VANGUARDA traz, a partir desta semana, a série de reportagens “Retratos da Aids”, com matérias que visam mostrar que pessoas infectadas já conseguem, dentro do possível, viver uma vida normal. A série tem também o objetivo de alertar
pessoas que se consideram fora do grupo de risco, além de falar dos avanços em relação à prevenção e ao tratamento da doença, que por enquanto não tem cura e pode levar à morte.
Em 1999, Adriano Dumont*, de 43 anos, recebeu o que pensou ser a pior notícia de sua vida: ele estava infectado pelo vírus do HIV. No início, a idéia de que tudo estava perdido tomava conta de sua mente e ele se viu desesperado e confuso. Afinal, para quem contar aquela situação? Com quem dividir um momento tão difícil como aquele? Enfim, em quem confiar?
A família, naquela hora, representava a única esperança. Adriano pensou que acharia nos parentes o seu ‘ponto de apoio’. Mas o destino lhe provou o contrário. “Eu trabalhava com meu avô, de domingo a domingo, na mercearia dele. Eu esperava apoio, mas, no meu caso, aconteceu o contrário. Meu avô entregou-me o ‘dinheiro’ da semana e disse: vá para casa, pois não quero ninguém doente trabalhando comigo. Eu me vi sozinho, em meio a uma grande multidão”, desabafou.
Além de não poder contar com as pessoas que acreditava que o apoiariam, a doença reservou para Adriano uma série de supresas desagradáveis. “Tive paralisia, perdi o movimento das pernas, além de uma infecção nas juntas – artrite – que era horrível, sentia uma dor insuportável. Quando o médico me examinou e viu que o caso era grave, me encaminhou para o Recife. Cheguei lá com a mão direita em uma almofada. Com o tempo voltei a andar, recuperei o movimento da mão esquerda, mas fiquei com o pulso da mão direita paralisado”, explicou Adriano.
Apesar de toda dor e sofrimento, ele não disistiu de viver. Foi em busca de tratamento para a doença e de sabedoria para superar os desafios que enfrentaria. Na ONG chamada Gestos, localizada na capital do Estado – que disponibiliza espaços de convivência para pessoas soropositivas e oferece oficinas e palestras, Adriano foi treinado e capacitado para aprender a conviver com as dificuldade. Hoje, ele defende a causa com “unhas e dentes”, realiza palestras em várias comunidades, juntamente com a equipe do Programa DST/Aids de Caruaru, e reconquistou o respeito da família.
“No ano passado eu participei de uma campanha com a comunidade do Murici. No São João, realizamos um trabalho de orientação no Pátio de Eventos e, no dia 1º de dezembro, que é o Dia Mundial de Luta contra a Aids, participamos da distribuição de camisinhas. Recentemente, fiz um trabalho na Fundac e, na próxima semana, irei com um agente de polícia para a penitenciária”, contou entusiasmado.
AVANÇOS
Quando a Aids se tornou conhecida no mundo inteiro, há pouco mais de 20 anos, acreditava-se que a pessoa infectada pelo vírus não mais teria expectativas de continuar vivendo. A aparência caquética, deformada pela doença, denunciava que a pessoa estava à beira da morte. Até 1996, existiam apenas duas ou três medicações para tratar a doença. Muitas vezes a pessoa se recuperava mas, logo em seguida, surgiam infecções graves e acabava morrendo. Hoje a realidade mudou. “Com a introdução de novas drogas, a medicação consegue controlar a doença a tal ponto que a pessoa recupera grande parte da imunidade”, afirmou o infectologista Jack Acioly.
Segundo Jack Acioly, o paciente que faz uso correto das medicações e recebe acompanhamento médico pode ter vida normal. “Atualmente as pessoas têm a doença, mas sem os problemas que existiam antes. Os problemas que acontecem agora são resultados dos efeitos colaterais da medicação que, no começo, podem provocar uma série de alterações no organismo.”
Em Caruaru, o órgão responsável por acompanhar e fornecer o tratamento médico aos soropositivos é o SAE (Serviço de Assistência Especializada), que funciona no prédio do Centro de Saúde Amélia de Pontes e Lactário , de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h. O serviço atende aos 32 municípios da 4ª GERES e alguns casos do Sertão. Também dispõe de uma equipe multidisciplinar, que envolve médicos de diferentes especialidades, para atender aos portadores do HIV.
“Aqui, o paciente recebe não penas a assistência dos profissionais, mas também a medicação e o preservativo. No caso das gestantes, quando elas têm alta da maternidade, recebem a fórmula infantil, que é o leite, porque uma das formas de contaminação é a amamentação”, explicou Elzimery Leal, coordenadora municipal do Programa DST/Aids de Caruaru. “Hoje, o Brasil é modelo para outros países. A média de vida tem aumentado muito e temos pacientes há mais de 15 anos em tratamento.”
* Nome fictício, para preservar a identidade do entrevistado
HIV e Aids: qual a diferença?
Quando descobre que é portador do vírus, o paciente é submetido a alguns exames para confirmar o estágio da doença. Nesse caso, existe uma diferença entre o portador do HIV e o paciente que apresenta os sintomas. “Se é positivo para o HIV, o paciente é encaminhado aqui para o Centro e dois exames são feitos: o CD4 e a Carga Viral. Esses exames vão mostrar como é que o paciente está na questão das defesas, da imunidade e ainda da quantidade do vírus. Dependendo desse resultado, ele inicia ou não o tratamento”, explicou Elzimery.
A diferença entre quem apresenta ou não os sintomas consiste no estágio em que se encontra o vírus. “Se o paciente já apresenta os sintomas da doença, então é um caso Aids. Essa é basicamente a diferença. Todo paciente que tem Aids é portador do HIV, mas nem todo portador do vírus tem Aids.”
DADOS
Este ano, até 18 de março, 16 novos casos já foram registrados pelo SAE em Caruaru. Destes 16, quatro casos são Aids, os outros são apenas portadores do vírus. Uma vez que o Centro atende não apenas aos moradores de Caruaru, mas a municípios de toda a região, não se pode definir os casos como sendo apenas locais. No ano passado, de janeiro a novembro, 105 casos foram registrados, somando com dezembro, este número aumenta para 120. Seis casos de morte em decorrência da doença foram registrados em 2007. Este ano, até 18 de março, nenhum caso foi registrado.
“Esse é um programa bem estruturado. Verbas são destinadas para capacitação de profissionais e aquisição de medicamentos e, todos os meses, enviamos relatório ao Ministério da Saúde. Em dezembro, passamos por uma inspeção, a QualiAids, e fomos bem avaliados”, observou Elzimery e completou: “Em Caruaru funciona desde a prevenção, com o COAS, até a assistência e acompanhamento aqui no SAE.”
ENTREVISTA
“A Aids está à minha sombra e não eu à sombra dela”
Jornal VANGUARDA – Como você descobriu que era portador do HIV?
Adriano Dumont (nome fictício) – Foi aqui em Caruaru, tratando outro vírus, o HPV (verrugas que surgem na parte anal, vaginal e peniana). Eu vi aquelas verrugas surgirem e procurei o médico. Fiz algumas aplicações e o médico observou que as lesões não regrediam. Foi aí, então, que ele pediu o teste do HIV.
JV – O que a descoberta do HIV mudou em sua vida?
AD – No meu caso, mudou para melhor. Eu era uma pessoa muito prepotente, arrogante. A Aids me ajudou a melhorar como pessoa, a enxergar o ser humano de uma forma diferente. Mas é algo que não desejo para ninguém. Só eu sei o quanto sofri!
JV – Você costuma falar que é portador da doença?
AD – Falo, tenho segurança. Outro dia, a coordenadora do SAE ligou para mim porque um paciente tomou conhecimento de que estava infectado e queria se matar. Eu fui até o hospital onde ele estava internado, conversei com ele, falei que tinha problemas, que passei por tudo aquilo e, no final, ele disse: “gostei de conversar com você”. Porque viu ali uma pessoa que tem o mesmo problema, né?
JV – Como você superou as dificuldades e se tornou um parceiro na luta contra a doença?
AD – A Gestos, uma ONG do Recife, me treinou e capacitou para realizar atividades. Eles trabalham com prostitutas, homossexuais, adolescentes, jovens e casais portadores do HIV e me ajudaram muito. Eu agradeço muito à equipe do COAS e aqui do Lactário, que até hoje me dão apoio.
JV – Você consegue levar uma vida normal?
AD – Sim, me alimento bem, durmo bem, tenho uma vida normal. Saio à noite, mas com um pequeno detalhe: me previno para não contaminar ninguém. Pena que nem todas as pessoas pensem assim. A maioria das pessoas que chegam aqui falam: “eu vou, mas não vou só”. Tem garotas de programa que furam a camisinha para contaminar o parceiro. Hoje, eu tenho a Aids à minha sombra e não eu à sombra dela.
JV – Além da família, você se sentiu discriminado por mais alguém?
AD – Lá fora nem tanto. Enquanto a família me desprezou, pessoas que eu nunca imaginei me deram total apoio. A população precisa perder essa visão da pessoa com Aids cadavérica, caindo o cabelo, magra, isso mudou! O retroviral nos dá uma qualidade de vida boa.
JV – Se pudesse voltar atrás, o que consertaria em sua vida?
AD – Quando saísse para transar à noite, eu não deixaria de levar a camisinha para me prevenir. Muitas vezes eu não usava pensando que comigo nunca aconteceria.
JV – Gostaria de dizer algo aos leitores?
AD – Ninguém é melhor que ninguém. O preconceito em si é ruim e não constrói. Então, aproximem-se dos doentes, conversem. E se cuidem. O preconceito sempre vai existir, mas é algo que precisamos trabalhar. Acima de tudo, acredito que as pessoas precisam ser mais humanas.
Campanha anti-Aids é voltada a homens
O Ministério da Saúde lançou esta semana uma campanha anti-Aids destinada a homens que têm relações com homens – gays, travestis e aqueles que fazem sexo com homens, mas não se dizem gays. A campanha prevê a distribuição de cartazes e folhetos sobre a prevenção ao vírus e o uso do preservativo. O material será distribuído a organizações ligadas ao público-alvo e divulgado em locais como danceterias e bares.
De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde no ano passado, o percentual de homens com o vírus na faixa de 13 a 24 anos subiu de 24%, em 1996, para 41%, em 2006. Na faixa de 25 a 29 anos, o crescimento foi de 26%, em 1996, para 37%, em 2006.
O plano vai até 2011 e será colocado em prática nos níveis federal, estadual e municipal. A última grande campanha contra a Aids voltada aos homens que se relacionam com homens foi feita em 2002, ao custo de R$ 3,3 milhões.
(Fernandino Neto -Vanguarda Online – 28.03.2008)
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