Detectados 25 casos de tuberculose em Óbidos em 2007

29 03 2008

Em 2007 foram detectados perto de 25 casos de tuberculose no concelho de Óbidos, em pessoas com idades entre os 20 e os 35 anos. Os dados foram avançados pela enfermeira Amadora Oliveira, no Dia Mundial da Tuberculose (24 de Março), que falava sobre a temática com os utentes do centro de convívio do programa Melhor Idade, do Bairro da Senhora da Luz. A responsável explicou que as pessoas apresentavam sintomas de emagrecimento e má disposição sem causa aparente e que, depois de irem ao Centro de Saúde, fizeram exames e foi-lhes diagnostica tuberculose pulmonar. Este ano ainda não foi diagnosticado nenhum caso desta doença. No entanto, a tuberculose continua a fazer vítimas porque as “pessoas ainda não vão ao médico, mesmo quando apresentam indícios desta doença”. O tratamento dura, em média, seis meses, mas depois a pessoa terá que continuar a ser vigiada durante, pelo menos, mais dois anos, e até “ter a certeza que está curado”, referiu a enfermeira e voluntária no projecto “Melhor Idade”. Portugal é o país da Europa que apresenta maior número de casos de tuberculose, apesar da tendência ser decrescente. No último ano, foram diagnosticados 2916 casos, entre situações novas e tratamentos resultantes de recaídas. A ministra da Saúde, Ana Jorge, já fez saber que o Governo pretende igualar as metas europeias em três anos, passando dos actuais 25,7 para 18 casos por cem mil habitantes. Anualmente e em todo o mundo, surgem nove milhões de casos de tuberculose e mais de 1,5 milhões de pessoas morrem de uma doença cuja cura se prolonga por seis meses. Na Europa são, em média, diagnosticados 50 novos casos por dia e morrem sete pessoas por hora. Anualmente mais de 70 mil casos desenvolvem multi-resistência aos fármacos, sendo por isso potencialmente incuráveis.A tuberculose é transmissível através de tosse ou espirro por parte da pessoa doente, sendo que a probabilidade de adoecer aumenta entre os desnutridos, diabéticos, dependentes de drogas injectáveis e imunossuprimidos (portadores de HIV ou pacientes em uso de corticoterapia).Entre os sintomas destacam-se a tosse e escarro por um período longo, falta de apetite e emagrecimento, dificuldade para respirar, suores nocturnos e cansaço fácil. A vacinação continua a ser a melhor prevenção, aliada aos cuidados a ter com o tratamento dos doentes. “Todos os nossos órgãos podem ter tuberculose”, informou Amadora Oliveira, acrescentando que apesar da pulmonar ser a mais conhecida e letal, existe também a tuberculose óssea, renal, hepática e até mesmo da pele. A iniciativa de assinalar o Dia Mundial da Tuberculose com uma palestra sobre a temática foi da animadora do Centro de Convívio do Bairro da Senhora da Luz, Lúcia Santo. Face à adesão de participantes, perto de 30 idosos, a responsável garante que a iniciativa irá ter continuidade, dando destaque a outras efemérides. “A saúde é um tema muito importante e do qual falamos regularmente”, contou Lúcia Santo, acrescentando que semanalmente ali é medida a taxa de glicémia e os diabetes. “As pessoas queixam-se pouco e têm medo de ir ao médico pois é provável de tenham alguma coisa”, acrescenta a responsável, que está a par também das medicações que tomam os utentes.  Jovens acompanham idosos durante as férias escolares Sara e David Neto são irmãos e há quatro anos que participam no programa “Férias Activas”, promovido pela Câmara de Óbidos. Durante as férias da Páscoa estiveram a colaborar com o Centro de Convívio do Bairro da Senhora da Luz e foram eles que fizeram toda a pesquisa sobre a tuberculose que foi apresentada na palestra. “É um trabalho que tem uma utilidade prática para as pessoas”, dizem estes jovens, que investigaram durante quatro dias aquela doença. David Neto destaca que deu-lhe um gozo especial falar sobre este assunto, que considera ser ainda desconhecido da grande maioria dos utentes do centro e é “uma forma de tentar ajudar as pessoas a que não se sintam tão excluídas da sociedade”. Este jovem de 20 anos refere ainda que participa neste programa porque gosta de conviver com os mais idosos. “Eles ensinam-me coisas que eu jamais pensaria que acontecessem e estão sempre bem dispostos. É uma troca de experiência muito enriquecedora”, afirmou.

Sara Neto frequenta o 9º ano na Escola Josefa D’Óbidos e gostaria de ser assistente social ou analista de laboratório. Já o irmão, David, frequenta a Escola Secundária Raul Proença onde se está a especializar em Informática, mas conta que também gostava de ser massagista.

(Fátima Ferreira – Gazeta das Caldas – 28-03-2008)





Kwanza Norte: Projecto `Habilidades para a vida´ forma jovens em Ndalatando

29 03 2008

Vinte e um jovens do município de Cazengo, Kwanza Norte, terminam sábado, em Ndalatando, um curso de formação, inserido no projecto “Habilidades para a Vida”, promovido pelo Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), em parceria com o Ministério da Juventude e Desportos.

O projecto, que será implementado em 18 províncias do país, está a ser executado pelo Secretariado Nacional da Pastoral juvenil, da Igreja Católica (SNPJ) e beneficia jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 25 anos.

A acção formativa, ministrada por entidades do “SNPJ”, provenientes de Luanda, visa capacitar os facilitadores locais que irão formar outros jovens e adolescentes dos vários municípios da província, em matérias de “Direitos Humanos”, “Sexualidade”, “VIH-Sida”, “Resolução de conflitos” e “Comunicação”.

O “empreendedorismo juvenil”, a “higiene”, “relações sociais” e “perigo de minas” constam igualmente dos temas debatidos na acção de capacitação, iniciada segunda-feira.

O bispo da igreja católica no Kwanza Norte, dom Almeida Canda, apelou quinta-feira, aos formandos a aproveitarem os conhecimentos adquiridos, para transmiti-los aos demais jovens da província.

Segundo o prelado, os conteúdos temáticos, ministrados durante a formação, visam aprofundar e melhorar os conhecimentos, convicções e o comportamento dos jovens com relação aos diversos problemas que os afligem.

Recomendou, igualmente, a realização de um amplo debate sobre o VIH-Sida, por forma a alertar os jovens sobre os perigos que esta doença representa para o desenvolvimento das sociedades, as suas consequências, bem como as vias para combatê-la e a necessidade de uma maior consciencialização das pessoas sobre o problema.

A formação integral dos jovens e adolescentes, para que estes possam dispor das suas capacidades na solução dos vários problemas, constitui um dos objectivos desta acção, que decorre em simultâneo com outras, nas províncias da Huíla e do Kuando Kubango.

(AngolaPress – 28-03-2008)




Durão Barroso condecorado na Bulgária

29 03 2008

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, foi hoje condecorado pelo presidente da Bulgária, Gueorgui Parvanov, pela intervenção no processo de libertação das cinco enfermeiras búlgaras e do médico palestiniano condenados à morte na Líbia. A União Europeia (UE) foi a responsável pela mediação do processo com o líder líbio, Muamar Kadhafi.

Os profissionais de saúde eram acusados de ter infectado mais de 400 crianças com o vírus VIH/SIDA e chegaram a enfrentar a pena capital, que mais tarde foi comutada em prisão perpétua.

Para extraditar as enfermeiras e o médico, que estiveram presos durante oito anos, a Líbia exigia o tratamento das crianças líbias infectadas com sida, bem a construção de uma auto-estrada e de um caminho-de-ferro, entre outras exigências.

No discurso de agradecimento, Durão Barroso referiu a importância da Bulgária continuar com as reformas e com o reforço da luta contra a corrupção e o crime organizado. Barroso afirmou que “A corrupção e o crime organizado, sobretudo nos mais altos níveis da administração, não têm lugar dentro da União Europeia e não podem ser tolerados”.

O discurso de Barroso surgiu num momento em que o governo de coligação de centro-esquerda de Serguei Stanichev está envolvido num escândalo de corrupção.

A condecoração aconteceu durante a visita de 24 horas que Durão Barroso está a fazer à Bulgária, membro da União Europeia há pouco mais de um ano.

(Jornal de Notícias – 28-03-2008)




Maurícios podem casar com estrangeiros portadores do HIV/Sida

29 03 2008

Port-Louis, ilhas Maurícias (PANA) - O Parlamento maurício acaba de adoptar uma emenda à lei sobre o casamento que permite aos cidadãos maurícios casarem com estrangeiros portadores do HIV/Sida, soube a PANA quinta-feira de fonte parlamentar.

Segundo o ministro maurício da Saúde, Satish Faugoo, este projecto de lei visa restabelecer os direitos humanos fundamentais e a dignidade humana dos que são afectados por esta doença.

“A questão do HIV/Sida é uma prioridade para o governo”, declarou o responsável maurício, antes de evocar as diversas medidas tomadas com vista a proibir qualquer discriminação ou marginalização de tais indivíduos.
(Panapress – 28-03-2008)





Rio de Janeiro: Acontece nesta sexta-feita o I Seminário sobre Jovens de Rua e AIDS

29 03 2008

Teve início, nesta sexta-feira (28/03), o “I Seminário Crianças, Jovens, Rua e Aids: O que temos a ver com isto?”. O evento é organizado pelo Programa Municipal de DST/Aids do Rio de Janeiro e pelas seguintes entidades (que atuam com crianças e adolescentes carentes): Childhope, EXCOLA, Se Essa Rua Fosse Minha e Rede Rio Criança. O seminário acontece em um hotel na zona sul da capital fluminense. Abaixo, a programação do encontro.

I Seminário Crianças, Jovens, Rua e Aids: O que temos a ver com isto?08:00h às 08:45h (Inscrições)
08:15h às 08:45h (Recepção/Café da manhã)
9:00 às 9:30

ABERTURA OFICIAL: Grupo de Trabalho Crianças, Jovens Rua/AIDS
Programa Nacional DST/AIDS; SESDEC-RJ – Gerência de DST/Aids, Sangue e Hemoderivados; Programa Municipal de DST/AIDS – SMS-RJ; Childhope; EXCOLA; Se Essa Rua Fosse Minha.

9:30 às 9:45

Palestra: A experiência de ações articuladas de prevenção ao HIV/AIDS no município do Rio de Janeiro – Claudio Barría, Marly Cruz.

09:45 às 10:50h

MESA I
DADOS EPIDEMIOLÓGICOS de DST/AIDS E CO-INFECÇÃO EM CRIANÇAS E JOVENS em situação de rua- O que estamos fazendo?
Componentes: Programa Nacional DST/AIDS; SESDEC-RJ – Gerência de DST/Aids, Sangue e Hemoderivados; Programa Municipal de DST/AIDS – SMS-RJ.

10:50 – 11:20h (Debate)

11:20 – 11:30h (Cafezinho)

11:30 a 13:00h

MESA II
Democratização e qualificação do acesso: A experiência das Unidades de Saúde;
Componentes: CMS Heitor Beltrão (CAP 2.2); CMS Manoel José Ferreira (CAP 2.1).

13:00 – 14:00h (Almoço)

14:00 – 14:20h (Grupo de Dança AIACOM)

14:30- 16:00h

MESA III (Dinâmica de debate aberto / plenária)
DIVERSOS OLHARES na interface rua/AIDS: Desafios da universalização das políticas de prevenção, diagnóstico e atendimento às DST/HIV/AIDS, numa perspectiva de direitos

Componentes: Coordenadora da comissão de Políticas Básicas CMCDA-RJ; Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Droga – CAPS/AD Raul Seixas; jovem agente de prevenção nas ruas; ONG da Rede Rio Criança; ONG do Fórum ONG-AIDS; Coordenadora do escritório Rio de Janeiro do UNICEF.

16:00 – 17:00h

Apresentação de novas linguagens de prevenção
Childhope Brasil

17:00h

Lançamento do Guia de Serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento das IST/DST/HIV- AIDS nas regiões Centro, Zona Sul e Grande Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro.

ORGANIZAÇÃO: GT Crianças/Jovens- Rua/AIDS (Programa Municipal de DST/AIDS – SMS-RJ; SESDEC-RJ –Gerência de DST/Aids, Sangue e Hemoderivados; Childhope; EXCOLA; Se Essa Rua Fosse Minha; Rede Rio Criança).

Realização: Projeto Ah Moleque! – Se Essa Rua Fosse Minha e Associação EXCOLA.
APOIO: Programa Nacional de DST/AIDS – Ministério da Saúde; Programa Municipal de DST/AIDS – SMS-RJ; SESDEC-RJ –Gerência de DST/Aids, Sangue e Hemoderivados.

Inscrições: Se Essa Rua Fosse Minha – Glória: 9815-0916 ou gmizael@yahoo. com.br

(Agência de Notícias da Aids – 28-03-2008)





Negro e gay: Do fetiche a discriminação

29 03 2008

O universo gay é bastante segmentado. SM, ursos, musculosos, modernos, negros… Muitas vezes, esses segmentos acabam por se tornar fetiches – já que fogem do padrão dominante. Fora desse universo, no entanto, gays negros são vítimas de dupla discriminação: a da cor da pele e a da orientação sexual.

É esse o caso do estudante de comunicação Jardel Nascimento. Negro, alto e um pouco acima do peso, ele diz que encontra dificuldades para encontrar parceiros nas salas de bate-papo. “Isso porque sou passivo. Se entro com o nick ‘negro’, chove bee perguntando se tenho o pau grande. Quando respondo que não gosto de comer, caem fora”.

Esse depoimento comprova que os estereótipos relacionados ao negro são também fortes na cultura gay. O negro forte e reprodutor da época da escravidão é símbolo de virilidade e potência. Como Jardel gosta de ser passivo, está fora do mito, e, portanto, é visto como corpo de segunda categoria. “Na vida real, quando vou a saunas ou casas noturnas, não costumo ter problemas, mas uma vez, em um clube de orgias, teve um cara que saiu da transa coletiva dizendo que não gostava de negro se esfregando nele”, declara.

O publicitário Marcos Silva já passou por situações parecidas. “Eu estava na pista da Bubu beijando um cara loiro, bem branquelo, mas muito bonito. Daí, apareceu um moreno que esperou um vacilo meu para dizer: ‘larga esse preto e fica comigo, eu cheiro bem melhor que ele’. Fiquei passado e só não parti para a briga porque não sou dessas coisas”. Para Marcos, o que mais chamou a atenção foi o fato que o intruso nem era tão branco assim. “Tinha o nariz largo e os lábios grossos, indicando ascendência negra como a minha”.

Branqueamento
Cientistas sociais como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda já mostraram há várias décadas que, para serem aceitos, alguns negros passaram a adotar comportamentos que os faz se aproximar do universo branco: alisam o cabelo e rejeitam qualquer coisa que possa associá-los às suas origens: do samba à capoeira. “Tem muito mestiço que evita tomar sol para não ficar escuro”, diz Marcos.

No universo gay, há os que buscam no ideal de corpo “barbie” a redenção. “Elas pensam que, bombadas, ninguém vai se ligar na cor da pele”, diz Jardel. “No entanto, acabam reforçando o estereótipo do negro-macho-reprodutor”. Dessa forma, é possível dizer que o virar barbie é uma estratégia, também, de branqueamento.

Padrões positivos
No entanto, há sinais de mudança. O fato de a mídia apresentar homens negros como símbolos sexuais  (Lenny Krawitz e Lázaro Ramos são bons exemplos), tem feito com que jovens gays e negros passem a valorizar seu corpo e sua cultura. “Eu deixei o cabelo crescer tipo black power”, diz Jardel.

Na Inglaterra, o grupo Black Gay Men é um dos mais importantes centros de militância que busca, justamente, valorizar a negritude entre os gays. “É um desafio construir uma comunidade que reúna gays negros”, diz Rob Berkeley, fundador do grupo. “Especialmente porque há vários fatores que jogam contra a valorização cultural dos negros. A homofobia dos cantores de rap jamaicanos, por exemplo, não me deixa mentir. Mas temos conseguido alguns avanços”.

Segundo Rob, valorizar a negritude entre os gays é uma missão importante não apenas para combater o preconceito. “Temos outros resultados decorrentes da valorização da cultura negra entre os gays. Entre eles, posso citar os avanços contra a epidemia de HIV/Aids”. Rob explica que, entre os negros gays do Reino Unido, a incidência do vírus HIV é duas vezes maior que entre os gays brancos. “De alguma forma eles ficaram excluídos das campanhas de prevenção”, explica. “Só recentemente as autoridades de saúde perceberam que precisam ter estratégias diferenciadas para essa dupla minoria”.

Militância
Segundo Cipriano Filho, membro da Articulação Política da Juventude Negra do Estado de São Paulo, a questão da homossexualidade é recente no movimento negro. “A velha guarda se escamoteia e não leva esse assunto devido ao machismo que existe dentro do próprio movimento negro nacional. A juventude, no entanto, consegue discutir as duas formas de discriminação – racial e por orientação sexual – conjuntamente”, afirmou.

Vicente Ferreira dos Santos, assessor parlamentar para questões relacionadas a negros e GLBTs, também afirma que a discussão conjunta da discriminação contra gays e negros é coisa recente. “A esquerda histórica resiste discutir racismo e homofobia, assim como não discute o afeto. De modo geral, a esquerda clássica ainda tem como mote a luta de classes e não percebe a existência de lutas paralelas, ligadas a raça, etnia, gênero e orientação sexual”.

Santos afirma que a incorporação de temas relativos à orientação sexual no movimento contra o racismo coloca em xeque estereótipos relacionados aos negros. “A imagem do negro reprodutor ou da negra fogosa são mitos que vêm da época da senzala. O negro foi exaustivamente retratado como viril, másculo, garanhão, o que na época da escravidão animalizava as pessoas. Quando a questão da homossexualidade é introduzida, esses mitos são desconstruídos”, afirma. “A nova sociedade não aceita mais os papéis padrões e, agora, o movimento negro começa, a partir da discussão da sexualidade, perceber que essas imagens estereotipadas são prejudiciais”.

De acordo com o assessor parlamentar, a “velha guarda” do movimento negro ainda resiste à incorporação da homossexualidade em suas bandeiras, mas os jovens tratam do tema. “Não dá mais para ouvir frases do tipo ‘além de negro é viado’”.

(Ferdinando Martins – A CAPA – 28-03-2008)





Retratos da Aids

29 03 2008

VANGUARDA traz, a partir desta semana, a série de reportagens “Retratos da Aids”, com matérias que visam mostrar que pessoas infectadas já conseguem, dentro do possível, viver uma vida normal. A série tem também o objetivo de alertar
pessoas que se consideram fora do grupo de risco, além de falar dos avanços em relação à prevenção e ao tratamento da doença, que por enquanto não tem cura e pode levar à morte.

Em 1999, Adriano Dumont*, de 43 anos, recebeu o que pensou ser a pior notícia de sua vida: ele estava infectado pelo vírus do HIV. No início, a idéia de que tudo estava perdido tomava conta de sua mente e ele se viu desesperado e confuso. Afinal, para quem contar aquela situação? Com quem dividir um momento tão difícil como aquele? Enfim, em quem confiar?
A família, naquela hora, representava a única esperança. Adriano pensou que acharia nos parentes o seu ‘ponto de apoio’. Mas o destino lhe provou o contrário. “Eu trabalhava com meu avô, de domingo a domingo, na mercearia dele. Eu esperava apoio, mas, no meu caso, aconteceu o contrário. Meu avô entregou-me o ‘dinheiro’ da semana e disse: vá para casa, pois não quero ninguém doente trabalhando comigo. Eu me vi sozinho, em meio a uma grande multidão”, desabafou.
Além de não poder contar com as pessoas que acreditava que o apoiariam, a doença reservou para Adriano uma série de supresas desagradáveis. “Tive paralisia, perdi o movimento das pernas, além de uma infecção nas juntas – artrite – que era horrível, sentia uma dor insuportável. Quando o médico me examinou e viu que o caso era grave, me encaminhou para o Recife. Cheguei lá com a mão direita em uma almofada. Com o tempo voltei a andar, recuperei o movimento da mão esquerda, mas fiquei com o pulso da mão direita paralisado”, explicou Adriano.
Apesar de toda dor e sofrimento, ele não disistiu de viver. Foi em busca de tratamento para a doença e de sabedoria para superar os desafios que enfrentaria. Na ONG chamada Gestos, localizada na capital do Estado – que disponibiliza espaços de convivência para pessoas soropositivas e oferece oficinas e palestras, Adriano foi treinado e capacitado para aprender a conviver com as dificuldade. Hoje, ele defende a causa com “unhas e dentes”, realiza palestras em várias comunidades, juntamente com a equipe do Programa DST/Aids de Caruaru, e reconquistou o respeito da família.
“No ano passado eu participei  de uma campanha com a comunidade do Murici. No São João, realizamos um trabalho de orientação no Pátio de Eventos e, no dia 1º de dezembro, que é o Dia Mundial de Luta contra a Aids, participamos da distribuição de camisinhas. Recentemente, fiz um trabalho na Fundac e, na próxima semana, irei com um agente de polícia para a penitenciária”, contou entusiasmado.

AVANÇOS
Quando a Aids se tornou conhecida no mundo inteiro, há pouco mais de 20 anos, acreditava-se que a pessoa infectada pelo vírus não mais teria expectativas de continuar vivendo. A aparência caquética, deformada pela doença, denunciava que a pessoa estava à beira da morte. Até 1996, existiam apenas duas ou três medicações para tratar a doença. Muitas vezes a pessoa se recuperava mas, logo em seguida, surgiam infecções graves e acabava morrendo. Hoje a realidade mudou. “Com a introdução de novas drogas, a medicação consegue controlar a doença a tal ponto que a pessoa recupera grande parte da imunidade”, afirmou o infectologista Jack Acioly.
Segundo Jack Acioly, o paciente que faz uso correto das medicações e recebe acompanhamento médico pode ter vida normal. “Atualmente as pessoas têm a doença, mas sem os problemas que existiam antes. Os problemas que acontecem agora são resultados dos efeitos colaterais da medicação que, no começo, podem provocar uma série de alterações no organismo.”
Em Caruaru, o órgão responsável por acompanhar e fornecer o tratamento médico aos soropositivos é o SAE (Serviço de Assistência Especializada), que funciona no prédio do Centro de Saúde Amélia de Pontes e Lactário , de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h. O serviço atende aos 32 municípios da 4ª GERES e alguns casos do Sertão. Também dispõe de uma equipe multidisciplinar, que envolve médicos de diferentes especialidades, para atender aos portadores do HIV.
“Aqui, o paciente recebe não penas a assistência dos profissionais, mas também a medicação e o preservativo. No caso das gestantes, quando elas têm alta da maternidade, recebem a fórmula infantil, que é o leite, porque uma das formas de contaminação é a amamentação”, explicou Elzimery Leal, coordenadora municipal do Programa DST/Aids de Caruaru. “Hoje, o Brasil é modelo para outros países. A média de vida tem aumentado muito e temos pacientes há mais de 15 anos em tratamento.”

* Nome fictício, para preservar a identidade do entrevistado

HIV e Aids: qual a diferença?
Quando descobre que é portador do vírus, o paciente é submetido a alguns exames para confirmar o estágio da doença. Nesse caso, existe uma diferença entre o portador do HIV e o paciente que apresenta os sintomas. “Se é positivo para o HIV,  o paciente é encaminhado aqui para o Centro e dois exames são feitos: o CD4 e a Carga Viral. Esses exames vão mostrar como é que o paciente está na questão das defesas, da imunidade e ainda da quantidade do vírus. Dependendo desse resultado, ele inicia ou não o tratamento”, explicou Elzimery.
A diferença entre quem apresenta ou não os sintomas consiste no estágio em que se encontra o vírus. “Se o paciente já apresenta os sintomas da doença, então é um caso Aids. Essa é basicamente a diferença. Todo paciente que tem Aids é portador do HIV, mas nem todo portador do vírus tem Aids.”

DADOS
Este ano, até 18 de março, 16 novos casos já foram registrados pelo SAE em Caruaru. Destes 16, quatro casos são Aids, os outros são apenas portadores do vírus. Uma vez que o Centro atende não apenas aos moradores de Caruaru, mas a municípios de toda a região, não se pode definir os casos como sendo apenas locais. No ano passado, de janeiro a novembro, 105 casos foram registrados, somando com dezembro, este número aumenta para 120. Seis casos de morte em decorrência da doença foram registrados em 2007. Este ano, até 18 de março, nenhum caso foi registrado.
“Esse é um programa bem estruturado. Verbas são destinadas para capacitação de profissionais e aquisição de medicamentos e, todos os meses, enviamos relatório ao Ministério da Saúde. Em dezembro, passamos por uma inspeção, a QualiAids, e fomos bem avaliados”, observou Elzimery e completou: “Em Caruaru funciona desde a prevenção, com o COAS, até a assistência e acompanhamento aqui no SAE.”

ENTREVISTA
“A Aids está à minha sombra e não eu à sombra dela”
Jornal VANGUARDA – Como você descobriu que era portador do HIV?
Adriano Dumont (nome fictício) – Foi aqui em Caruaru, tratando outro vírus, o HPV (verrugas que surgem na parte anal, vaginal e peniana). Eu vi aquelas verrugas surgirem e procurei o médico. Fiz algumas aplicações e o médico observou que as lesões não regrediam. Foi aí, então, que ele pediu o teste do HIV.
JV – O que a descoberta do HIV mudou em sua vida?
AD – No meu caso, mudou para melhor. Eu era uma pessoa muito prepotente, arrogante. A Aids me ajudou a melhorar como pessoa, a enxergar o ser humano de uma forma diferente. Mas é algo que não desejo para ninguém. Só eu sei o quanto sofri!
JV – Você costuma falar que é portador da doença?
AD – Falo, tenho segurança. Outro dia, a coordenadora do SAE ligou para mim porque um paciente tomou conhecimento de que estava infectado e queria se matar. Eu fui até o hospital onde ele estava internado, conversei com ele, falei que tinha problemas, que passei por tudo aquilo e, no final, ele disse: “gostei de conversar com você”. Porque viu ali uma pessoa que tem o mesmo problema, né?
JV – Como você superou as dificuldades e se tornou um parceiro na luta contra a doença?
AD – A Gestos, uma ONG do Recife, me treinou e capacitou para realizar atividades. Eles trabalham com prostitutas, homossexuais, adolescentes, jovens e casais portadores do HIV e me ajudaram muito. Eu agradeço muito à equipe do COAS e aqui do Lactário, que até hoje me dão apoio.
JV – Você consegue levar uma vida normal?
AD – Sim, me alimento bem, durmo bem, tenho uma vida normal. Saio à noite, mas com um pequeno detalhe: me previno para não contaminar ninguém. Pena que nem todas as pessoas pensem assim. A maioria das pessoas que chegam aqui falam: “eu vou, mas não vou só”. Tem garotas de programa que furam a camisinha para contaminar o parceiro. Hoje, eu tenho a Aids à minha sombra e não eu à sombra dela.
JV – Além da família, você se sentiu discriminado por mais alguém?
AD – Lá fora nem tanto. Enquanto a família me desprezou, pessoas que eu nunca imaginei me deram total apoio. A população precisa perder essa visão da pessoa com Aids cadavérica, caindo o cabelo, magra, isso mudou! O retroviral nos dá uma qualidade de vida boa.
JV – Se pudesse voltar atrás, o que consertaria em sua vida?
AD – Quando saísse para transar à noite, eu não deixaria de levar a camisinha para me prevenir. Muitas vezes eu não usava pensando que comigo nunca aconteceria.
JV – Gostaria de dizer algo aos leitores?
AD – Ninguém é melhor que ninguém. O preconceito em si é ruim e não constrói. Então, aproximem-se dos doentes, conversem. E se cuidem. O preconceito sempre vai existir, mas é algo que precisamos trabalhar. Acima de tudo, acredito que as pessoas precisam ser mais humanas.

Campanha anti-Aids é voltada a homens
O Ministério da Saúde lançou esta semana uma campanha anti-Aids destinada a homens que têm relações com homens – gays, travestis e aqueles que fazem sexo com homens, mas não se dizem gays. A campanha prevê a distribuição de cartazes e folhetos sobre a prevenção ao vírus e o uso do preservativo. O material será distribuído a organizações ligadas ao público-alvo e divulgado em locais como danceterias e bares.
De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde no ano passado, o percentual de homens com o vírus na faixa de 13 a 24 anos subiu de 24%, em 1996, para 41%, em 2006. Na faixa de 25 a 29 anos, o crescimento foi de 26%, em 1996, para 37%, em 2006.
O plano vai até 2011 e será colocado em prática nos níveis federal, estadual e municipal. A última grande campanha contra a Aids voltada aos homens que se relacionam com homens foi feita em 2002, ao custo de R$ 3,3 milhões.

(Fernandino Neto -Vanguarda Online – 28.03.2008)