana. Nas nações de rendas baixa e média, a proporção de grávidas que recebem tratamento com anti-retrovirais, para reduzir os riscos de contágio, aumentou de 10$ em 2004 para 23% em 2006.

“Merece destaque o sustentado progresso realizado na África austral e oriental, berço da maioria das crianças infectadas recentemente. A prioridade é implementar novas iniciativas e estender as que já foram testadas e demonstraram sua efetividade”, recomenda o informe. Além disso, reclama ações em quatro áreas. Primeiro, fortalecer os laços comunitários que são fundamentais para um enfoque de luta contra a Aids centrado nas crianças. Também propõe reforçar os sistemas de saúde, educação e assistência social que são chave para intervir efetivamente em apoio às crianças afetadas pelo HIV e pela Aids.

Um terceiro aspecto é integrar os serviços de prevenção do contágio de mãe para filho nos programas de cuidados maternos, aos recém-nascidos e de atenção à saúde das crianças. Por fim, o estudo recomenda que se deve reforçar as bases de dados e a coleta de estatísticas para documentar os avanços e as carências e redobrar o compromisso na luta contra a enfermidade. O diretor-executivo da Onusida, Peter Piot, disse que se conseguiu importantes progressos no tratamento das crianças e na prevenção do contágio do HIV de mãe para filho. Mas, admitiu, “há muito por ser feito para prevenir o HIV entre as crianças e os adolescentes que quisermos seguir um caminho importante na tendência da epidemia”. (IPS/Envolverde)

(Thalif Deen/Envolverde/IPS – 04.04.2008)




Cabo Verde: A Ascensão Africana

6 04 2008

«Os últimos meses não poderiam ter sido melhores para Cabo Verde», escreve a revista alemã «Africa Live», que se publica em Berlim. Esta publicação dedicada a questões africanas lança um olhar sobre a «experiência cabo-verdiana». Dado o seu interesse, «asemanaonline» transcreve aqui o artigo, com a devida vénia.

 

Os últimos meses não poderiam ter sido melhores para Cabo Verde: primeiro a União Europeia firmou uma parceria especial com o arquipélago que se situa na costa oeste africana. Depois, o país aderiu à OMC (Organização Mundial do Comércio) e a seguir, a 1 de Janeiro, elevou-se oficialmente à categoria de países de desenvolvimento médio, conforme o relatório das Nações Unidas. E foi assim que Cabo Verde deixou o grupo de países em vias de desenvolvimento, os mais pobres. Cabo Verde é o segundo país africano, após o Botswana, a registar esta ascensão.

Para obter este estatuto o país teve que atingir certas metas económicas e sociais. De acordo com os dados das Nações Unidas referentes ao desenvolvimento humano, nove em cada dez crianças cabo-verdianas frequentam a escola. Comparativamente, a média africana é de sete crianças escolarizadas em dez.

 

De resto, em Cabo Verde o número de meninas a frequentar a escola é maior que o de rapazes. Isto também não é comum em África. O governo cabo-verdiano investe um quarto do seu orçamento na educação. Está assim bem acima da média africana. Não encontramos resultados destes a não ser no Quénia, Lesoto e Namíbia.

 

Também na área da saúde o investimento é grande. Basílio Mosso Ramos, o Ministro da Saúde, chama a atenção para o facto da evolução do país no domínio da saúde ter sido decisiva para que Cabo Verde passasse de país de baixo rendimento para país de rendimento médio. De acordo com o ministro, os indicadores avançaram muito. Há somente 30 anos que, em 1975, a mortalidade infantil era de 108 crianças por cada mil. “Actualmente estamos abaixo dos 30. Tal facto mostra-nos o caminho já percorrido. Hoje em dia, para nós, não se trata mais de quantidade mas sim de qualidade”, esclarece o ministro. Comparando: em Angola, que assim como Cabo Verde é uma antiga colónia portuguesa, um quarto das crianças morrem antes de completarem cinco anos – um número oito vezes superior a Cabo Verde. E isto tendo Angola o mesmo rendimento per capita que Cabo Verde.

 

Contrariamente a Angola, Cabo Verde não dispõe de matérias primas que valham a pena mencionar. Não tem petróleo, nem diamantes, nem cobre. As divisas que entram no país vêm principalmente das remessas dos cabo-verdianos que vivem fora do país e dos turistas que vistam as ilhas. Mas Cabo Verde transformou a penúria de matérias primas em qualidade; foi assim que investiu nos seus 518.000 habitantes, ou seja, na educação e na saúde.

 

Por comparação com o continente africano, a esperança de vida de 70 anos é impressionante – no vizinho Senegal a média da esperança de vida é de 61 anos e em Angola chega a cair para os 41 anos. O que também impressiona em Cabo Verde é a taxa extremamente baixa de seropositivos. “ Depois de 20 anos a conviver com o Sida estamos no grupo de países com baixa taxa de infecção”, diz Artur Correia, secretário executivo do comité cabo-verdiano para a luta contra o Sida. De acordo com os estudos mais recentes, só 0,8 % da população é seropositiva. A razão disso é que 97% da população aproveita bem as campanhas de informação sexual. “ Em cinco ou seis anos nós conseguimos fazer duplicar a utilização do preservativo. Isto é válido para mulheres, homens e também para os jovens. No que diz respeito aos jovens dos 15 aos 24 anos a utilização do preservativo passou dos 44% para os 80 porcento.

 

Politicamente, Cabo Verde é também um exemplo: em 1991 tiveram lugar as primeiras eleições livres da Àfrica negra. E depois disso, as eleições vêm acontecendo de forma transparente, aberta e pacífica. O governo mudou já por duas vezes entre o PAICV, sucessor do movimento liberal marxista, e o MPD, mais virado para a economia.

 

No entanto, um certo gosto amargo subsiste: depois da ascensão social de Cabo Verde muitos dos subsídios para a ajuda ao desenvolvimento foram extinguidos. E assim foi que, no ano passado, a Alemanha suspendeu os seus projectos de desenvolvimento nas ilhas.

 

(A Semana Online – 06.04.2008)




Relatório do Unicef divulgado nesta quinta-feira, um terço dos jovens brasileiros não usam camisinha

6 04 2008

Quase um terço dos brasileiros entre 15 e 25 anos de idade ainda não usam preservativos em suas relações sexuais. O alerta é do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Ainda assim, o Brasil está entre os poucos países do mundo que deve conseguir atingir a meta de dar acesso a medicamentos a 80% das crianças e mulheres grávidas com Aids até 2010.

Os dados do Unicef são de 2006 e fazem parte de um relatório que adverte para os desafios da Aids entre as crianças, jovens e mulheres grávidas. Segundo o informe, o número de homens usando preservativo no Brasil aumentou durante a última década. Mas ainda não está em um nível adequado. Em 2002, apenas 59% dos homens diziam usar preservativos.

O alerta do Unicef é de que os jovens no mundo até 25 anos são responsáveis por 40% das novas infecções do vírus HIV. Na América Latina, são 420 mil de jovens contaminados de um total de 6,4 milhões em todo o mundo.

A meta da ONU é de que, até 2010, os governos estejam capacitados para oferecer assistência para 80% das mães em necessidade, acesso a remédios para 80% das crianças e uma queda de mortalidade de crianças soropositivas em 25%. O Brasil é um dos 21 países que está próximo de atingir essas metas, ao lado de Cuba e Rússia.

Segundo o Fundo da ONU, 351 mil mulheres grávidas com HIV receberam tratamento no mundo em 2006, 60% a mais que em 2005. Os estudos apontam que 50% das crianças que se contaminam por suas mães morrem antes de completar dois anos de idade.

A ONU também espera novos recursos para que os países atinjam as metas. Em 2007, o mundo gastou US$ $10 bilhões para o combate à Aids. Mas os cálculos eram de que seriam necessários US$ 18 bilhões.

(Jamil Chade/O Estado de S. Paulo – 05.04.2008)




Campanha suíça anti-Aids mostra sexo na lua

6 04 2008

Casais copulando na lua, numa caverna ou no fundo do mar – é o que mostram os cartazes da Secretaria Federal de Saúde e da organização Aids-Hilfe da Suíça, que advertem sobre o risco de fazer sexo sem camisinha.

O jurista Sigmund Pugatsch, especializado em direito publicitário, considera a campanha “obscena” e “juridicamente melindrosa”.

A campanha pública anti-Aids, que existe na Suíça desde 1985, é conhecida por causar polêmica. Em 2006, por exemplo, mostrou atletas de esgrima e jogadores de hóquei no gelo totalmente nus.

Os outdoors e cartazes espalhados pelo país esta semana focam o “sexo em situações excepcionais”. Eles mostram cenas de sexo anal entre dois astronautas na lua e copulações de um Tarzan, de um “pesquisador” de cavernas e de um mergulhador com suas respectivas parceiras.

Segundo a Secretaria Federal de Saúde e a Aids-Hilfe, a mensagem é advertir as pessoas de que as regras do sexo seguro devem ser seguidas também nas férias, em viagens de negócios ou em festas.

Originalidade ou obscenidade? 

Ainda que considere compreensível a intenção dos mentores de fazer uma campanha apelativa e eficiente, o jurista Sigmund Pugatsch, de Zurique, classifica os cartazes como “obscenos” e “juridicamente melindrosos”.

“Isso são representações que transgridem claramente os limites da moral e da ética, bem como do direito publicitário”, diz Pugatsch. Ele prevê que haverá reclamações e até medidas judiciais contra a campanha.

Thomas Lyssy, da organização Aids-Hilfe Suíça, tem um opinião bem diferente. “As campanhas precisam ser originais para que chamem a atenção e atinjam seu objetivo”, argumenta.

Descuido em situações excepcionais

Estima-se que na Suíça vivam atualmente 25 mil portadores do vírus da Aids. O risco de contrair a doença no país é considerado maior entre homens que mantêm relações homossexuais, entre pessoas oriundas da região do Subsaara e entre drogados que injetam drogas.

Num estudo recente do Hospital Estadual de St-Gallen, 12% dos pacientes entrevistados disseram que foram infectados em férias ou viagens de negócios no exterior.

Pessoas com boa estratégia de proteção deixaram de usar preservativos em determinadas situações, como por exemplo, quando estavam sob efeito de drogas ou álcool ou excessivamente apaixonadas, tornando-se vítimas da infecção, diz o estudo.

A campanha “Love life stop Aids” tenta chamar a atenção para a importância de pensar no sexo seguro já antes de se ir a uma festa ou começar uma viagem de férias ou de negócios, dizem as autoridades.

Fonte : SWISSINFO

(Agencia de Notícias da AIDS- 05.04.2008)